domingo, 14 de setembro de 2008

Lupe Ces: Por favor parade isto!

Hai mais de três anos que dous moços galegos, Ugio e Giana, colocavam um artefacto explosivo num caixeiro de Compostela, acçom pola que fôrom detidos de imediato e pola que seguem encarcerados. Poucos dias despois, Lupe Ces, ex-integrante da A.P.U. que chegou a conhecer a prisom pola sua suposta vinculaçom com a luita armada do E.G.P.G.C., hoje destacada militante feminista (e nom só), publicou o seguinte comentário num foro de internet. Recuperamo-lo aqui por ser, mália o seu carácter improvisado, um espléndido alegato a prol do sentido comum e em contra do contraproducente uso da violência política. (Por certo que a réplica delirante que lhe dera um indivíduo de claras tendências nazis fora mui comentada naquela altura)

Autor: Lupe Ces
Data: 27-07-05 23:57

Eu também concordo com o que se di no escrito que inicia estes comentários mas quero faze-lo, segundo o meu critério, desde umha postura mais crítica que a que vejo reflectida aqui. Quero falar das conseqüencias que tenhem este tipo de actividades políticas violentas, nom só para as pessoas que as executam (cárcere, morte, lesións, enfermidades mentais, marginaçom social...), senom, e mais importante para mim, quem som as vítimas reais destas acçons armadas e que frutos se recolhem delas. Tudo isto, quero aclarar, som ensinanzas que eu saco da experiencia de ter vivido moi de perto um proceso de loita armada neste país ainda muito recente. Daquela experiencia saem estas reflexons, que agardo podam ser de utilidade para evitar sofrimentos inútiles e feridas que som muito dificis de curar quando nom impossiveis de cicatrizar. Confio que nom se califique este escrito com os clichés com os que se manexam estes temas quando falam as bombas e as pistolas. "Quem anda com coitelos acava cortando-se" di ao meu entender moi sabiamente o dito popular. Na Nova Poesia Galega, onde se recolhia o ideario do EGPGC, falava-se de que nom se ia atentar contra vidas humanas. A prática armada demostrou que ainda que a vontade seja moi clara, a violência mata, e sobre a conciência das pessoas que nos tocou viver esse proceso dum jeito ou outro, estám as quatro vidas perdidas: na organizaçom armada, Lola e Jose; a do guardia civil de Irijoa e a da moça de Vigo que estava na discoteca Clangor.

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Quem pujo a bomba no caixeiro de Compostela pensou na possiblidade de ter quitado a vida ou ocasionado feridas a pessoas que passaram por ali nesse momento? Estám dispostas essas pessoas a que a vida de outras passe como umha pelota de mao em mao dependendo de avisos telefónicos e da vontade das forças do estado para actuar dum jeito ou outro? Som danos colaterais? Sim? Entom somos o mesmo que os imperialistas, mas ao nosso nível, à nossa escala, porque se tivessemos o seu poder, as suas armas, os seus números, reproduciriamos os mesmos esquemas de sociedades autoritárias, violentas e agressivas, é dizer, imperialistas, onde a ideia de que o fim justifica os meios, serve de colchom amortiguador de todo tipo de violaçons de direitos humanos e de submetimento da sociedade.

Também quero sulinhar o tipo de relaçons humanas que muitas vezes producem estas práticas políticas violentas, ao menos esta é a minha experiencia. A desconfianza entre companheiros e companheiras, as acusaçons e a mania perseguitoria instala-se nas relaçons e na vida cotia. A vinganza e o castigo asumen-se como metodologia. Nom quero dizer com isto que nom sejam práticas que estejam instaladas também nos movimentos sociais ou na vida privada, porque fam parte da ideologia dominante e som parte inseparável da existencia dos modelos de estado que conhecemos, mas, como acontece nesse caso, ao estar a violência legitimada, as consequencias sobre as pessoas som terríveis, pensemos em consignas como "castigo aos colaboracionistas" e "um estado forte, temido polos nossos inimigos". Neste caso, a pena de morte é ao estado de Texas, como estas actitudes e práticas som ás pessoas que nos erigimos num momento dado em elites pretendidamente revolucionárias.

É certo que a violência tem a sua raiz e o seu alimento nas desigualdades, mas nom é menos certo que a violência cria também desigualdades. As bombas som altofalantes de muita poténcia, fam escuitar a sua voz independentemente da importancia real ou numérica de quem as pom, do seu peso social. Som linguages de poder, nom dum poder popular, compartido e construido desde maiorias sociais conseguidas na participaçom e inclussom de minorias e maiorias diversas em projectos comuns, senom o poder da violência justificada por ideologia e legitimando-se na injustiça e opressom que produz o poder dominante. Pôr o destino dum povo, um proxecto político, nas maos dumhas poucas pessoas que convivem com a ideia de morrer, que decidem sobre a vida ou a morte de outras, é contradictório com a construcçom dum pais livre e umha sociedade feliz, que aposta pola vida e o desenvolvemento humano e do meio natural. Temos experiências recentes e conhecimento de quanto tenhem que passar outras sociedades que vivem ou vivirom situaçons de guerra ou processos políticos armados, para conseguir procesos de negociaçom e avanço político. E estou a falar de sociedades onde a práctica armada contava ou conta com um respaldo social amplo!!! No caso da Galiza, esse respaldo nem existiu nem existe. Pretende-se criar polométodo da coacçom e o medo?

Nom é certo que exista um só caminho para conseguir objectivos políticos por muito legitimos que estes sejam. E se só existira o da violência, haveria que inventa-los. Tem Catalunya menos conciência nacional por carecer de organizaçons que practiquem a violência política? É umha sociedade menos articulada em quanto a redes e organizaçons sociais? É Quebec umha sociedade menos desenvolvida em quanto a procesos de autodeterminaçom? Em que espelhos nos olhamos?

Preocupa-me a situaçom das pessoas detidas, mas tenho que dizer que estou aliviada por nom ter que estar sofrendo pola morte ou feridas das pessoas que puiderom ser vítimas da bomba posta no caixeiro. Também que as pesoas e as organizaçons temos que asumir a responsabilidade que emana das nossas acçons ao longo das nossas vidas. E quem nom tem responsabilidade? Por que teria que sentir-se afectada? Porque tudo isto afecta-nos, nom só como pessoas que empatizamos com o sofrimento humano, senom que nos afecta directamente porque está feito no nome da libertaçom do nosso país, da nossa dignidade como povo.

Por favor, parade isto!

Temos neste país umha quota já demasiado elevada de mortes e sofrimento sem necessidade de criar mais: accidentes e enfermidades laborais; accidentes de tránsito; violência de género... por certo a última vítima, umha nena de dous anos no concelho de Narom que tivo umha morte terrível! De verdade alguém pensa que tudo isto amanha-se a bombazos? É tam despreciável o movemento político e social do nosso país, (sindicatos, partidos e organizaçons políticas, movimento ecologista, redes feministas, movimentos pola soberania alimentária e o comércio justo, de educaçom para a paz, medios de comunicaçom alternativos, movimentos de acçom cultural, movimentos de defessa da lingua, espaços alternativos, de defesa dos direitos das pessoas presas, polos direitos civís, as liberdades sexuais, da saúde, das pessoas imigrantes...), dá tam pouca confianza que nom pague a pena gastar as nossas vidas, o nosso dinheiro, as nossas ideias em alimenta-los, desenvolve-los, melhora-los para construir um futuro melhor para este povo? Agardo que a minha experiência e a de muita outra gente valga para algo e que este escrito nom seja utilizado por quem nom quere solucionar os problemas senom potencialos em contra do nosso país.

Assinado.- Lupe Ces

Um comentário:

Rocío disse...

Ola! Levo un rato pensando que quero dicir realmente, porque por motivos obvios teño sentimentos encontrados.
Así que ó final só che preguntarei de onde sacaches ese texto tan acertado.
Seguirei pensando e gracias por lembrarme todo este tema.