Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Mil dias: a experiência chilena da Unidade Popular (I)


Por Vítor Manuel Martins


Os dirigentes da Unidade Popular. De esquerda a direita: Carlos Altamirano (com óculos) do Partido Socialista, Luis Corvalán (de chapeu) do Partido Comunista, Rodrigo Ambrosio (MAPU), Salvador Allende e Bosco Parra (Esquerda Cristá). Detrás de Allende está Carlos Morales (PR).
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A tradiçom de luta da classe operária chilena vem de longe. Paralelamente à constituiçom dumha burguesia forte e expansionista, consolidou-se um movimento operário nas suas posições de classe. No Chile surgiu a primeira mútua operária da América Latina (1847); os primeiros caminhos-de-ferro (1851); a legislaçom civil mais adiantada do seu tempo (1855); a primeira lei de sufrágio universal (1884); a primeira legislaçom social efectivamente aplicada (lei do lazer dominical, 1907, simultaneamente à do Uruguai de Battle); umha das melhores de ensino leigo e obrigátorio (1909); a primeira República Socialista da América (1932, batizada assim por decreto-lei); o primeiro e único governo de Frente Popular do continente (1938-52),... Em Setembro de 1970 teria lugar um acontecimento sem precedentes: a eleiçom como presidente do Chile do socialista Salvador Allende, candidato da Unidade Popular, quem se propunha levar a cabo «umha revoluçom por vias legais».

A tradiçom da classe trabalhadora chilena só emergeu no século XX como umha força puxante. Com efeito, em 1909 funda-se a Federaçom Operária e dez anos depois, com um programa novo, este sindicato propom abolir o regime capitalista. A eleiçom na altura de 1921 de Emílio Recabarren e Luís Víctor Cruz, candidatos do Partido Operário Socialista (POS), marca um fito histórico ao significar a presença, pola primeira vez, de representantes operários num Parlamento dominado pola oligarquia. Um ano mais tarde o POS converte-se no Partido Comunista.

O entreguismo ao imperialismo e a repressom política durante a ditadura do General Ibáñez e dos seus sucessores (1927-32), deixaram umha vaga de descontentamento social canalizado em greves e outras movimentações políticas polas embrionárias organizações operárias e partidos políticos de esquerda. O labor político dumha série pequenos movimentos socialistas, unido ao descontentamento das massas perante as injustiças cometidas polos que detentavam o poder, conduzem ao poder a um movimento revolucionário encabeçado polo coronel Marmaduke Grove (chefe militar) e Eugénio Matte (dirigente civil). Em 4 de Junho de 1932 é derrotado o governo de direitas e instaura-se um governo socialista.

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Na forma de República Socialista, o novo governo embarca-se em seguida numha série de medidas concretas en benefício dos carenciados, contidas num programa conhecido como de “50 pontos” e sob a consigna de “Pam, teito e abrigo”. As medidas reformadoras propostas provocarom a ira da reacçom direitista. Ainda assim há no novo governo umha clara consequência anti-imperialista; o seu programa económico remarca que “a administraçom do crédito, o exercício do comércio externo e interno, o controlo dos salários e do mercado escaparom das nossas maos. Empresas estrangeiras têm no seu poder toda a indústria pesada de produçom de matérias primas e umha grande parte dos serviços públicos. As nossas classes privilegiadas viverom embriagadas com os luxos e a molicie que lhe fornecia o capitalismo estrangeiro a cámbio das nossas riquezas naturais e da miséria do povo. Por isto na burguesia do Chile, mais do que em nengum país que se chame livre, evidenciou-se umha maior falta de respeito por todo o que é nacional...”.O programa dos revolucionários nom propunha a socializaçom dos meios de produçom nem a confiscaçom das grandes fortunas. Mais ainda, o governo nom se apoiou decisivamente nas massas para a sua execuçom e assim foi como, após 12 días, foi derrocado por um golpe de Estado apoiado pola burguesia nacional e o imperialismo. Apesar da sua curta duraçom, a Junta Revolucionária constituiu unha esperança para a classe operária e, aliás, juntou no seu seio a cinco pequenos movimentos socialistas de cuja unificaçom nascería em 1933 o Partido Socialista.

Em cada jeira do desenvolvimento da luta da classe trabalhadora chilena houve períodos de encontro e desencontro com as forças da pequena burguesia.

A Frente Popular
Seguindo as resoluções do VII Congresso (1935) do Komintern, o Partido Comunista entregou-se de cheio à ideia da constituiçom dumha Frente Popular. O fundamento desta linha está na luita contra o triunfo do fascismo e a defesa da democracia. A Frente Popular passou a constituir umha aliança de forças operárias e democrático-burguesas (representadas no Partido Radical) cum programa que, contemplando os interesses de classes antagónicas, tendia a eliminar os atritos nas suas posições opostas. O mais destacado nele era a defesa das liberdades democráticas e algumhas reformas económico-sociais, com visos na melhoria das condições de vida das massas operárias.

Porfim em 1936 organíza-se a Frente Popular (FP). Em 1938 realiza-se a Convençom de Esquerdas na que se designa como candidato para as eleições desse ano o mestre radical Pedro Aguirre Cerda. Para além do Partido Radical, partido hegemónico da coaligaçom, a FP estava integrada polo Partido Comunista, o Partido Socialista e o Partido Democrata junto a grupos ibañistas. A FP derrota à direita por 4000 votos após umha campanha de extraordinária combatividade.

O programa de governo frentepopulista era basicamente reformador, contemplando umha série de medidas que visavam dinamizar a agilizar a economia seriamente comprometida ao interesse foráneo. No plano social recolhia umha série de reivindicações, que apontavan o afortalamento democrático, o fim da repressom contra as organizações dos trabalhadores, o planeamento económico, o fomento industrial, a supressom dos monopólios, a reforma agraria, o ensino obrigatório e gratuíto, leis sociais, políticas de habitaçom popular e saúde, defesa da paz na América Latina.

Os efeitos da experiência de governo frentista seriam de grande trascendência para o país. A mais importante é a criaçom em 1939 da CORFO (Corporaçom de Fomento da Produçom), entidade estatal destinada a industrializar rapidamente o país através do planeamento económico e o crédito industrial. Sob o seu impulso criou-se um plano de electrificaçom e planos de produçom de aço, petróleo, açúcar de remolacha, indústria conserveira, têxtil, cimento, pnéus,... Duas forom as razões para fomentar a industrializaçom: a necessidade de aumentar o nível de vida e o ingresso per cápita e a vulnerabilidade da economia chilena às flutuações exteriores. Isto também favoreceu a poupança de divisas, evitando o esbanjamento em produçom que podia ser elaborada no país convertendo-se na experiência mais bem sucedida de planeamento econômico da América Latina.

O governo do radical González Vídela, o último da Frente Popular (1946-52), contou com a participaçom ministerial dos comunistas, mas logo o PC foi ilegalizado mediante a Lei de Defensa Permanente da Democracia, conhecida como “Lei maldita”. Os seus dirigentes forom deportados, encarcerados e perseguidos, o que nom impediu que os comunistas continuassem umha activa vida política na clandestinidade.

A Frente do Povo
Fracassada a experiência da Frente Popular polo desencontro da esquerda com as forças da pequena burguesía, apesar da triste relembrança da ditadura do General Ibáñez, em 1951, um sector majoritário do PS que constituira o Partido Socialista Popular apoia a sua candidatura numha plataforma de carácter populista.

Entom o sector minoritário em que se dividira o Partido Socialista encabeçado por Salvador Allende, os comunistas e outras pequenas formações formam a Frente Nacional do Povo (FRENAP). En 1952 candidata a Salvador Allende cum programa que propom a necessidade de conquistar um governo que rompa com a dependência e com o imperialismo através da nacionalizaçom das riquezas básicas, entregue a terra ao camponesado por meio dunha profunda reforma agraria e acabe com o domínio da oligarquia financeira. A primeira candidatura de Allende à presidência apenas recebe o 5,45% de votos.

A política econômica do segundo governo de Ibáñez (1952-58), ao mais puro corte reaccionário, originou a saída do seu governo do Partido Socialista Popular propiciando assim o reencontro da esquerda. Assim é como nasce a Frente de Acçom Popular.

FRAP (Frente de Acçom Popular)
Surge em 28 de Fevereiro de 1956 como umha coaligaçom política e eleitoral de unidade das forças da esquerda, nomeadamente socialistas e comunistas. A FRAP seria o conjunto de forças que luitariam por um programa anti-imperialista, antioligárquico e antifeudal (Declaraçom da FRAP, 1956) num amplo movimento de massas pola conquista dos direitos dos trabalhadores e a emancipaçom econômica e política nacional.

A FRAP opuxo-se ao governo de Ibáñez e nas eleições legislativas de 1957 obtivo um importante avanço eleitoral. Produzida a unidade do socialismo, em 1957 Salvador Allende passa a presidir a FRAP sendo o seu candidatado nas eleições presidenciais.

As propostas programáticas da FRAP enquadram-se numha alternativa anti-oligárquica e anti-imperialista, que toma as grandes reivindicações nacionais da Frente do Povo de 1952. No concreto, propunha-se a acentuaçom e consolidaçom da democracia política, a recuperaçom das actividades industriais, a eliminaçom da carestia, o restabelecimento do poder aquisitivo dos trabalhadores, um plano de nacionalizações do cobre e resto de riquezas básicas, de estatizaçom da banca, a reforma agraria,...

Nas eleições presidenciais de 1958 Salvador Allende ocupa o segundo lugar, (28,65% e a 33.000 votos do ganhador, Jorge Alessandri). Nas eleições de 1964 triunfa o candidato da Democracia Cristá, ocupando novamente o segundo lugar Salvador Allende com o 39,19% de votos.

No seio da FRAP houve tensões entre socialistas e comunistas enquanto à definiçom e estratégia política que se acentuaria a cada derrota eleitoral. Mentres que os socialistas defendiam que se tratava dumha Frente de Trabalhadores (coaligaçom exclusiva dos partidos da classe operária em defesa e luita dos seus interesses), para os comunistas era umha Frente de Libertaçom Nacional (via eleitoral de aceso ao poder em coaligaçom com outros partidos chamados burgueses como os radicais e democrata-cristaos reunidos num programa de emancipaçom nacional e de democratizaçom política e social). Se bem houve críticas ao PC pola sua pouca claridade política, o PS apoiou a formaçom da FRAP.

Os partidos integrantes eram:
• Partido Comunista
• Partido Socialista Popular (até a súa unificaçom no PS em 1957)
• Partido Socialista
• Partido Democrático do Povo
• Partido Democrático de Chile
• Vanguarda Nacional do Povo
• Partido da Social Democracia.

En 1960 o Partido Democrático do Povo e o Partido Democrático de Chile fusionam-se para formar o PADENA (Partido Democratico Nacional) abandonando a frente en 1965.
Vanguarda Nacional do Povo surge en 1958 como resultado da fusom de vários grupos menores como o Partido do Trabalho.

Cara a Unidade Popular
Perante as eleições presidenciais de 1970, o fracasso das receitas reformadoras e desenvolvimentistas impulsadas polo governo estado-unidense através da Aliança para o Progreso e que foram assumidas polo governo democrata-cristao de Eduardo Frei (desde 1964), a extrema concentraçom do capital e a acentuaçom da dependência, terminan pondo em evidência o carácter da sociedade chilena e da revoluçom que a devia transformar. Com efeito, as fracas tentativas de mudança operadas pola Democracía Cristá naufragarom na estagnaçom económica, a carestía e a repressom violenta contra o pobo (massacres de San Miguel, Puerto Montt...).

Em Novembro de 1967 o PS realiza o seu XXII Congreso Geral no que se define como umha organizaçom marxista-leninista (pensamento Trotsky) e se propom como tarefa organizar e conduzir aos trabalhadores para derrubar o regime vigente, conquistar o poder e construir umha sociedade socialista sem descartar qualquer método de luita. Porém, a sua praxi, fiel às condutas históricas do movimento operário chileno, seguiu a ser a luita reivindicativa e de confronto eleitoral, embora com umha linguagem radicalizada como catalisador do descontentamento social.

Entretanto, o PC, assentado firmemente no que chamava “A Nossa Via”, apostava polo respeito polo marco institucional e validaçom da luita dentro do Estado burguês aceitando com realismo a sua condiçom de partido intra-sistema. Destarte, ao encarar as eleições de 1969, fará-o sob o lema “Unidade Popular para um Governo Popular”, propondo a necessidade de conquistar em 1970 um governo de carácter pluralista, amplo, que asegurasse ao país estabilidade democrática e umn acelerado progresso social, económico e político. Para o PC, quanto mais amplo for esse governo, mais revolucionario seria.

A estratégia política dos comunistas é respaldada nas urnas ao obter nas eleições paralamentares de Março de 1969 o 15,9% de votos frente o 12,2% dos socialistas. Entom, num Pleno Nacional celebrado polo PS en Junho de 1969 o partido aprova a “política de Frente Revolucionaria” e de questionamento da “legalidade burguesa”. Nesse Pleno, Allende, de maneira decidida defendeu unha política mais achegada ao PC, argumentando a favor dumha ampla aliança popular, de acordo com as condições políticas que se davam nesse momento nas distintas forças políticas do país (nomeadamente a mudança interna experimentada no PR e pola constituçomn, un mes antes, do MAPU como racha da democracia-cristá) e que ia na linha partidária da unidade com as organizações operárias. Porém, a maioria do Pleno apostou por aprofundar a linha aprovada no XXII Congresso, rejeitando centrar a sua estratégia política nas eleições presidenciais de 1970. No entanto, apesar da verborreia revolucionária, pouco a pouco o Comité Central do PS, a instáncias de Salvador Allende, Clodomiro Almeyda e Adonis Sepúlveda, acabou aceitando as teses do PC em orde de agrupar "as mais amplas forças anti-imperialistas e antioligárquicas", numha aliança de partidos marxistas e nom marxistas. A nova posiçom implicava a liquidaçom política da FRAP.

Em Setembro de 1969 constitui-se a Mesa Redonda de conversaçom da que acabaria saindo a ideia da Unidade Popular em cujo seio se deu um desencontro entre os representantes socialistas e comunistas. Enquanto o PC via a questom do socialismo no Chile como umha “perspectiva indefinida no tempo”, Allende e os socialistas acreditavam na possibilidade da transformaçom socialista da sociedade para já. Finalmente a Unidade Popular (UP) ficou constituída como coaligaçom eleitoral em 9 de Outubro de 1969 com a participaçom de até quatro organizações burguesas: Partido Radical (PR), Acçom Popular Independente (API), Partido Social Democrata (PSD) e Movimento de Acçom Popular Unitária (MAPU).

Porém, esta nova coaligaçom era muito diferente das anteriores edições de frentes da esquerda: na Unidade Popular, a diferença do passado, serám os partidos operários (PS e PC) as forças dominantes e majoritárias.

(Continuará...)

Sábado, 27 de Junho de 2009

Pescanova não é um modelo, é um desastre

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(Colo a seguir, para abrir boca, os primeiros parágrafos dum interessante artigo de Manoel Santos. Moi recomendável ler o texto completo em Vieiros).

A empresa transnacional Pescanova, de orixe galega, está acusada en medio mundo de sobreexplotar bancos pesqueiros, de contaminar as costas, de esnaquizar a biodiversidade mariña e de contratar en condicións laborais abusivas, até negando dereitos sindicais.


Dende Galiza para o mundo. A chantaxe

Pescanova acaba de inaugurar o día 21 de xuño en Mira (Portugal) unha planta de cría de rodaballos, unha fábrica de peixe para ser máis exactos, que pasa por ser a maior do mundo, como cada unha que crea o poderoso grupo. A devandita planta comezouse a construír cando, en 2007, o goberno galego entón compartido polo PSOE e o BNG, decidiu non permitir á empresa crear unha nova planta no cabo Touriñán, un espazo protexido da Rede Natura 2000. O plan sectorial de acuicultura que deixara aprobado o PP –en plena campaña electoral e logo retomado polo bipartito– creaba decenas de plantas de fabricación de rodaballo en espazos desta rede, a maioría na costa oceánica en estado completamente virxe. A reacción do Grupo pesqueiro que dende Vigo preside Manuel Fernández de Sousa foi inmediata: “Marchamos a Portugal”, que na Galiza sempre representa, neste contexto, o Terceiro Mundo de Europa, pois é a mesma ameaza que moitos empresarios do sector do metal regurxitan en plena folga dos traballadores polos seus dereitos.
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Deslocalización no ventre do dragón capitalista

Como ben informa a organización ecoloxista galega Adega, para a planta de Mira o Estado portugués entregou a Pescanova –que se saiba– 45 millóns de euros en subvencións públicas directas –sen contar coas subvencións indirectas para melloras tecnolóxicas, infraestruturas de distribución, vantaxes fiscais…–, dos 140 millóns de euros do total do proxecto. Todo para criar, segundo a empresa, uns 200 postos de traballo –comezaron ofertando máis de mil–, aínda que en toda a costa galega pódese constatar que este tipo de plantas non adoitan empregar a máis de 50 persoas. Malia isto, facendo un rápido cálculo, resulta que cada emprego custou ás arcas públicas portuguesas nada menos que 225.000 euros, ou o que é o mesmo, Portugal pagará con cartos públicos o xornal completo dos traballadores e traballadoras de Pescanova –estimando 15.000 euros ao ano– durante 15 anos. Así calquera pon un negocio! Co cambio de goberno en Galicia, o PP volve ao poder e de novo, azuzados e envexosos pola inauguración portuguesa, á que ata acudiu o presidente José Sócrates, e que cubriron moitos diarios galegos a catro columnas en portada, ofreceu de novo a Pescanova violar o espazo virxe de Touriñán. Para que volvan á súa terra. Pescanova non o ve mal. Ao cabo, son dúas polo prezo dunha.
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(continua em Vieiros)

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Os independentistas ganham as eleições em Gronelândia

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por Vítor Manuel Martins


A Gronelândia é a maior ilha do mundo com dous milhões de quilómetros quadrados e umha populaçom duns 56.000 habitantes (num 88% composta polo povo Inuit). Tem importáncia estratégica geopolítica, por se encontrar geograficamente bem próxima dos Estados Unidos e por estar juridicamente ligada à Europa como território autónomo da Dinamarca. O passado 21 de Junho de 2009, dia da festa nacional, marca a entrada em vigor dum novo estatuto de autonomia que reconhece o direito de autodeterminaçom. Dias antes, os independentistas do partido Inuit Ataqatigiit (Solidariedade Inuit) ganhavam as eleições situando ao seu líder, Kuupik Kleist, na presidência do governo.


A história da Gronelândia (“terra verde”) é a da sobrevivência e adaptaçom do homem nas condições climáticas mais extremas. Quando no século X é “descoberta” polos Viquingos noruegueses estava desabitada. Eles prosperarom durante alguns séculos, mas após quase quinhentos anos de habitaçom, desaparecerom por volta do século XV ao igual que os seus primeiros moradores.

O povo Inuit (ou Esquimó), actualmente estabelecido, chegou no século XIII, desenvolvendo umha grande capacidade de recursos para sobreviver num país frio onde nom é fácil obter alimentos. A populaçom de Gronelândia constitui o maior grupo da naçom Inuit, cujo território se estende nas regiões árticas desde o norleste da Sibéria (3.000 indivíduos), Alasca (30.000) e o Território Autónomo de Nunavut no Canadá (25.000) desde há quatro mil anos.

Em 1721 o Reino da Dinamarca-Noruega reafirmou a sua reivindicaçom sobre o território como colónia. Durante duzentos anos os Dinamarqueses tentarom colonizar Gronelándia desde Copenhaga. Para isto seguírom unha política isolacionista mantendo afastada a ilha de toda influência externa e de competititivade com outros países. O governo dinamarquês acreditava que a sociedade iria enfrentar exploraçom do mundo exterior ou até mesmo extinção se o país fosse aberto.

A dependência colonial supôs para o país que nom estivesse sujeito às regras democráticas. O direito de voto era extremadamente limitado e o papel das assembleias eleitas por votaçom popular estiverom restringidas ao controle dos representantes do poder colonial.

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Porém, durante a Segunda Guerra mundial, a Gronelândia separou-se tanto social como economicamente da Dinamarca, entom ocupada polos nazis, aproximando-se mais dos Estados Unidos e Canadá. Durante toda a guerra a ilha é governada directamente desde a capital, Nuuk, polos conselhos Provinciais da Gronelándia do Norte e Sul e nom por Copenhaga. Estes factores criarom as condições especiais para romper o isolacionismo político que prevalecia até entom. Os Gronelandeses descobrirom o mundo exterior acedendo às mercadorias norte-americanas. Quando a guerra chegou ao seu fim, as mudanças eram de tal magnitude que acabariam por colapsar o período colonial.

Depois da guerra, embora o controle da ilha voltasse à Dinamarca, esta deveu transformar o status da ilha em 1953. Esse ano, através dumha emenda constitucional, Gronelandia converteu-se numha província como parte igual do Reino de Dinamarca, podendo eleger dous representantes no Parlamento dinamarquês e as provisões de liberdade estenderom-se ao país. Os conselhos provinciais forom agrupados num só, mas apenas com funções consultivas, embora as competências do Conselho foram gradualmente estendidas.

No período de 1945-54, Gronelândia figurava na lista de Territórios Nom Autónomos a serem descolonizados dentro do capítulo XI da Carta das Nações Unidas e durante esse período Dinamarca tivo que submeter-se a informes sobre a situaçom da ilha a intervalos regulares perante os organismos de descolonizaçom da ONU. Estes informes finalizarom em 1954 quando a Assembleia Geral das Nações Unidas tomarom conta da integraçom da Gronelândia no Reino da Dinamarca.

Durante os anos 50 e 60, numha política de “modernizaçom”, Dinamarca tenta trasladar o Estado do Bem-estar a Gronelândia. Esta modernizaçom traduziu-se numha política de concentraçom dos habitantes das aldeias mais afastadas (conhecido como Plano G-60). As povoações esquimós forom esvaziadas e transferidas para localidades nas que se concentrarom os investimentos estatais em infraestruturas e comércio. Desta maneira rompeu-se a ligaçom da populaçom autóctone com o seu modo de vida tradicional. Esta “modernizaçom” provocou um trauma social ao nom dar encaixado umha mudança tam radical para umha sociedade urbana que foi indesejada e forçosa.

A política neocolonizadora concretizaria-se numha série de factos consumados: grande penetraçom na província de capital dinamarquês; descuido na protecçom pesqueira; espólio de recursos petrolíferos e de uránio, -controlados directamente desde a metrópole- e permitir a instalaçom no país de bases militares estado-unidenses no seio da NATO.

A colonizaçom de Gronelándia modificou também a sua estrutura humana com a chegada dos colonos Dinamarqueses que se converteram numha minoria privilegiada (12% da populaçom) que detenta a maioria dos altos cargos na administraçom ou se dedicam a florescentes negócios privados (lembre-se que o 80% das empresas privadas estám em maos dinamarquesas). Destarte em Nuuk, capital do país, quase a metade da populaçom é dinamarquesa.

Na década dos setenta, dentre a juventude e os sectores mais conscienciados da sociedade, descobriu-se que ainda havia umha oportunidade de recuperaçom nacional: persuadir ao povo e aos dinamarqueses de que deviam ser os próprios Gronelandeses que tomassem as suas próprias decisões através do autogoverno e de que podiam assumir tal responsabilidade através dum movimento nacionalista.

A tal efeito em 1973 foi criada, polos membros dos Conselhos Provinciais gronelandeses e os dous representantes no Parlamento dinamarquês, o Comité de Autogoverno de Gronelándia. Em 1975 este Comité emite um informe no que propunha a autonomia para a ilha conforme o modelo aplicado às Ilhas Faroé. Ese mesmo ano o governo dinamarquês constituiu umha Comissom de Autogoverno paritária polos partidos dinamarqueses e representantes gronelandeses. Os trabalhos desta comissom durarom três anos, topando dificuldades no que respeita ao direito de jurisdiçom do território sobre os seus recursos naturais e de subsolo e do subsídio que o governo central teria que dar para a transferência das competências do Estado ao governo autónomo de Gronelándia.

Aprovado o projeto de autogoverno polo Parlamento dinamarquês, em Janeiro de 1979 tem lugar o referendo em Gronelándia sobre a autonomia em base à proposta apresentada por esta Comissom que foi aprovado por ampla maioria (70,1% de votos afirmativos), o que levou à entrada em vigor do autogoverno a partir de 1 de Maio desse ano.

Se bem o carácter da Lei de Autogoverno de Gronelándia é semelhante a qualquer lei aprovada polo Parlamento dinamarquês acordou-se que, a diferença doutras, como se chegara a ela através de negociações bipartidas entre Dinamarca e Gronelándia, qualquer modificaçom precisaria dum novo processo negociador entre as partes.

A metrópole reserva-se as competências em matéria constitucional, autoridade suprema do estado, a determinaçom da cidadania, passaporte, visados, simbologia estatal, negócios estrangeiros, defesa, finanças nacionais, banco nacional, expediçom de moeda, legislaçom privada e penal e regime penitenciário. Todos os demais ámbitos estám sob a responsabilidade da autonomia. Os órgaos mais importantes de autogoverno som umha Assembleia de eleiçom popular (Landsting) e umha administraçom dirigida por um governo (Landstyre)

A estrutura social tradicional dos Inuit é mui comunitarista. Esta característica faz com que seja mais compatível com o modelo sócio-político dos países nórdicos que com o modelo de sociedade capitalista dos EE.UU. De facto, os Esquimós do Canadá e Alasca têm máis dificuldades para se adaptarem à sociedade capitalista do que os da Gronelándia para se adaptarem ao modelo de sociedade dos países nórdicos europeus. Por outro lado, o modo de vida do caçador, baseado na combinaçom de solidariedade e individualismo, é um factor que conecta muito bem coas tradições socialistas nórdicas.

Gronelándia conta com forças políticas próprias. Desde institucionalizaçom do autogoverno a vida política do território está dominada por três partidos.
· O partido social-democrata Siumut (Adiante), fundado em 1971, cuja politica nacionalitária visa incrementar a independência no marco da soberanía dinamarquesa.
· O partido Inuit Ataqatigiit (Solidariedade Inuit), partido que irrompeu na cena política com motivo das eleiçons de 1983 com o 10,7% e que procura a independencia de Gronelándia.
· Partido liberal Atassut (Unidade), que advoga por umha estreita cooperaçom com Dinamarca. Este partido está vinculado ao ao Venstre (Partido Liberal de Dinamarca).
· Os Democratas, partido liberal/socio-liberal surgido a partir de 2002. Mostra-se céptico com todo o relativo ao autogoverno e independência e conta com grande apoio na comunidade dinamarquesa.

Nos primeiros anos de autonomia o governo gronelandês procedeu a sacar a Gronelándia da CEE. Em 1972 Gronelándia pronunciara-se em contra da sua pertença à CEE mas, fazendo parte de Dinamarca e sem autogoverno, convertera-se em membro forçoso da Comunidade. Umha vez estabelecido o autogoverno, na primavera de 1981, o Parlamento de Gronelándia acorda convocar um referendo consultivo sobre a sua continuidade na CEE. Em Fevereiro de 1982 o 53% dos Gronelandeses votarom abandonar a CEE. Três anos depois Gronelándia seria o primeiro país em sair da CEE estabelecendo-se um novo acordo económico de associaçom que salvaguarda os intereses da ilha face a CEE.

A vida política tem sido mui activa. Após as eleiçons de 1983 forma-se um governo de coaligaçom entre o Siumut e Solidaridade Inuit (IA). Após um ano o Siumut perde umha moçom de censura apresentada polo IA. Porém, após umhas novas eleiçons (nas que pola primeira vez os conservadores superarom à esquerda) acabaría reeditando-se a coaligaçom Siumut-IA.

O Governo de Gronelándia mantivo nestes anos unha clara política pacifista e contrária à NATO. Em 1984, em plena guerra fria e apesar da pertença de Dinamarca à Aliança Atlántica, o Governo de coaligaçom gronelandês declara o país zona desnuclearizada, o que afectou à gigantesca base estado-unidense de Thule. Em Outubro de 1986 a instáncias do governo autónomo entra em vigor um acordo entre Dinamarca e os EUA polo qual se reduz a superfície das bases ianques no território. As terras ocupadas (105.000 hectares) som devoltas às comunidades de Esquimós.

A passividade do Primeiro-Ministro de Gronelândia, o social-democrata Jonathan Motzfeldt, perante a instalaçom dunha nova equipa de rádar polos EUA na base de Thule provoca umha nova crise no governo de coaligaçom. Segundo, Aqqaluk Lynge, líder de IA, a pretensom ianque ataca as disposições do Tratado 72 sobre a eliminaçom de míseis antibalísticos. Após as eleições antecipadas de 1987 o líder social-democrata tentou umha “grande coaligaçom” com os unionistas do Atassut mas a oposiçom do seu partido acabaria frustrando estas pretensões. Nom seria até depois das eleições de 1995 e Fevereiro de 1999 que se forme um governo de coaligaçom Siumut-Atassut. Até entom Gronelándia foi governada pola coaligaçom Siumut-IA.

Após as eleições de 2002 o Siumut, dirigido por Hans Enoksen, recupera a coaligaçom de governo com IA. Os dous partidos protagonizarom discussões em como mudar o acordo com a Dinamarca e os EE.UU. e sobre quanto deveria receber Gronelándia em compensaçom pola base aérea estado-unidense situada na vila de Thule.

O autogoverno permitiu fortalecer a identidade nacional, situando ao povo gronelandês no mesmo nível de Dinamarca e com o resto do mundo. Em 1985 Gronelándia procurou um contacto máis estreito com os demais povos nórdicos (Finlándia, Suécia, Noruega, Islándia e Dinamarca). O Parlamento de Gronelándia começou a participar nas gestiões do Conselho de Ministros do Norte. Ao mesmo tempo intensificárom-se as relações com os Inuit de Alasca e do Canadá, constituindo-se a Conferência Circumpolar Inuit nunha estratégia de luta que inclui a defesa meio-ambiental, a das suas terras, a preservaçom da cultura trdicional e a promoçom dunha economia de desenvolvimento sustentável que garanta o futuro da naçom.

Após vinte anos de autogoverno, praticamente todas as competências que deviam ser transferidas no marco da Lei do Autogoverno de 1979 forom assumidas polo Governo autónomo. Reconhecendo que era preciso revisar a posiçom da Gronelándia no seio do Reino, o Governo gronelandês estabeleceu em 1999-2000 umha Comissom de Autogoverno da Gronelándia. Esta Comissom apresentou o seu informe no ano 2003. A seguir o Parlamento gronelandês, que assumiu as recomendaçons da Comissom, propuxo estabelecer umha Comissom de Autogoverno Gronelándia-Dinamarca.

O relatório desta Comissom delineou seis possibilidades para o futuro da ilha:
1. Independência;
2. Uniom com outro país, similar ao antigo Reino da Islándia (1918-44);
3. Livre associaçom, similar ao relacionamento entre Porto Rico e Estados Unidos;
4. Federaçom;
5. Aumento do auto-governo frente à Dinamarca;
6. Integraçom completa.

Em 2 de Janeiro de 2008 o primeiro-ministro gronelandês H. Enoksen anunciou um referendo sobre o auto-governo, esclarecendo que nom resultaria na retirada da Gronelándia do Estado dinamarquês mas que contemplaria umha via de aceso à independência. Finalmente, em 13 de Junho os primeiros-ministros dinamarquês e gronelandês assinam um acordo para promover umha “Lei do Governo da Gronelándia” que vai aumentar a autonomia do pais ainda prevendo a sua futura soberania total.

O acordo prevê que a Gronelándia passe a decidir sobre 32 áreas estratégicas exercidas pola Dinamarca como polícia local, dos tribunais de justiça e de aproveitar futuramente os possíveis recursos naturais oriundos das reservas de petróleo, gás, diamantes, ouro e outros minerais. Além disto, o gronelandês, idioma nacional falado polos Inuit, passará a ser o idioma oficial do território.

Se bem o movimento independentista tem-se visto desencorajado pola dependência da ilha dos subsídios económicos recebidos do governo dinamarquês (o 30% do PIB), este quadro talvez se altere com a retraçom das geleiras, que podem tornar acessíveis recursos minerais e petróleo. Calcula-se que na zona há jazidas petrolíferas em quantidade superior a toda a produçom do Mar do Norte e à metade das reservas da Arábia Saudita, uma riqueza que permitiria a autosuficiência do país.

O monarca dinamarquês seguirá a ser o chefe do estado e a Dinamarca continuará decidindo apenas sobre política exterior, além de continuar enviando, anualmente, os cerca de 429 milhões de euros que som remetidos actualmente.

Com este acordo, para além de reconhecer o direito de autodeterminaçom, a Gronelândia pode-se tornar um Estado independente e soberano, caso iso seja decidido em consulta popular (plebiscito ou referendo). Com efeito, após o Limiar da Lei do Autogoverno da Gronelândia referir literalmente “Reconhecendo que o povo da Gronelândia é um povo sujeito à lei internacional com o direito de autodeterminaçom, a Lei baseia-se no desejo de fomentar a igualdade e o respeito mútuo na parceria entre Dinamarca e Gronelândia. Em consequência, esta Lei baseia-se no acordo entre o Governo da Gronelândia e o Governo Dinamarquês como parceiros iguais”, o capítulo VIII (Aceso da Gronelândia à independencia) recolhe: “Art. 21. 1) A decisom a respeito da independência da Gronelândia deve ser tomada polo povo de Gronelândia; 2) Se a decisom é tomada conforme à subsecçom (1), devem iniciar-se conversações entre o Governo dinamarquês e o Parlamento gronelandês com o fim da introduçom da independência para Gronelândia; 3) Um acordo entre o Parlamento gronelandês e o Governo a respeito da introduçom da independência para Gronelândia deve ser concluído com a aprovaçom do Parlamento gronelandês e deve ser aprovado por um referendo na Gronelândia. O acordo deve, aliás, ser concluído com o consentimento do Parlamento dinarmarquês; 4) A independência para Gronelândia deve implicar que a Gronelândia assume a soberania sobre o território da Gronelândia”[1].

A folha de rota contempla que o acordo seja votado em referendo polos Gronelandeses em 25 de Novembro de 2008 e deve entrar em vigor em 21 de Junho de 2009, dia nacional. No referendo a proposta em votaçom foi aprovada com umha maioria de 75,54% dos eleitores e 72% de comparecimento às urnas.

O referendo foi considerado polos independentistas um passo essencial para a independência da Groenlândia. A seguir H. Enoksen, promotor do acordo, convocou eleições antecipadas para que os Gronelandeses decidissem quem deveria liderizar o país na “nova era”.

Nas eleiçons legislativas de 2 de Junho de 2009 a formaçom mais à esquerda do sistema político, em favor dumha independência rápida, IA, duplicou os resultados ao conseguir 14 mandatos e 43,7% de votos. O seu líder, Kuupik Kleist (na foto), de 51 anos, é eleito novo chefe do governo.

A nova coaligaçom de governo[2] é novidosa na história da Gronelándia: estende-se do partido mais à esquerda (IA), ao partido de orientaçom nacionalista (Associaçom de Candidatos), passando polo centro (Democratas). Umha aliança que dá toda a sua singularidade a Gronelândia, governada durante os últimos trinta anos polo partido Siumut.

Tal como previsto, o passado 21 de Junho a rainha Margarida II entregou oficialmente a lei de autonomia reforçada ao presidente da Assembleia territorial da Gronelandia em presença dum presidente independentista e de numerosas personalidades e médias estrangeiros.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Entrevista a Francisco Louçã (Bloco da Esquerda)

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Originalmente publicada no Correio da Manhã (inclui video). Impecáveis as respostas do líder do BE, Francisco Louçã.

(Foto de Raúl Alexandre)

Correio da Manhã/Rádio Clube - A sua última entrevista provocou alguma perplexidade. Nomeadamente quando falou de algumas propostas do Bloco de Esquerda. Defende o regresso ao tempo das nacionalizações de 1975?

- Não, não defendo nenhum regresso ao passado. Acho que o passado nos ensina muito do que não deve ser feito e dos erros que têm de ser impedidos. Acho bom que haja polémica a propósito das ideias que apresento. Mas eu creio que nós estamos perante uma crise, um desastre económico, um horror económico de dimensões enormes. E que tem a ver com a forma como se precipitou na especulação os bens que eram das pessoas. E o sistema financeiro tem uma responsabilidade muito grande. E é por isso que eu creio que é preciso que haja um sistema financeiro que tenha uma base pública. Temos, aliás, um banco público, que é o banco dominante. E para mim é muito significativo que quando o maior banco privado português teve uma crise, que foi o BCP, só conseguiram encontrar gestores em cuja honorabilidade acreditassem no sector público.

ARF - Na Caixa Geral de Depósitos.

- Na Caixa Geral. Não conseguiram encontrar ninguém no sector privado em que acreditassem. Isso dá-nos uma ideia de que é preciso que haja uma estrutura de grande confiança e de grande respeitabilidade na gestão dos bens que são monopólios ou que são bens de grande poder. E é por isso que eu não concordo, por exemplo, que uma empresa pública de energia seja vendida ao sector privado. Veja o caso da Galp. A Galp é uma empresa pública, foi construída pelo Estado, paga pelos portugueses.

ARF - É verdade.

- E um terço da Galp foi entregue a Américo Amorim e a José Eduardo dos Santos, que beneficiaram disso extraordinariamente. 300 milhões de euros. Ora, nós temos défice orçamental. Eu pergunto: porque é que nós pagamos impostos ou aumentam os impostos para pagarmos o défice orçamental quando aquilo que já foi utilizado com o dinheiro dos impostos vai ser entregue como uma renda ao sector privado. Eu não concordo que haja monopólios privados naquilo que é um bem público comum. Outra coisa é haver uma actividade económica normal em todos os sectores.
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ARF - A EDP também é um desses casos? Aí o Estado mantém uma posição.

- Minoritária, mas é verdade.

ARF - Ainda tem. Como na PT e outras. Se nacionalizasse essas empresas como é que funcionava a concorrência, como é que funcionava o mercado?

- Bem, mas o problema é que agora não tem concorrência.

ARF - São monopólios.

- Muitos deles são monopólios naturais. Por exemplo, a água e a electricidade. São monopólios naturais. É um custo tão elevado constituir uma rede de distribuição de alta tensão pelo País que só pode haver uma, que é a REN. Se for entregue a um privado é um monopólio cujos lucros deixam de ser do Estado, ou seja, dos contribuintes, e passam a ser de um privado. Ou seja, está-se a entregar uma renda a alguém que quer aquela empresa porque não tem concorrência.

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ARF - Quer um monopólio.

- Ganhar sem qualquer esforço. A ideia de privatizar as águas é uma ideia tão indigna porque todos precisamos de água. É um bem de que necessitamos. Como a saúde. Aliás, o sector da saúde é um bom exemplo porque há um sector privado. Mas eu não posso aceitar que o acesso de um português ou de uma portuguesa pobre a um cuidado de saúde dependa da sua possibilidade de pagar. Porque é um bem público, o facto de respeitarmos os outros, de cuidarmos dos mais idosos, de podermos cuidar dos doentes. Isso é uma obrigação pública. Eu nunca fui submetido a uma cirurgia. Mas acho muito bem que os meus impostos sirvam para pagar as cirurgias de quem precisa.

ARF - Claro.

- É uma questão de respeito pelas pessoas. E eu creio que na economia temos de ter mais respeito por esses bens públicos para poder proteger aquilo que é essencial. E é nesse sentido que acho que as nacionalizações devem contribuir para um controlo democrático, social sobre aquilo que é monopólio, já faz parte do bem do Estado.

ARF - Mas houve pessoas que ficaram muito perplexas com a entrevista que deu. Mesmo próximas do BE. E como é que olha para a Comunicação Social neste momento? Tem um sector público e privado. Ia ficar tudo na mesma com o Bloco de Esquerda no poder?

- Eu creio que é um exemplo diferente mas é um bom exemplo.

ARF - É uma questão de liberdade de informação.

- Com certeza. O problema da Comunicação Social é que temos quatro grandes grupos privados e depois temos o sector público. Eu creio que é indispensável que haja uma desconcentração da Comunicação Social. Há grupos que se formam, têm o direito de fazer o seu investimento e ter os seus produtos. O que eu não concordo é que essa concentração possa prejudicar a liberdade de informação. Repare. Nos EUA, por exemplo. Nenhuma televisão pode ter mais de 25 por cento do share geral das audiências para evitar uma monopolização que faz com que não haja a possibilidade de o jornalista poder dar uma informação que incomoda o seu grupo económico ou o Governo, ou um grupo económico associado ao Governo, coisa que muitas vezes acontece. A promoção da liberdade de informação e da Comunicação Social é o que deve levar à não concentração da Comunicação Social e a uma intervenção do Estado que tenha de ser respeitadora desses princípios.

ARF - A lei avançada pelo Governo e que foi vetada pelo Presidente da República foi contestada por ser contra o mérito e a qualidade. Um grupo vencedor era penalizado. Concordou com essa lei?

- É verdade o que diz. Eu votei contra essa lei. Votei convictamente contra a lei e apoiei o veto do Presidente porque acho que a lei era errada. Não conseguia os objectivos que pretendia e tinha objectivos escondidos que eram errados do ponto de vista da liberdade da Comunicação Social. Eu acho que aqui o único critério é a liberdade de informação, o direito das pessoas poderem fazer escolhas livres sobre a informação que querem ter e poderem participar nisso. Agora, aquilo que acho é preciso que a lei preveja é isto. Imagine um grupo que tem um jornal, mas que também é proprietário da rede de distribuição de todos os outros jornais, isto é, distribui os seus concorrentes. Ora isso é perigosíssimo para a liberdade de informação. Porque pode prejudicar a possibilidade de acesso da informação dos seus concorrentes. Ou que tem uma agência noticiosa ou que tem as gráficas, por exemplo. Um proprietário de um jornal que tem as gráficas que imprimem os jornais dos concorrentes isso é negativo do ponto de vista da transparência da vida pública e da informação. Por isso eu creio que é preciso ter regras ponderadas, que promovam a qualidade da informação, o acesso à informação, a liberdade de escolha. E a liberdade de escolha é a diversidade. É assim que deve ser. Hoje temos grandes jornais de referência, grandes rádios e uma Comunicação Social diferenciada, o que não podemos ter é uma comunicação oficialista ou de televisões com medo do que o Governo possa dizer, com medo do que possa fazer.

ARF - Como é que vê hoje a Comunicação Social em Portugal?

- Eu creio que nós estamos a passar uma situação muito difícil na Comunicação Social porque os meios estão a mudar. Hoje há jornais que eram grandes jornais de referência que estão em grandes dificuldades, há o projecto de haver um novo canal generalista de televisão, não se sabe se há mercado publicitário para isso, há escolhas estratégicas que têm de ver com esta mudança de padrão geral da comunicação. Mas acho que todos os contributos que são dados para trazer informação diversificada sobre a vida social, com o olhar próprio de cada jornal e de cada jornalista são inestimáveis do ponto de vista da nossa vida. Veja o caso do Correio da Manhã, que tem uma atenção especial em relação a problemas como o da saúde, da vida dos reformados, da vida das populações com mais dificuldades e com mais problemas sociais. Isso não é muito comum na imprensa portuguesa. E eu acho que é muito importante que haja essa atenção para que todas as vozes possam ser ouvidas e para que o pluralismo e a riqueza de uma vida social, de uma comunidade viva se possa exprimir do ponto de vista da Comunicação Social. Se nós perdermos isso podermos ter outros direitos mas perdemos o direito essencial de olharmos para nós próprios com uma visão crítica.

LC - O Bloco de Esquerda subiu de um para três deputados nas Europeias. Um resultado que surpreendeu muita gente. Passou a ser também o terceiro partido. Se esta tendência de subida se manter vai mudar alguma coisa no BE?

- Já está a mudar, com certeza. Nós começámos há dez anos atrás numa eleição para o Parlamento Europeu e não elegemos ninguém embora depois tenhamos eleitos dois deputados para a Assembleia da República, depois três, depois oito, veremos quantos vamos eleger agora. É certo que nesta campanha houve uma subida importante. Eu creio que o Miguel Portas, a Marisa Matias e o Rui Tavares se revelaram candidatos extraordinários com uma grande intervenção política sobre temas essenciais no que era decisivo neste debate. As grandes políticas económicas da Europa e de Portugal, as grandes opções estratégicas para Portugal e para a Europa. E creio que isso explica uma consolidação do BE, que hoje é mais forte como uma esquerda socialista, como uma esquerda popular, como uma esquerda da democracia social no nosso País. Agora, estes resultados aumentam a nossa responsabilidade. É claro que nós os vemos com prudência, porque uma eleição que tem 62 por cento de abstenção é uma eleição particular. Nas próximas eleições, quando se tomam grandes decisões sobre a política nacional, temos de convocar muito mais eleitores. E, portanto, a decisão será muito disputada e iremos a essa luta. Iremos apresentando um programa de Governo. Essa é a responsabilidade que nós assumimos. Ou seja, um partido que representa meio milhão de eleitores, muitas pessoas que querem alternativas para Portugal, tem de assumir a responsabilidade e nós temos de o fazer, e assim o faremos, de mostrar como Portugal deve ser governado para sair deste desastre económico e para poder dar passos certos no caminho da convergência social, no caminho do combate à injustiça na economia.

LC - Até que ponto é que essa responsabilidade de que fala se deve traduzir numa solução de Governo e o BE apoiar uma solução de Governo?

- Depende do que nos estão a perguntar. Mas eu dou-lhe uma resposta muito clara nos dois casos. Se o que nos estão a perguntar é se queremos ser Governo a resposta é sim. Se estamos preparados para ser Governo a resposta é sim. Se apresentaremos um programa concreto sobre como deve ser esse Governo evidentemente. Nós temos de ser medidos pelo que propomos, pelo que fazemos e pelo que é o nosso compromisso com os eleitores. Não pode ser de outra forma. Nós queremos ser essa resposta de um poder em que a sociedade assume nas suas mãos a resposta aos problemas fundamentais. E é nesse sentido o nosso compromisso profundíssimo com a democracia republicana. É exactamente esse. Nós queremos constituir uma força para a maioria em Portugal e fazer essa grande aliança política que corresponda a uma transformação na luta pela justiça na economia.

LC - Esse é um projecto a longo prazo.

- Bom, há dez anos atrás dizíamos que nunca chegaríamos aos dez por cento. Cá estamos. É um processo que tem de ser construído, porque uma maioria tem de ser merecida, tem de ser disputada. Agora, se nos estão a perguntar se estamos dispostos a ir às eleições a dizer uma coisa para no dia seguinte fazermos o contrário, fazermos uma aliança, isso não.

LC - Quais são as condições do BE para uma aliança com o PS se o PS não tiver maioria absoluta?

- A pergunta é a mesma. Nós não vamos mudar de camisa na noite das eleições. Nós vamos dizer aos eleitores que é preciso um Governo de esquerda, uma política social, é preciso um Governo com prioridade social e com uma política económica com a qual nos comprometemos e por isso é preciso derrotar o Código do Trabalho, a precariedade, é preciso promover a qualidade da escola em vez do ataque aos professores, promover a qualidade da economia em vez da desagregação económica.

LC - Isso são condições?

- Não, são políticas. Nós queremos ser maioritários. Eu quero ser totalmente claro sobre isso. Nós queremos a maioria e provámos que em grandes batalhas da sociedade portuguesa já somos maioritários, já caminhamos para construir essa maioria.

LC - Estou a colocar-lhe um cenário. À direita o PSD já disse que tem uma solução com o CDS. À esquerda parece que não há solução nenhuma.

- Mas essa pergunta tem que a fazer ao PS. Nós seremos coerentes com o nosso programa. E nós queremos que cada uma das medidas com as quais nos comprometemos com os portugueses se torne maioria.

LC - Mas numa negociação com o PS não vai impor todas as suas medidas.

- Eu não impor coisa nenhuma. Repare, as eleições não são uma negociação. As eleições não são um jogo político.

LC - Mas se houver alianças acaba por ser uma negociação.

- Não, as eleições são uma coisa diferente. As eleições são uma escolha de caminhos. Portugal está desesperado porque viveu sempre na traficância política. De políticos de vistas curtas que acham que o que interessa é a sua carreira e o seu lugar. E portanto o que é preciso é chegar a algum poleiro o mais depressa possível. Em vez de pensarem que o que é preciso é resolver problemas. Nós queremos maioria para resolver esses problemas. Temos de fazer parte de maioria e constituir maioria.

LC - Não há um problema de governabilidade se o PS ganhar com maioria relativa?

- Nós temos hoje um gravíssimo problema de governabilidade. A maioria absoluta é um problema de governabilidade. O caso BPN é um problema de governabilidade ou é o quê? O colapso do Banco de Portugal na supervisão é um problema de governabilidade. O roubo nos bancos é governabilidade. O Código do Trabalho é governabilidade. Em Portugal, em quatro anos, há de repente quatrocentos mil trabalhadores temporários. Isso não é governabilidade?

LC - O PS está a colocar essa questão, de instabilidade, se não tiver maioria absoluta. É uma falsa questão?

- É uma questão inteiramente justa. O problema é que a instabilidade já existe.

LC - Mas o Governo não caiu.

- Mas o Governo o que diz é que nós, que criámos a crise em Portugal, precisamos que nos dêem os votos para continuar a criar a crise em Portugal. A resposta é não. Nós dizemos outra coisa.

ARF - Quando se ouve o discurso do PS sobre a maioria absoluta e a instabilidade não é uma chantagem sobre os eleitores?

- É uma chantagem. É uma chantagem de quem está desesperado. De quem sabe que os eleitores os estão a criticar. O PS não teve, que eu me lembre na história da política portuguesa, menos de um milhão de votos. Nestas eleições tiveram muito menos votos do que Manuel Alegre. Estão desesperados. E não percebem que os eleitores lhes puxaram as orelhas. Disseram. Isto está mal. E agora estão a dizer. Votem em nós, apesar de pensarem que estamos a fazer mal, para continuarmos a fazer mal. Isto não é possível aceitar. O que é preciso é acabar com esta situação em que o País tem estado aprisionado num Bloco Central rotativo e este sinal foi dado nestas eleições. O PSD diz que ganhou as eleições com 32 por cento. Santana Lopes teve 29 por cento, é uma eleição desgraçada do ponto de vista do PSD. PS e PSD juntos têm menos de 60 por cento.

ARF - Exacto.

- Isto também nunca aconteceu. Ou seja, há uma crise no regime social e político. E portanto a chantagem da maioria absoluta é errada. Eu respondo ao PS quando falam de governabilidade. O que eu lhes digo é que estamos dispostos a todos os contributos para a governabilidade, ou seja, para soluções para o País, para políticas concretas. E o BE nunca faltará, como nunca faltou em todas as políticas que contribuam para combater o desemprego, para melhorar as pensões dos reformados, para melhorar os serviço públicos, para melhorar a economia, para combater os spreads abusivos que estão a aumentar. Ou seja, em todas as medidas que criem governo económico para responder ao desastre económico o BE garante maioria.

LC - Ou seja, o BE não estará interessado para uma aliança no Governo mas poderá viabilizar documentos importantes, como o Orçamento de Estado?

- Nós não fazemos alianças de Governo com uma maioria que é contra as posições que são os nossos compromissos com os eleitores.

LC - É impossível fazer uma aliança de Governo com o PS?

- O que eu estou a dizer é que o PS apresenta um programa que é a continuidade da sua política. Nós queremos acabar com essa política. Eu sempre tenho dito que o PS não pode ser convencido, tem de ser vencido. A arrogância social do primeiro-ministro não é só uma questão de características pessoais. Todos nós temos defeitos e virtudes. Eu tenho os meus defeitos. Mas a arrogância dele é a arrogância social brutal. É perante 200 mil desempregados que não têm subsídio de desemprego dizer que Portugal está bem desse ponto de vista.

LC - As pessoas vão ficar sem saber se o BE considera ou não impossível ir para o Governo com o PS.

- Eu já o disse com muita clareza. Nós não iremos para um Governo fazer o contrário do que o dissemos aos eleitores. Porque a política da mentira tem de ser destruída.

LC - E para acordos pontuais, para isso está disponível?

- Perante qualquer Governo nós aprovaremos sempre medidas que respondam às emergências económicas e sociais. Porque a prioridade destas eleições é a economia, a vida das pessoas. As pessoas estão numa situação desesperada e tudo o que possa responder a isso nós vamos propor, vamos procurar maioria para essas soluções. Aprovamos pela qualidade das propostas. Se nos dizem que vamos ter um Orçamento que aumenta a idade da reforma ou reduz as pensões em 46 por cento isso não aceitamos.

LC - É indiferente para o BE que o próximo primeiro-ministro seja José Sócrates ou Manuela Ferreira Leite? Não há muita coisa que os distinga?

- Não há nada na política que nos seja indiferente. Tudo é relevante. E há grandes diferenças entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates. Mas eu não estou a escolher. Estou a escolher uma política que responda aos problemas.

LC - Mas prefere a política de quem?

- Não prefiro, nem tenho de preferir. Eu combato as políticas dos dois. Porque acho que é preciso outra política. Quem ainda pensa que a política portuguesa se faz entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite não está a perceber o que se passa no País, não está a perceber a subida do BE e não está a perceber o sinal que os eleitores do PS deram quando se abstiveram ou votaram no BE. Eles não querem que continue esta pasmaceira pachorrenta.

LC - Gostava de ser primeiro-ministro um dia?

- Eu disputo a eleição para a formação do Governo.

ARF - Para ser primeiro-ministro?

- Com certeza.

LC - O BE não está a empurrar o PS para uma aliança com o CDS?

- Não, nós procuramos uma clarificação política. Há tanta gente que continua a pensar na política como um arranjo de partidos. Política não é isso. E o problema do País não são os arranjos entre partidos. O problema do País são dez anos de recuo económico e uma recessão que é mais grave em Portugal do que em qualquer País. O problema do País são elites dominantes que mostraram, em alguns casos, que são capazes de meter 30 milhões de euros ao bolso numa comissão com um negócio com um traficante de armas libanês em Porto Rico. Esse é que é o problema do País. E outros que depois de andarem a falsificar as contas do maior banco privado saíram com 80 milhões nos bolsos.

ARF - Falemos de liberdade e da esquerda. O PCP está muito ligado à ex-União Soviética, à Cortina de Ferro, aos regimes do socialismo real. Como é que o BE encara a questão da liberdade, a liberdade individual dos cidadãos?

- No sentido mais radical. Entendemos sempre que uma das lições mais importantes para a esquerda é perceber que o fracasso trágico desses regimes de Leste foi a sua rejeição do pluralismo político, da liberdade sindical. Hoje em dia na China um trabalhador não pode fazer uma manifestação, um cidadão não pode publicar um jornal, o acesso à Internet é dificultado. A restrição da liberdade destrói a vida social. A liberdade colectiva e individual é o código genético da vida colectiva. Não pode ser de outra forma.

ARF - Isso separa-os muito do PCP.

- Bem, marca muito a identidade do BE. Agora, é verdade também que na enorme diversidade da esquerda o diálogo que tivemos com Manuel Alegre foi muito importante. E Manuel Alegre disse isso com muita felicidade dizendo que era um tabu de 30 anos que tinha acabado. Nós temos de pensar que a esquerda tem de olhar para a sociedade, tem de ouvir a sociedade, tem de percebê-la.

PERFIL
Francisco Louçã nasceu em Lisboa no dia 12 de Novembro de 1956. Licenciou-se, fez o mestrado e o doutoramento no Instituto Superior de Economia. Professor catedrático do ISEG, foi preso na Capela do Rato em 1972, fundou o Bloco de Esquerda e foi eleito deputado em 1999. Em 2006, candidatou-se às eleições presidenciais.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Keep on rockin' in the free world!

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Cumprem-se 20 anos desde que Neil Young publicara Freedom, magnífico álbum que supuxo o seu retorno pola porta grande à indiscutível excelência musical tras uns erráticos anos '80. Nel atopávasse uma das minhas canções favoritas de todos os tempos: uma raivosa denúncia do sistema do "mundo livre", uma labazada na cara de Reagan e um esgarro na de George Bush I, os presidentes saíntes e entrantes naquela altura. Com este temazo inflamara Neil Young os bises daquela noite na que o fomos ver n'a Crunha, e polo visto (informa Alberto) segue a fazê-lo também agora. Se não che ferve o sangue com esta canção, é provável que já estejas morto. Forever Young, keep on rockin' in the free world!


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Nota: o video recolhe a versão single, que está acurtada de jeito que não se chega a cantar o último parágrafo da letra... que para mim é quase o melhor, com isso da "kinder, gentler machine gun hand". Mas toda ela é sensacional, verso tras verso sem desperdício. Veja-se:

There's colors on the street / Red, white and blue / People shufflin' their feet / People sleepin' in their shoes / But there's a warnin' sign on the road ahead / There's a lot of people sayin' we'd be better off dead / Don't feel like Satan, but I am to them / So I try to forget it, any way I can.

Keep on rockin' in the free world (x4)

I see a woman in the night / With a baby in her hand / Under an old street light / Near a garbage can / Now she puts the kid away, and she's gone to get a hit / She hates her life, and what she's done to it / There's one more kid that will never go to school / Never get to fall in love, never get to be cool.

Keep on rockin' in the free world (x4)

We got a thousand points of light / For the homeless man / We got a kinder, gentler, machine gun hand / We got department stores and toilet paper / Got styrofoam boxes for the ozone layer / Got a man of the people, says keep hope alive / Got fuel to burn, got roads to drive.

Keep on rockin' in the free world (x4)

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Steven Chu: câmbio climático, aforro energético e relação entre investigação pura e aplicada


As Compton Lectures são umas charlas que tenhem lugar no MIT desde 1957 e que são impartidas por oradores de mui alto nível. Não tenhem uma periodicidade fixa, e desde o seu início tem havido uma média inferior a uma por ano. São por tanto um evento bastante excepcional, assi que tivem muita sorte de poder assistir a uma este ano. Em concreto, a impartida por Steven Chu, prémio Nobel de Física em 1997 e novo Secretário de Energia da administração Obama. O tema (O problema energético e a relação entre a investigação básica e aplicada), não podia ser mais interessante, e o encargado de falar dificilmente podia ser mais acaido; e a verdade é que a charla não defraudou. Porque Steven Chu não só é algo parecido a um génio, também é um orador excelente... e além disso tem uns pontos de vista sorprendentemente refrescantes.
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Dum secretário de energia dos USA esperaria escoitar nestes momentos uma mensagem tranquilizadora ante a crise energética global: relativizar a sua gravidade, dizer que sairemos dela pouco a pouco, apostar por buscar novas formas de energia... pois nada disso: desde o primeiro momento Chu pintou um panorama estarrecedor, com um câmbio climático mais acelerado do previsto e com umas necessidades energéticas mui conflictivas. Como solução, nada de fugir cara adiante, senão ir ao básico, investigando em como reduzir o consumo. E sobre como organizar a investigação e o que podemos agardar dela, nada melhor que um repaso a alguns fitos da história recente, que el conhece de primeira mão polo seu passo por Berkeley, Stanford ou os míticos laboratórios Bell. Mas, melhor que tentar resumir o que dixo, é que o vejades e escoitedes vós mesmas: Nesta página pode ver-se o video da charla, assi como as transparências (e ligações a mais recursos, como um artigo relacionado). Recomendável ir vendo as duas cousas (video + slides) ao mesmo tempo, para seguir melhor o fio. Garanto-vos que será uma horinha bem aproveitada.
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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

A derrota militar dos Támis do Sri Lanka

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Vitor Martins informa sobre este tema de raivosa actualidade.

No Sri Lanka, a antiga Ceilám batizada polos portugueses, a maioria cingalesa de religiom budista, hegemónica após a independencia de 1948, discriminou à minoria támil, uns 3 milhons de pessoas, de religiom hinduista, tanto aos nativos como aos Támis importados como colonos polos británicos do sul dravídico indiano no século XIX para trabalhar as plantações en regime de semiescravidom.

A imposiçom do nacionalismo populista cingalês budista na Constituiçom de 1972 provocou o nascimento de um nacionalismo radical támil, que alentou a formaçom desde 1975 de vários grupos armados, sendo o mais importante deles o dos Tigres do Támil. A polarizaçom étnica que seguiu deu lugar a umha guerra em 1983 que, trás 25 anos e causar 70.000 mortos, chegou ao seu fim o passado 17 de Maio.
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[Figuras referenciadas ao final da postagem]
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Sri Lanka, é umha ilha situada frente às costas indianas surorientais com umha populaçom de 19 milhões de habitantes, dos quais 74% som Cingaleses e 18% Támis (13% nativos e 5% trasladados polos británicos do sul da Índia). Os Támis, de fala dravídica e religiom hinduista, moram nas províncias do norte –a península de Jaffna- e do Leste, onde conformam, respectivamente, o 98% e o 45% da populaçom. Os Cingaleses, de língua sánscrita e religiom budista, moram nas sete províncias restantes, conhecido como o Sul. Existem também minorias de Mouros e Malaios (50.000), e grupos religiosos mussulmanos (7%) e cristaos (8%).

A parte costeira de Ceilám foi ocupada desde o século XVI por sucessivos colonizadores europeus, Portugueses, Holandeses e, desde 1796, Ingleses. No interior da ilha existiu um reino cingalês que manteve a sua independência até 1815. O Império británico implantou na ilha umha economia colonial de monocultivo baseada exploraçom dos recursos naturais (café, chá, coco e cauchu). Para isto necessitou importar mao-de-obra semiescrava do sul do subcontinente indiano (da zona onde hoje se acha o Estado de Támil Nadu e com 66 milhões de habitantes).

Sri Lanka obtivo a sua independência em 1948, trás a da Índia. A sua Constituiçom, a foi a dum Estado centralizado segundo o modelo británico. A língua cingalesa é tratada como a única oficial do país e estabeleceu-se um sistema de checks and balances polo que o Parlamento mantinha umha proporçom de 3 a 2 entre os eleitos Cingaleses e as minorias e umha cláusula constitucional salvaguardava os seus direitos étnicos.


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O Partido Nacional Unido (UNP), representante dos Cingaleses anglófilos e conservadores ganhou as eleições. A pressom dos camponeses Cingaleses da montanha impom umha lei de 1949 que exclui da cidadania e do voto os Támis trazidos como colonos da Índia. Em 1952 os Támis do UNP constituem um partido federalista. A Frente Popular Unida esquerdista de Bandaranaike, ganhou as eleições de 1956, mas a força social que predominava na coaligaçom era a Frente Unida dos Monges, que fez do nacionalismo budista a nova ideologia dominante e conseguiu que o singalês fosse declarado única língua oficial do Estado. Bandaranaike tentou pactuar umha soluçom com os federalistas Támis mas foi assassinado em 1959 por um monge budista. Porém, quando a sua viúva acedeu ao poder em 1960 a sua política procurou a resurreiçom da «grande cultura cingalesa». Em 1965 UNP ganha as eleições graças a umha coaligaçom na que faziam parte os federalistas támis, mas as suas reivindicações forom desouvidas mais umha vez. Ao volver a viúva Bandaranaike ao poder e sob a pressom dumha Frente de Libertaçom Nacional cingalesa que se levantou em armas, promulgou-se em 1972 umha constituiçom republicana que impuxo brutalmente o domínio da maioria budista e cingalesa.

Os Támis, em consequência, começarom a reclamar a partir de 1972 um Estado independente. Emergeu no seu seio umha liderança solidamente implantada na península de Jaffna, de extracçom mais popular e antiociental que o antigo federalismo. O novo nacionalismo támil, inspirado nos modelos palestiniano e vietnamita, pôs em prática a luta armada para conseguir o controlo do território que habitava. Forom surgindo assim distintos grupos que atacavam forças de segurança e colaboracionistas. O grupo mais forte foi o dos Tigres da Libertaçom do Támil Eelam (LTTE), criado em 1975 e dirigido por Velupillai Prabhakaran, que acabou por se impor nos oitenta.

As eleições de 1977 polarizarom-se entre a UNP, que aglutinou o conjunto do nacionalismo cingalês e a Frente Unida de Libertaçom do Támil, que conseguiu os doze escanos da província do Norte e quatro dos doze da do Leste, convertendo-se no maior partido da oposiçom da ilha. As tentativas do governo de negociar com os Támis moderados para os afastar radicais nom derom fruto. Para sufocar a insurreiçom do Norte, reformou-se a Constituiçom de 1978 em sentido presidencialista, aprovou-se em 1979 um Acta de Prevençom do Terrorismo e enviou-se o Exército aos territórios sublevados, mentres que os Támis que viviam no Sul eram objecto de umha crescente violência social.

O conflito étnico converteu-se assim em guerra, trás um atentado no que os Tigres abaterom em Julho de 1983 a treze soldados. A populaçom cingalesa voltou-se no Sul contra todos os Támis que toparom, massacrando a milhares deles e forçando a fugida de outros 90.000 ao Estado indiano de Támil Nadu. Os campos de refugiados dos arredores de Madrás converterom-se em ninhos onde os grupos támis recrutavam os seus combatentes (que chegariam a 6000). Após umha tentativa de reuniom em 1984 dos cinco grupos mais importantes, os Tigres acabarom por se impor polo expeditivo método de dar morte aos quatro rivais da Organizaçom Popular e Libertaçom de Eelam Támil (PLOTE), Organizaçom de Libertaçom de Îlam Tamil (TELO), a Frente de Libertaçom Revolucionaria Popular de Îlam (EPLRF) e do EPDP. Nom lhes custou muito apoderar-se da zona da península de Jaffna.

Em Julho de 1987 o exército do Sri Lanka lança a primeira operaçom militar no seu próprio solo desde a independência do país com o objectivo de expulsar os simpatizantes dos Tigres do Támil de Jaffna, onde viviam 750.000 pessoas assediadas polo Exército e bombardeadas pola aviaçom, sem subministros e com umha taxa de desemprego do 40%.

A solidariedade que esta situaçom despertou no sul da Índia, que conhecia à sua vez um movimento nacionalista dravídico, acabou envolvendo o Governo indiano no conflito, fazendo de mediador para conseguir a abertura de negociações entre as duas partes, primeiro em Thimpo (Bhutám), e porfim em Colombo, a capital de Sri Lanka. Fruto indirecto destes encontros foi o Acordo Indo-Lanka de 1987, polo que o governo cingalês se comprometeu a criar uns Conselhos Provinciais que conferiam certos poderes a todas as províncias da ilha, e nom só às Támis, o que se supunha resolveria o conflito. A Índia comprometia-se a enviar a Sri Lanka umha força militar de paz duns 45.000 homens que supervisaria o cumprimento do Acordo e desarmaria os grupos támis.

O Acordo, que com todas as suas limitações dava forma institucional por vez primeira ao carácter multiétnico e plurinacional da ilha, foi aceitado ao princípio pola oposiçom cingalesa e polos Tigres do Támil, que respeitarom durante certo tempo um cessar-fogo embora nom se implicassem nas eleições derivadas dele. Estas celebrarom-se no sul cingalês em Abril de 1988, e no Norte e Leste támis em Novembro desse ano, com presença indiana. Aqui, a Frente Revolucionária do Povo de Eelam ganhou-as amplamente.

Ao cabo de ano e meio os Conselhos Provinciais criticarom as limitações legais derivadas dumha emenda constitucional que devolvia ao Governo central competências que foram outorgadas em matéria de ordenamento rural, polícia, segurança, educaçom e administraçom pública. Aliás, as tropas indianas de paz pronto se converterom em forças repressivas. O governo de Sri Lanka pediu em 1989 a retirada das forças indianas e iniciou novas negociações com os Tigres. Os Conselhos Provinciais do Norte e Leste proclamarom pola sua parte o Estado Támil independente, polo que forom dissolvidos.

Em Março de 1990, dous meses depois da retirada indiana, as negociações romperom, reanudando-se no Norte umha guerra a grande escala. Os Tigres, aos que se atribuiu o assassinato em atentado do ex-presidente indiano Rajiv Gandhi em 1991 derom morte ao presidente de Sri Lanka Premadas em 1993. Kumaratunga, viúva dum líder da Frente Popular abatido polos Tigres em 1988 e filha do assassinado Bandaranaike, ganhou as eleições em Novembro de 1994 contra outra viúva, cujo marido, líder do UNP Disanayake, acabava de ser assassinado em atentado um mês antes.

Contrariamente ao UNP, o programa da Frente Popular contemplava reiniciar as negociações de paz com os Támis, rotas em 1990, a fim de relançar e melhorar o projecto que convertera a Sri Lanka numha uniom de províncias autónomas dotadas dum alto grau de autonomia nos oitentas. Mas o cessar -fogo acordado polos tigres em Janeiro de 1995 foi roto quatro meses mais tarde ao exigir-lhes o desarmamento como condiçom para iniciar as conversas de paz. A ofensiva lançada polo exército do Sri Lanka em Outubro de 1995 culminou em Dezembro de 1996 com a tomada do quartel geral támil na península de Jaffna.

Em 30 de Janeiro de 1996 um sangrento atentado dos Tigres num banco de Colombo causava um centenar de mortos. Em Julho, os Támis, que ao ser expulsos de Jaffna se atrincheiraram na selva, atacarom umha base militar causando mil baixas ao exército do Sri Lanka. A ofensiva terrestre, aérea e naval lançada polo governo contra o quartel geral dos Tigres em Killinochi nom acabou com a sua resistência.

Em Maio de 1997, 20 mil soldados governamentais nom dá organizado umha linha de fornecimento cara Jaffna através da zona de Vanni controlada polos LTTE. Nestas operações a populaçom civil é habitualmente assassinada en cada lado.

Em Março de 1999 durante a Operaçom Rana Gosa o exército cingalês invade o distrito de Vanni polo Sul, conquista vários territórios, mas nom consegue derrotar os Tigres na regiom. Em resposta, estes lançam umha ofensiva com a Operaçom «Ondas Incessantes», retomando os territórios ainda ocupados polo exército.

Em Abril de 2000 os Tigres lançam umha nova ofensiva em direcçom ao norte e atacam a Passagem dos Elefantes onde se reagrupam 17.000 soldados cingaleses. Em 22 de Abril tomam o controle desta zona estratégica que corta a península de Jaffna do distrito de Vanni desde 17 anos.

Os Tigres instauram unilateralmente um cessar-fogo em Dezembro de 2000. Em Abril de 2001 o exército governamental lança a operaçom Agni Khiela tentando retomar, sem sucesso, o sul da península de Jaffna.

Após vários anos de guerra civil e de embargo económico na parte norte da ilha, o país entra entre 2002-2005 num período conhecido como «pós-conflito». Os Tigres, que controlam a costa oeste da ilha e una zona circunscrita no norte, moderam as suas exigências e procuram umha autonomia económica e política no seio do Estado cingalês, declarando que a luta militar nom é um bom método para atingir os seus objectivos. No fundo, após os atentados terroristas de 11 de Setembro nos Estados Unidos, acha-se o receio dum possível apoio internacional para o exército do Sri Lanka, ou mesmo sobre um possível ataque internacional.

Aliás, a poderosa guerrilha Támil é umha das poucas que conta com umha marinha de guerra (Tigres Marinhos), com capacidade de levar a cabo batalhas navais para controlar as vias e aprovisionamento da ilha. Igualmente, umha unidade chamada Tigres Negros é a encarregada de organizar atentados suicidas contra as forças regulares. Desde 1987, ano do seu primeiro ataque suicida, esta unidade realizou mais que qualuqer outra organizaçom no mundo. As táticas usadas polos tigres do Támil resultarom na sua classificaçom como organizaçom terrorista nos EE.UU., no Brasil, na Austrália, na UE e no Canadá.

Para retomar a iniciativa o governo cingalês aumenta o orçamento da defesa (5% do PNB) e os efectivos do seu exército (aumento do 500% entre 1985-2005). Nestas condições em 2005 o exército do Sri Lanka rompe a trégua desistindo ao cessar-fogo em repetidas ocasiões. Em 2008 a coaligaçom de governo central na Índia, integrada pola primeira vez polo partido pró-támil, viu-se abalada pos protestos baseados no nacionalismo támil, para que começasse a apoiar os támis de Sri Lanka e do qual se esperava mais apoio indiano para com os támis no Sri Lanka. Todos os partidos támil do Estado indiano do Támil Nadu exigirom o cessar-fogo imediato. Como contrapartida, os támis do Sri Lanka acusam o próprio povo támil indiano de apoiar os Cingaleses.

As sucessivas ofensivas governamentais desde 2007 fam recuar o território controlado polos independentistas támis. A partir de Novembro de 2008 o exército cingalês começou umha ofensiva indiscriminada sem precedentes que consegue, a partir de Janeiro-Fevereiro de 2009, ocupar todas as cidades controladas polos Tigres támis, incluída Kilinochchi, a «capital» rebelde. Os Tigres, que começam a recuar em larga escala, solicitam um cessar-o-fogo que é rejeitado polo governo.

Em 25 de Abril de 2009 os independentistas ficam confinados numha zona de 48km2 rodeados polo exército cingalês, mas a presença de mais de 50.000 civis complicam a situaçom humanitária. E, 16 de Maio os Tigres perdem o seu acceso ao mar, vital para o seu fornecimento. O dia 17 os independentistas támis anunciam o fim dos combates e a deposiçom de armas. Mais de 250 dirigentes e quadros dos Tigres som abatidos nos últimos combates nas praias de Mullaitivu. Em 18 de Maio as autoridades cingalesas anunciam a morte de Velupillai Prabhakaran, dirigente histórico dos Tigres. O governo de Sri Lanka declara a derrota militar final dos Tigres do Támil.

Segundo as Nações Unidas, o último ataque governamental causou o desalojamento de 265.000 pessoas em campos de refugiados, a morte de mais de 6.500 civis e 14.000 feridos.

BIBLIOGRAFIA

«Juego de espejos: conflictos nacionales centro-periferia». F. Letamendia. Edit. Trotta (1997)

MAPAS
FIGURA 1
Percentagem de Támis por distrito segundo os recenseamentos de 2001.

FIGURA 2
Situaçom em Dezembro de 2005. Em vermelho, zonas controladas polos Tigres. Em laranja, zonas controladas polo governo com áreas controladas polos Tigres. Em amarelos, zonas controladas polo governo e reivindicadas polos Tigres para um Estado támil independente.

FIGURA 3
Situaçom territorial em Julho de 2007.

FIGURA 4
Zona reivindicada (em verde) polos Tigres támis e território controlado de facto (limites aproximados em amarelo) no momento do lançamento da ofensiva governamental de 2008-2009.




Sábado, 16 de Maio de 2009

Desenterrando a McCarthy: a ilegalização de Iniciativa Internacionalista

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A candidatura ao parlamento europeu Iniciativa Internacionalista, encabeçada polo dramaturgo madrilenho Alfonso Sastre e pola avogada castelhana Doris Benegas, e integrada por outras persoas a título individual (o "nosso" X. L. Méndez Ferrín no posto nº 6) assi como por diversos partidos de esquerda (Izquierda Castellana, Corriente Roja), vem de ser ILEGALIZADA polo estado espanhol. A excusa é que esta lista teria sido apoiada (em segredo!) por Batasuna. A lista de Unidá Nacionalista Asturiana, integrada unicamente por gente de Asturies, estivo a piques de ser ilegalizada também polo mesmo motivo. Polo visto, o ridículo das acusações (que lembram a paranoia anticomunista do McCarthysmo -de aí o clássico dos REM que serve de banda sonora a este texto) e a extrema gravidade da medida não abondam para que os meios de comunicação lhe prestem a devida atenção -- não sendo polos clássicos arroutos da covacha fascista. As forças políticas "de esquerda" estão a ficar retratadas neste processo: mentres que Aralar ou ERC já amosárom a sua solidariedade, o BNG cala a boca, e IU mesmo exigiu a alguns dos seus membros que tinham avalado a candidatura a retirada de ditos avais. Vergonha deveria de dar-lhes, quando todo um prémio Nobel da Paz como Pérez Esquivel já enviou uma carta a Zapatero manifestando a sua repulsa pola ilegalização.

Outra Esquerda condena energicamente (isto é, com a pouca energia que poda ter) a ilegalização da candidatura de Iniciativa Internacionalista [sem que isto implique que coincida com as suas posturas].

Actualização: Finalmente (22 de maio), o Tribunal Constitucional espanhol rectificou ao Supremo e permitiu a apresentação da candidatura de Iniciativa Internacionalista.  O dia seguinte (23 de maio), a "esquerda abertzale de toda a vida" pedia publicamente, por boca de Arnaldo Otegi, o voto para esta candidatura. Os macarthynhos devem estar a botar escuma pola boca! XD 

X.M. Álvarez Blázquez: em 1978, sonhando a Galiza de 2002

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Na web de Celso Álvarez Cáccamo podem-se atopar diversos materiais sobre a vida e obra de seu pai, Xosé María Álvarez Blázquez. Fixei-me especialmente em 3 citações suas, extraídas da obra "Galicia 2002 a través da imaxinación creadora", um seminário de trabalho transcorrido em 1977. São umas fermosas visões da Galiza do "futuro", um futuro que para nós já é passado. Pola sua força inspiradora, polo seu sensato idealismo, recomendo vivamente a leitura das três (não leva mais de 10 minutos). As ligações para duas delas são as seguintes: "Da sociedade em 2002", e "Do ensino em 2002". A terceira, titulada "Do campo e a cidade em 2002", reproduz-se a seguir:

"Creo que nesta revalorización que pretendemos, do home e da terra, imponse a necesidade dun retorno á Natureza, mediante contactos coa súa realidade. É un feito evidente que unha grande parte dos galegos que hoxe viven nas cidades ignoran a vida do campo ou, o que é peor, están de costas a ela. Non por vontade propia, xeralmente, senón por imperativos do seu propio estilo de vida. É un fenómeno mundial, pro entre nós resulta máis dramático polo feito de ser Galicia unha terra, unha paisaxe, unha pura e apretada Natureza, e non unha simple xeografía; e tamén, naturalmente, pola entrañable ligazón telúrica que entre nós se dá. Non poder realizar esa comunicación home-terra é orixe de traumas. Eu véxoo nos meus fillos, que teñen pena de non coñecer os nomes das plantas e dos paxaros, de non saber distinguir unha arbre froiteira doutra, de non ter asistido ou colaborado nos labores agrícolas. É certo que os homes da cidade escapamos ao campo e á praia tan axiña como podemos, pro son contactos fugaces e superficiáis, que aínda fan máis dorido o desarraigo. Por iso creo que no ano 2002 todo galego que o desexe deberá dispor dun anaco de terra, senón de seu, formando parte dunha explotación colectiva, perto da cidade, onde lle sexa posíbel pasar os fins de semana e algunha temporada de vacacións ao ano, traballando a súa parcela. Poderá plantar legumes ou coidar roseiras, sementar patacas ou atender unha granxa; colaborar en traballos comúns ou realizalos ao seu gusto, illadamente; en todo caso vivirá en contacto coa terra, sentiráse revalorizado coo galego e contribuirá co seu esforzo á revalorización da propia terra, porque o que eu propoño non é un puro divertimento. Eu vexo esas explotacións colectivas como o nexo físico, espiritual e social entre a cidade e o campo, ou, se se prefire, da cidade-campo proposta por Cunqueiro. E tamén soño con que o campesiño pase as súas vacacións nas cidades marítimas ou nas praias, coa súa familia. O binomio home-terra hase cumplir no individuo mesmo, na súa mesmidade, e non como ser gregario".

Domingo, 10 de Maio de 2009

Crónica da charla de Noam Chomsky no MIT

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Quando me decidim a fazer a estadia no MIT tinha, ademais do lógico interesse no tema da investigação, um par de alicientes adicionais: 1) ver algum partido dos Celtics, e 2) ver e ouvir a Noam Chomsky ao vivo (pedir-lhe alguma colaboração para Outra Esquerda já seria demasiado...)


Uma vez que já fum um par de vezes ao Garden, ficava por cumprir o 2º objectivo... e estava por pensar que seria complicado, pois não tinha notícias do Emérito Professor de lingüística. Mas a passada segunda-feira (4 de maio), ao consultar a interminável lista de eventos desse dia, atopei-me com “Palestine Awareness Week. Chomsky on Palestine-Israel”. Bingo!


O tema não era quiçais o mais sugerente: mais uma vez a escoitar falar sobre o irresolúvel conflito de Oriente Próximo, em lugar de escoitar o que Chomsky nos poderia dizer sobre... bem, basicamente sobre qualquer outra cousa; por exemplo, sobre a sua conceição da anarquia, como já temos recolhido nestas páginas. Mas bom, tinha que ser interessante, e assi foi.


Num auditório ateigado de gente bem predisposta, Chomsky estruturou a sua charla em 3 partes. Na primeira, repassou a história dos últimos 40 anos de conflito, sempre desde a perspectiva da actuação USAmericana. Começou lembrando como a postura dos USA tem consistido desde 1971 em obstaculizar o “Consenso Internacional” que avoga pola constituição de 2 Estados. E como na prática tenhem apoiado a postura israeli de que já existe um estado palestiniano, chamado Jordânia, e que o status de Palestina deve ser determinado por Israel.


Diferenciou entre um autêntico estado palestiniano e o que Netanyahu denominara numa ocasião “polo frito”: referira-se a que eles estavam dispostos a dar-lhes algumas terras nas que Israel não tivesse interesse e largar para ali os palestinianos, e se queriam chamar-lhe a isso um estado, podiam fazê-lo... ainda que também podiam chamar-lhe de qualquer outra forma, como “polo frito”. Assi pois, para Chomsky a chave era se os USA estavam dispostos a apoiar a criação de um estado verdadeiramente digno de tal nome ou simplemente a seguir apoiando a doutrina de Netanhayu. Na sua opinião, só houvo um momento em que os USA mudárom a sua postura, e foi brevemente durante os últimos meses da presidência de Clinton.


Na segunda parte, Chomsky analisou que possibilidades haveria na atualidade de chegar à solução dos dous estados. Amosou escassa confiança na política da administração Obama, que nem sequera está disposta a escoitar o governo eleito polos palestinianos. Porém, Obama não é exactamente continuísta, senão que avoga por reformular as suas prioridades no Oriente Próximo, querendo isto dizer, basicamente, que aposta por deixar a um lado o tema Israel-Palestina e formular uma aliança... contra o Irão. Para o qual, os USA não duvidam em se aliar com estados tão pouco modélicos como a Arábia Saudita ou o Egipto. Mas isto não significa que se deixe de apoiar a Israel; ao contrário, a ajuda USAmericana mesmo se vai incrementar.


Na terceira parte foi o turno das preguntas desde o público. Foi aqui quando nos decatamos de que, ademais da voz cascada, o bom de Noam está já algo surdo (como é natural em alguém de 80 anos). Mas não por isso deixou de respostar às preguntas que lhe fixerom durante três quartos de hora, até que a organização dixo que havia que parar. Nas suas respostas, amosou-se céptico sobre as possibilidades de que a UE ou China exerçam nenguma influência no conflito: a China por não incomodar os americanos, os europeus por não ter uma força militar própria (a respeito disto, dixo que a razão de ser da OTAN hoje em dia era principalmente manter a Europa dependente militarmente dos USA). Preguntado sobre os palestinianos que foram expulsados das suas terras antes de 1967, dixo que deveriam ser autorizados a regressar a elas, com apoio da ONU, mas que isso desgraciadamente era mui improvável. E que, se se assumia que o seu retorno era impossível, como mínimo deveriam ser relocados noutro sítio. Não todo foram preguntas amistosas: preguntado sobre se os israelis deviam aturar o lançamento de foguetes desde Palestina, se havia direito a isso, Chomsky respostou que para el, esses lançamentos eram actos criminais. E que, se não “nos” gustavam (este “nós” referido aos usamericanos), talvez deveriamos dar-lhes bilhões de dólares aos palestinianos para evitá-lo (não engadiu “como fazemos com Israel”).


Cumpre lembrar que Avram Noam Chomsky (esse é o seu nome completo), aínda que nado nos USA, é de pais judeus (seu pai era um judeu da Ukraina, sua nai da Bielorrússia), foi criado no que el descreve como um “ghetto judeu” de Philadelphia, e mesmo fijo a sua tesina sobre o hebreu moderno. Portanto, dificilmente se lhe poderá acusar de antisemitismo; e dada a sua trajectória intelectual, acho que ninguém poderá acusá-lo sem ruborizar-se de fazer parte de uma suposta esquerda pro-islamista... desqualificações que estamos afeitos a escoitar em boca de alguns quando ouvem críticas semelhantes as que fai Noam Chomsky.


Enfim, a ver se outro dia fala do socialismo libertário! ;-)


Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Judy Layzer e a sustentabilidade

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Judy Layzer é professora de Política Ambiental no MIT. Recentemente lim uma espléndida entrevista na MIT Sloan Management Review, na que explica os seus pontos de vista sobre a sustentabilidade. A seguir traduço o que me pareceu mais destacado, mas os que não tedes problemas com o inglês podedes ler a versão original.


Como defines sustentabilidade?

Tenho uma definição de sustentabilidade que reflicte os meus valores, e é que temos que operar dentro dos límites físicos e biológicos da Terra. E dentro disso, necessitamos desenvolver sistemas sociais que sejam justos e sistemas econômicos que poidam funcionar ao longo do tempo - que não se destruam a si mesmos nem aos recursos dos que dependem.

Para mim, é sobre os sistemas que sustentam a vida. São da corda de Herman Daly. Tomo a sua definição de sustentabilidade como própria.

Qual dirias que é a definição comunmente aceitada?

(...) A definição convencional é a do taburete de três patas: que a justiça social, o desenvolvemento econômico, e a regeneração ambiental são todos componhentes essenciais, e que hai esse ponto doce no médio onde todos se atopam. Eu não uso o taburete de três patas. Não lhe atopo utilidade. A minha metáfora preferida é o contêiner. Isto é, os nossos sistemas sociais e econômicos tenhem que operar dentro das restricções dum sistema natural saudável, com capacidade de recuperação; o sistema natural é o contêiner para os sistemas sociais e econômicos.

Mas essa definição não só é controvertida, também é a antítese de como o mundo está organizado actualmente em termos de como manejamos a economia global. Se tentássemos implementar a minha definição, conlevaria uma transformação dum tipo que moi pouca gente pode realmente imaginar (...) A gente que acredita o que eu acredito está em contra do modelo econômico estándar, o qual apenas di nada sobre os sistemas naturais - e, de feito, assume que os produtos do engenho humano são infinitamente substituíveis por capital natural. Eu não acredito nisso. Por suposto, é moito mais cómodo pensar que podemos virar sustentáveis sem renunciar a nada.

A minha visão é que temos que consumir um montonazo menos (...)


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Adoita-se dizer que as crenças cômodas não vão mudar até que a gente comece a sentir efectos diretos que as ponham a prova. Quando os preços da gasolina subam abondo, talvez conduza menos; os mecanismos de realimentação estão aí, e sufro os efectos persoalmente. O câmbio climático, não tanto -não é?

Bem, os temas relativos à auga - muitos dos quais dependem do câmbio climático - estão nos primeiros postos da agenda nos estados ocidentais dos USA (...). Os californianos não estão mais orientados cara a sustentabilidade porque tenham ética ecologista; é também porque estão a experimentar os efectos do câmbio climático, com problemas com a auga e lumes mais extremos e frequentes. As suas vidas diárias estão a ser afectadas em muitos casos.

Que pressões relacionadas com a sustentabilidade pensas que vão ter maior impacto? Que vai ser o primeiro que faga que a gente câmbie os seus comportamentos?

Penso que nos USA vão ser os preços da energia, isso está claro. Porque somos suficientemente ricos para desalgar auga e reconstruir infraestruturas para tratar o tema da auga. E temos o dinheiro para limpar a contaminação do ar e da auga a nível local. Globalmente, os desafios medioambientais estão muito mais interrelacionados a curto prazo do que o estão nos USA, mas aqui vão ser os preços da energia.

Hai um montom de câmbios saudáveis e de oportunidades que virão a consequência da suba dos preços da energia, por suposto. Nas cidades, haverá um massivo abandono do carro. Haverá mais ênfase no transporte de massas a pé ou em bicicleta. Assi como um maior ênfase em financiar infraestrutura que sustente essas formas de desprazar-se, em oposição às infraestruturas baseadas no carro. No que respeita aos edifícios, prevejo um interesse tremendo por modernizá-los. Prevejo que haverá mais esforços por moderar os problemas medioambientais inmediatos nas cidades, como ilhas de calor ou problemas com as chúvias, o que significa mais teitos verdes, paisages urbanos verdes, plantações de árvores.

Acho que a gente voltará às cidades, e quando se tenham que desprazar para ir ao trabalho, fará-no doutros jeitos. Os longos desprazamentos em carro estão a diminuir, como deve ser.

Todo isto é em certo sentido o sonho de qualquer urbanista. É a forma em que pensavamos qe a gente deveria estar a viver de todas formas.

Quais pensas que vão ser os obstáculos para afrontar estes problemas?

O maior impedimento é o feito de que nenguma das cousas que são limitadas no nosso sistema natural tenhem preços. Não ponhemos preço ao carvão, não ponhemos preço aos serviços dos ecosistemas. Se imos fazer isto - quero dizer, se realmente o imos fazer - então temos que pôr-lhe preço ao que é escaso.

Começando polos preços dos recursos naturais finitos...

Hai que começar por aí. Por dizer: que escasea no mundo hoje em dia? E não são os seres humanos, nem é o capital feito polo home. Nadamos no capital financeiro. Mas o que é cada vez mais aterradoramente escaso é o capital natural. E apenas temos começado a falar sobre como pôr-lhe preço.

Se eu fosse ditadora mundial, o primeiro que faria seria reduzir drasticamente os impostos sobre o trabalho e a câmbio pôr-lhe preço aos recursos naturais. Obter as rendas públicas desse jeito. Isso seria para mim o mais importante que poderiamos fazer para colocar-nos no caminho da sustentabilidade.

Os obstáculos políticos, obviamente, são enormes. Em primeiro lugar, a gente que tem o poder político atualmente não concorda comigo. Isso é um problema, porque são os que teriam que pôr-lhe preço ao capital natural. E a indústria joga com o desejo cultural de ter todas estas cousas de balde, ainda que hai alguma gente na indústria, uma minoria, que realmente trabalha a prol da sustentabilidade.

Isto não é idéia minha, por certo—Herman Daly leva 30 anos dizindo-o, junto com um punhado de economistas ecologistas.

A predição econômica clássica sobre isto, não seria que não nos deveriamos preocupar seriamente de pôr-lhe preço às cousas até que comecemos a sufrir as consequências de não fazê-lo?

Si, mas... Hai um par de problemas com isso. Por uma banda, a globalização enmascara os verdadeiros custos da degradação ambiental durante moito tempo, porque os países ricos podemos apropriar-nos dos recursos e do trabalho dos que são menos capazes de resistir.

O outro problema é que os sistemas naturais não evoluem suavemente, senão de forma abrupta. Assi que os mercados não reflectirão os problemas até que seja tarde de mais. Podemo-nos atopar com um sistema natural que aparentemente funciona bem, e que de súpeto fique destruído por completo. E para quando reconheçamos o dano, já será realmente tarde de mais para fazer nada (...)

Hai algum desenvolvimento relacionado com a sustentabilidade que aches prometedor?

Si. Uma àra que representa uma verdadeira oportunidade é o pulo cara o biorregionalismo na comunidade ambientalista. O biorregionalismo seria a criação de unidades que estejam baseadas nalgum carácter biofísico—como a Baía de Chesapeake, que é uma bacia.

Durante moito tempo os ambientalistas venhem interessando-se em que quase todo suceda ao nível biorregional, incluíndo a construção de economias arredor desses níveis. Para mim isso é moi sensato. Não redundaria numa autosuficiência biorregional completa, mas rematariamos por organizar os nossos sistemas de alimentação e de resíduos, por exemplo, dentro dessas regiões ecológicas.

Não está isso em contraste direto com todas as tendências globalizadoras de mercados que conhecemos?

Si. Ainda que, com os preços da energia aumentando, já nos estamos a decatar de que é mais barato produzir a comida localmente que a 10.000 kilómetros de distância. Podem-se dar os mesmos argumentos sobre o transporte, edificação, energia. Pensa nas oportunidades energéticas regionais, por exemplo. Em Nova Inglaterra, produzirias muita eólica; em Arizona, muita solar; nas Rochosas, geotérmica. Mas o tema é que pensarias desse jeito. Eu acho que o potencial em termos de dignidade humana e conexão real com a gente que vive onda ti é enorme.

Queres dizer que seria um paso atrás cara a aldéia pre-industrial—esse tipo de interconexão e interdependência comunitária…

Estamos noutro ponto já, assi que não imos retroceder ao passado, mas poderiamos inventar algo novo que conseguisse alojar os milhares de milhões de persoas da Terra e fazê-los mais conectados os uns com os outros. Penso que precisamos dum novo modelo de desenvolvimento para um mundo de 9.000 milhões de persoas. Hai que reconhecer que nisto vou mui à contra do pensamento econômico dominante, mas o biorregionalismo é muito mais comum do que adoitava ser.

Existe alguma maneira de que as empresas podam começar a capitalizar estas tendências e tomá-las em conta nos seus planos estratégicos?

Bem, eu som fan do biomimetismo—isto é, desenvolver soluções que imitem e aprendam dos sistemas naturais (...) Também hai uma grande oportunidade em innovações que fagam os produtos mais simples (...) Por exemplo, uma das poucas cousas que merquei este ano foi um tendedeiro fantástico. Alguém inventou como fabricá-lo com materiais relativamente benignos e de forma que dure para sempre, assi que é algo relamente de alta qualidade. E agora já não tenho que usar a secadora. Este produto realmente simplificou-me a vida.

As empresas que atopem a forma de fazer cousas tendo em conta tanto o aspecto biológico como o técnico—de forma que se considere o ciclo de vida do produto—vão triunfar. Penso que vai haver uma demanda de produtos deste tipo, esse é o meu prognóstico.

Parece que descreves produtos e experiências que nos conmovem por razões que talvez nem entendemos—agás polo feito de que são, francamente, agradáveis. Cres que esses benefícios serão cada vez mais reconhecidos e pagados?

Si. E às vezes as cousas são agradáveis porque fam muito sentido. Ás vezes podemos perceber isso—e eventualmente lhes assignaremos um valor (...)

Uma economia sustentável não vai estar baseada no desejo de consumir tantas porcarias como seja possível. Vai estar baseada no desejo de menos cousas, mas cousas realmente boas. Boa comida, bós produtos, cousas que durem.

Este é realmente um modelo diferente. E, sabes, a gente não se vai fazer rica. Mas haverá mais gente que poida viver moderadamente bem, e, não será isto muito melhor? No fondo, quem quere ser rico?

Bem, moita gente quer ser rica.

Aí é onde creo que realmente temos que fazer um trabalho de marketing para convencer à gente de que não é preciso para ser feliz, ou para estar bem. As investigações amosam concluintemente que não o é. Moitos de nós somos a prova vivinte de que não o é. Eu rejeito constantemente oportunidades de ganhar mais cartos porque prefiro ter mais tempo. Não preciso ter mais cousas.

Sabes que estás a soar como mui guai, não si?

Si... mas o gracioso é que, se miras para mim, não poderia ser menos guai. Não encaixo no modelo. Não vivo numa cabana, como seria a caricatura. E a maioria da gente que sinte como eu tampouco encaixa no modelo. É uma caricatura estúpida que foi mui efectiva para marginalizar a preocupação polo meio ambiente. Funcionou moi bem durante um tempo, mas bom, acho que já rematamos com isso.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

EASTER RISING

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Tal dia como hoje, há 93 anos, um pequeno grupo de patriotas irlandeses alçava-se em Dublin contra o domínio británico. Eram alguns dos melhores políticos, pensadores e activistas com os que contava o povo irlandês. Mal organizados e com pouco apoio popular, realizárom uma arriscada acção que acabou no que, a priori, semelhava um monumental fracasso. Todos os líderes, agás um, fôrom assassinados ipso facto e sem contemplações polo Império Británico. Mas o seu sangue foi (neste caso não é um tópico) autêntica "semente de vencer": pouco mais dum lustro despois, Irlanda constituia-se em Estado Livre. E o único supervivinte de aquel grupo de arroutados, Eamonn de Valera, regeria durante décadas o destino do país. A seguir, Vítor Martins resume-nos os acontecementos:
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[Foto direita: a Central de Correios de Dublin]


O Alçamento de Páscoa de 1916 (em irlandês: Éirí Amach na Cásca) é um acontecimento importante da História irlandesa e faz parte da memória colectiva do povo irlandês. Trata-se da revolta dum povo contra a ocupaçom británica, embora os factos acontecidos durante a Semana Santa desse ano em Dublim nom se tivessem estendido ao resto da Irlanda.

Antecedentes
Em 1 de Agosto de 1800 o Parlamento de Dublim aprova o Ato da Uniom com a Gram Bretanha, o que supom a sua auto-imolaçom e traslado a Londres. O novo status quo nom é unanimemente aceite já que em 23 de Julho de 1803 um levante comandado por Robert Emmet contra a dominaçom británica ataca o Castelo de Dublim, quartel general do ocupante.

Durante o século XIX a populaçom irlandesa, enfraquecida pola pobreza, sofre terríveis fomes: de 1845-47 as colheitas de batatas perdem-se, cifrando-se em quase um milhom os mortos e em dous milhons as pessoas empurradas pola pobreza à emigraçom, nomeadamente aos Estados Unidos. Estas dificuldades contribuirom para reforçar um sentimento anti-británico, já fortemente ancorado na populaçom.

Contra este estado de cousas, em 1848 produze-se umha primeira rebeliom, a do movimento Irlanda Nova, dirigida por W. Smith O'Brien. Dez anos mais tarde, em Dia de Sam Patrício funda-se simultaneamente em Dublim e em Nova Iorque a Irmandade Republicana Irlandesa (IRB), umha organizaçom revolucionária cujo fim é a preparaçom dum levante geral na Irlanda.

A fundaçom da Liga do Autogoverno consegue em 1873 o seu objectivo de ver reconhecida a autonomia (Home Rule) no seio do Reino Unido. Porém, o projeto, que conta com o apoio dos liberais británicos, bate com a oposiçom dos conservadores. O Parlamento de Westminster rejeita até em três ocasions (1886, 1893 e 1912) as propostas de autonomia irlandesa promovidas polo governo británico. Finalmente o projeto será validado polas disposiçons da Acta do Parlamento de 1911 e ratificado polo rei Jorge V em Setembro de 1914. No entanto, o início da Primeira Guerra mundial impede a sua entrada em vigor.

Em 1912 no Norte, funda-se a Força Voluntária do Ulster (UVF) para opor-se à autonomia, mentres no Sul, constituiu-se os Voluntários Irlandeses para a apoiar. James Connolly [foto direita], chefe do Partido Trabalhista Irlandês e os líderes sindicalistas republicanos fundam igualmente o Exército Civil Irlandês (ICA) para proteger os participantes do movimento grevista de 1913.


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A preparaçom do Alçamento
Desde Agosto de 1914 o Comité Militar do IRB tem decidido preparar umha acçom de envergadura antes do fim da guerra mundial. O IRB coloca os seus partidários em postos chave no seio dos Voluntários Irlandeses, a principal milícia nacionalista cujo chefe, Eoin Mac Neill, tenta negociar o seu apoio à guerra com o governo británico a cámbio da Autonomia. Desencadea-se umha luta interna com este último para a preparaçom dessa revolta.

Em 16 de Janeiro de 1916 o Conselho Supremo do IRB, junto com o ICA decidem preparar umha insurreiçom geral. Segundo o acordado com o diplomata Roger Casement, lord protestante simpatizante da causa republicana, nessa Semana Santa deveria-se produzir a chegada de armamento de procedência alemá. Eoin MacNeil decide finalmente apoiar a insurreiçom.

Em 20 de Abril, o cargueiro alemám Aud, com 20.000 fuzis é interceptado por umha patrulha británica e as armas nom chegam. Umhas ordens contraditórias som entom enviadas aos nacionalistas. Alguns chefes, como MacNeill, desejam suspender a operaçom, outros como Patrick Pearse, professor, advogado, poeta e membro do Comité Central dos Voluntários, desejam o seu desecadeamento. Finalmente, a data de início é adiada do domingo de Páscoa para a Segunda-feira e os insurgentes som menos numerosos e estám menos armados do previsto.

A revolta
A Segunda-feira de Páscoa, 24 de Abril, 120 membros do ICA e 700 das Forças Voluntárias Irlandesas, simulando um desfile, ocupam a rua O'Connel de Dublim. De súbito é ocupada a Central dos Correios assim como diversos locais-chave da cidade. Os chefes desta acçom som Patrick Pearse, James Connolly, Tom Clarke, Sean MacDiarmada, Éamon de Valera e Joseph Plunkett; Constance Markievicz dirige a brigada feminina do ICA. Por outro lado, um comando de 200 mulheres, organizadas na Cumann na mBan, fornecem víveres e medicamentos aos rebeldes.

Conforme o programa elaborado, Patrick Pearse proclama a República Irlandesa perante umha malta entusiasmada. Houve algumhas acçons noutras partes da Irlanda, mas, excepto para o ataque ao quartel da Polícia Real da Irlanda (RIC) em Ashbourne (Condado de Meath), tudo fica mui longe da insurreiçom geral prevista. De facto, os insurgentes som vistos como traidores pola maioria da opiniom pública mentres muitos Irlandeses lutavam com os británicos nas frentes da França.

Durante todo o meio-dia os assaltos do exército británico som rejeitados e alguns quartéis som atacados polos Voluntários. Os ladrons aproveitam o caos para atracar as lojas da zona da Central dos Correios e som detidos polos revolucionários. Porém, os británicos conservam o control da central dos telefones o que permite alertar às unidades de Curragh, Belfast, Athlone e Templemore que convergem em Dublim em apoio da ocupaçom británica.

O dia seguinte, 26 de Abril, mentres os insurgentes emitem por rádio a proclamaçom da República, o contra-ataque británico obtém sucessos militares e os primeiros reforços chegam das províncias.

Após cinco dias de combates, os insurgentes acham-se numha situaçom desesperada. Em 29 de Abril Patrick Pearse [foto da direita], Presidente do Governo Provisório, decreta o fim dos combates e consegue convencer alguns irredutíveis de que a insurreiçom fracassara. A rendiçom sem condiçons é assinada o mesmo dia.

Balanço dos combates
Ao cabo de seis dias contam-se ao redor de 400 mortos (318 civis e de 60-80 insurgentes) e 2614 feridos (2 217 civis). Quando Pearse assina a rendiçom, ainda ficam 1300 voluntários e 220 membros do ICA.

A repressom
A repressom das autoridades británicas é implacável: 3430 homes e 79 mulheres som arrestados em Dublim, chegando a 5000 o número de pessoas detidas na Inglaterra e País de Gales. Os líderes independentistas forom julgados por um tribunal marcial que emitiu 90 penas de morte. Entre o 3 e 12 de Maio quinze som executados na prisom de Kilmainhamm, entre eles sete membros do Governo Provisório. O primeiro em ser afuzilado é Patrick Pearse. James Connolly, ferido durante a insurreiçom, incapaz de se erguer é sacado do hospital e executado na mesma cama onde se recuperava. Roger Casement, que intermediara entre os insurreitos e o Kaiser, é aforcado. Éamon de Valera safa a pena capital graças à sua nacionalidade americana.

Umha repressom sem distinçom assola o país e líderes como Arthur Griffith ou Eoin MacNeill forom investigados ainda que nom participassem directamente nos acontecimentos. No mês de Agosto, sob a pressom do presidente norte-americano Woodrow Wilson, novo aliado do Reino Unido durante a Primeira Guerra mundial, produze-se umha primeira vaga de libertaçons dos republicanos detidos, em Dezembro tem lugar umha segunda, sendo libertados os últimos prisioneiros em 1917.

Consequências
O Levante de Páscoa foi um fracasso incontestável tanto do ponto de vista militar como do político. O levante nom foi geral, Dublim foi o lugar principal dos acontecimentos e se bem os insurgentes se beneficiarom do efeito supresa o primeiro dia, a contra-ofensiva do exército británico virou a situaçom, pois o controle sobre os telefones permitiu-lhe realizar um alerta geral e a chegada de reforços.

No plano político a repressom elimina umha parte importante dos pensadores e activistas republicanos. Porém, por primeira vez em muito tempo na Irlanda umha insurreiçom foi dirigida por católicos e nom por protestantes opostos às perseguiçons e à discriminaçom engendradas polo secular sistema colonial. O movimento nacionalista irlandês demonstrava a sua madurez, que estava organizado e que nom se conformava com simples reformas sociais ou umha autonomia senom com a independencia total. Aliás, a brutalidade da repressom británica conseguiu trazer a força física do republicanismo de volta à vanguarda da política irlandesa, galvanizada polo Sinn Féin, dando a volta à opiniom generalizada de que a insurreiçom fora um erro. Nas Eleiçons Gerais de 1918, a última eleiçom realizada em toda a ilha da Irlanda para o Parlamento británico, os republicanos ganharom 73 cadeiras das 105.

Existem muitas interpretaçons literárias e politicas a esta aventura, mas é acima de todo o fracasso do Home Rule e dos partidos nacionalistas moderados irlandeses que a apoiaram, desbordados polo republicanismo independentista. Com efeito, essa Segunda-feira de Páscoa foi o primeiro passo para a República da Irlanda e a Guerra da Independència, assim como a raiz do conflito do Ulster.

Em 1966 com ocasiom do 50º aniversário da revolta, a estátua do almirante Nelson, situada sobre umha coluna de quarenta metros na rua O'Connel de Dublim, é destruída por atentado à bomba.

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Liberdade para Enric Duran i Giralt (ghaiteiro!!)

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Hai muitas persoas admiráveis militando em muitas causas justas. Mas poucas haverá com a inteligência (e os güebos, por que não dizi-lo) que empregou Enric Duran para dar o que é o golpe de efecto mais grande que eu tenha visto nos últimos anos. Se alguém não conhece ainda a história, está perfectamente resumida nesta página da Wikipédia, polo que não a vou reproduzir aqui. Direi tão só que para quem concorde em maior ou menos medida com o que se tem apresentado neste blogue a respeito do anti-capitalismo, do decrecemento, das alternativas ao sistema monetário, da autogestão, do control das nossas vidas e do caminho cara um mundo mais justo, em definitica... o que tem feito Enric é francamente impressionante. E agora atopa-se no cárcere por isso: mais uma prova de que hai algo (muito) terrivelmente errado no coração deste sistema.
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Não quixera que este post se interpretasse como um simple berro a prol da sua posta em liberdade: quer ser algo mais, uma chamada de atenção cara as alternativas possíveis, aqui e agora, para a superação da atual ordem das cousas. Deixo-vos com as ligações às publicações do 17-S e do 17-M, desejando que sejam leituras proveitosas.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

BOICOZ! BOICOZ! e mais BOICOZ!

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(imagem criada por Suso Sanmartin)

Anos há, gostava de ler esse jornal a diário. Não era tal qual eu o preferiria, mas não estava mal: era do mais decente que se podia escolher no kiosko. Mas esse tempo já onde vai... agora não é mais que um panfleto indecente, uma caricatura do que deveria ser. La Voz de su Amo, La Coz de Galicia, La Hoz de La Torre. Chega disso! Eu, como muitos outros, já estou farto. Boicoz! Nem um € para esses repunantes, pailarocos, inhorantes, féridos e duros, imbéciles e escuros, cova de canalhas, lambecús, cipaios, e papaóstias. Que se fodam os luises (White & Windy), e para o rei da torre, que vaiam preparando a guilhotina! Polo que a mim respecta, não comprarei esse cacho de lixo, não o lerei, não farei caso dos seus anunciantes. Panda de mangantes...
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Bloody Sunday = Domingo Sangrento


O nosso enviado especial em Irlanda, Vítor Martins, visitou em Derry o centro onde se conmemora o massacre do Bloody Sunday e decatou-se de que não existia tradução galega do texto que se amosa aos visitantes. Não tardou em encher este oco, enviando-lhes uma versão em norma AGAL que reproduzimos a seguir.



BLOODY SUNDAY 30 JANUARY 1972

DOMINGO SANGRENTO 30 JANEIRO 1972



O 30 de Janeiro de 1972 foi o dia que marcou o rumo da história moderna irlandesa. A Associaçom de Direitos Civis da Irlanda do Norte (NICRA) convocou à populaçom de Derry a se manifestar em repulsa pola detençom de nacionalistas e o seu encadeamento incondicional sem juízo (internment). Este foi um dos protestos organizados em distintas localidades ao longo da Irlanda do Norte.

Porém, os homes, mulheres e crianças que aquel domingo à tarde acudirom ao bairro de Creggan, na margem do Bogside, para participar na manifestaçom, previamente proibida polas autoridades británicas, desconheciam que essa tarde iam ser vítimas dumha carnificina indiscriminada.

Mentres mais de 15.000 manifestantes saiam do bairro de Creggan, o general Ford, comandante das forças armadas británicas estacionadas em Derry, finalizava os preparativos para que a manifestaçom nom chegasse ao seu final previsto, a praça do concelho Guildhall, no centro da cidade. Para atrancar a marcha os militares levantarom 26 barricadas ao redor do Bogside apoiados polo primeiro batalhom do regimento de paraquedistas, o regimento de "elite" do exército británico.

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Estes preparativos eram ignorados polos manifestantes, que sabiam que o IRA (o Exército Republicano Irlandês) dera a sua palavra aos organizadores da manife de nom participar nela. Sentindo-se seguros, os manifestantes esperavam um dia pacífico e daí a participaron de muitas mulheres e crianças.

Conforme a marcha se aproximava às barricadas militares ao final da William St, o caminhom que encabeçava a marcha junto o resto de manifestantes tornarom à direita penetrando no Bogside en direcçom cara a Free Derry Corner. Um grupo duns cen jovens prosseguiu por William St. detendo-se diante da barricada militar.

Como habitual nessa época, produziu-se umha escaramuça na zona de William St. entre esse grupo de jovens manifestantes e o exército. Frente às pedras e garrafas lançadas polos primeiros, o exército reagiu desproporcionadamente usando gases lacrimogénios e canhons de água.

Às 15:55h, longe da rixa em William St., os paraquedistas abrirom fogo com fusis. Cinco disparos forom realizados desde um prédio abandonado. John Johnston (59 anos) e Damian Donaghy (15 anos) forom feridos. John Johnson morreria a causa das suas feridas em Junho de 1972. Um membro do OIRA (Exército Republicano Irlandês Oficial) disparou umha só vez como resposta ao fogo do exército.

Aproximadamente às 16:07h os paraquedistas recebem a ordem de proceder a umha vaga de arrestos e penetrarom na Rossville St. em tanquetas (APC, veículos militares blindados de combate e de transporte de tropas).

A gente botou-se a correr tentando escapar dos paraquedistas que abrirom fogo.

Jackie Duddy (17 anos), que corria acarom do Padre Edward Daly foi mortalmente abatido à bala nas costas no pátio dos pisos Rossville.

Alana Burke (18 anos) foi deliberadamente esmagada contra um muro por um APC.

Margaret Deery (31 anos) foi alcançada na perna mentres se refugiava no final de Chamberlain St. Patrick McDaid (25 anos) foi ferido mentres ajudava a transportar à Sra. Deery a umha zona segura.

Patrick Campbell (51 anos) foi ferido mentres corria a se refugiar nos pisos de Rossville.

Michael Bradley (22 anos) e Mickey Bridge (25 anos) forom feridos à bala ao se enfrontarem aos paraquedistas trás se decatarem da morte de Jackie Duddy.

Daniel McGowan (38 anos) foi ferido mentres tentava ajudar a Patrick Campbell a topar refúgio.

Umha segunda vaga de paraquedistas avançou a pé por Rossville St mentres algúns manifestantes procuravam topar refúgio nos entulhos da barricada. Os paraquedistas reanudarom o fogo.

Huge Gilmore (17 anos) foi assassinado a tiros mentres corria cara os pisos de Rossville e morreu diante da sua propria casa.

Michael Kelly (17 anos), Michael McDaid (20 anos) e John Young (17 anos) forom abatidos acarom da barricada de entulhos.

William Nash (19 anos) foi abatido a tiros no peito quando fugia dos paraquedistas e caiu morto sobre a mesma barricada. O seu pai, Alex Nash (51 anos), foi ferido mentres tentava assistir ao seu filho.

Kevin McElhinney (17 anos) foi assassinado mentres se arrastava cara a porta de entrada dos pisos Rossville para se refugiar.

Outros manifestantes tentarom topar refúgio dentro do Glenfada Park, em frente dos pisos de Rossville, sem decatar-se de que um grupo de paraquedistas se dirigia nessa direcçom. Os residentes dos pisos de Rossville, vendo os soldados chegar, advertirom os manifestantes do risco que corríam. Os paraquedistas abrirom fogo sobre eles.

Joseph Friel (22 anos) foi ferido no peito mentres tentava sair de Glenfada Park.

Daniel Gillespie (32 anos) recebeu umha bala na cabeça e caiu inconsciente.

Michael Quinn (17 anos) foi ferido no ombro por umha bala que acabou atravesando a sua cara.

Joseph Mahon (16 anos) foi ferido por umha bala na perna e fingiu o morto ao se decatar da aproximaçom das tropas inglesas.

William McKinney (27 anos) foi assassinado por umha bala nas costas mentres tentava ajudar os feridos.

Patrick O'Donnel (41 anos) foi ferido ao se lançar diante dumha muller para a proteger do tiroteio.

Jin Wray (22 anos), ferido durante a primeira vaga de tiros, ficou paralizado sobre o solo em fronte da casa dos seus avós até que um paraquedista o rematou por duas vezes nas costas.

Gerald Donaghey (17 anos) e Gerard McKinney (35 anos) forom asasinados na ruela que conduzia desde Glenfada Park a rua Abby Park. Pensavan que o tiroteo acabara e tentavam atender às vítimas de Glenfada Park.

Ao sair de Glenfada Park, os paraquedistas reanudarom o fogo contra os pisos de Rossville.

Patrick Doherty (31 anos) recebeu umha bala nas costas mentres gatunhava na procura da protecçom dos pisos.

Bernard McGuigan (41 anos), que se refugiara na esquina dos pisos Rossville, ignorando os avisos dos seus companheiros pola sua própria segurança e portando un pano branco, tentou chegar até o moribundo Patrick Doherty. Recebeu um disparo na cabeça.

Em menos de meia hora, numha zona nom mais grande que um campo de futebol, os soldados do exército británico assassinaran 13 homes desarmados e feriram outros 13 assim como duas mulheres. Mentres os habitantes de Derry, em estado de shock, iam conhecendo aos poucos o número de vítimas e de feridos, a imprensa británica qualificava-os de "pistoleiros e terroristas". O exército e o governo británicos declararom que os seus soldados receberam centos de disparos apesar de que nem um só soldado ou veículo militar fora alcançado nessa ráfaga de fogo.

Três meses mais tarde o juiz supremo inglês, Lord Widgery, decretou baixo o ditado dos seus superiores políticos, que os paraquedistas nom fixeram nada incorrecto em Derry o 30 de Janeiro de 1972, conhecido como Bloody Sunday.

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Nasce a Rede Galega Anticapitalista (RA!)

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Que fai a rã? CROA: Construe, Remexe, Organiza e Atua ;-)
Para mais informação, ler o chamamento da RA e uma octavinha.
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Sábado, 14 de Março de 2009

Babeuf: O Manifesto dos Iguais (1796)

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(Tirado do Arquivo Marxista em Internet e da wikipedia)

François Noël Babeuf, conhecido como Gracchus Babeuf (Picardia, 1760), foi sucessivamente servo doméstico, artesão, pedreiro e encarregado da contabilidade de uma propriedade senhorial.

Publicou em 1790 “O Cadastro Perpétuo”, onde defendia as reivindicações de igualdade radical do povo de Paris. Várias vezes preso e solto por causa das suas ideias, fijo-se chamar Gracchus em referência aos dous irmãos romanos que militaram a favor da reforma agrária e foram assassinados (133 e 121 antes de Cristo).

Funda em 1794 o jornal “A Tribuna do Povo” e cria em 1795 o movimento político clandestino Conjuração dos Iguais, cujo objetivo era continuar a revolução e garantir a coletivização das terras para conseguir a "igualdade perfeita" e o "bem comum".
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O seu Manifesto dos Iguais pode-se considerar a primeira declaração política de caráter socialista. Marx considerava Babeuf o “primeiro ativista comunista” e a Conjuração do Iguais o "primeiro partido comunista". Para Rosa Luxemburgo, Babeuf é "o primeiro precursor dos levantamentos revolucionários do proletariado". As suas ideias são as dum socialista utópico, precursor do comunismo e o anarquismo.

Preso em 1796, Babeuf é executado em maio de 1797, após uma tentativa de suicídio.


MANIFESTO DOS IGUAIS

Povo da França!

Durante perto de vinte séculos viveste na escravidão e foste por isso demasiado infeliz. Mas desde há seis anos que respiras afanosamente na esperança da independência, da felicidade e da igualdade.

A igualdade! - primeira promessa da natureza, primeira necessidade do homem e elemento essencial de toda a legítima associação! Povo da França, tu não ficaste mais favorecido do que as outras nações que vegetam sobre esta mísera terra! Sempre e em qualquer lado, a pobre espécie humana, vítima de antropófagos mais ou menos astutos, foi joguete de todas as ambições, pasto de todas as tiranias. Sempre e em qualquer lado se adulou os homens com belas palavras, mas nunca e em lugar nenhum obtiveram eles aquilo que, através das palavras, lhes prometeram. Desde tempos imemoriais se vem repetindo hipocritamente: os homens são iguais. Mas desde há longo tempo que a desigualdade mais vil e mais monstruosa pesa insolentemente sobre o gênero humano.

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Desde a própria existência da sociedade civil, o atributo mais belo do homem vem sendo reconhecido sem oposição, mas nem uma só vez pôde ver-se convertido em realidade: a igualdade nunca foi mais do que uma bela e estéril ficção da lei. E hoje, quando essa igualdade é exigida numa voz mais forte do que nunca, a resposta é esta: "Calai-vos, miseráveis! A igualdade não é realmente mais do que uma quimera; contentai-vos com a igualdade relativa: todos sois iguais em face da lei. Que quereis mais, miseráveis?" Que mais queremos? Legisladores, governantes, proprietários ricos; é agora a vossa vez de nos escutardes.

Todos somos iguais, não é verdade? Este é um princípio incontestável, porque ninguém poderá dizer seriamente, a não ser que esteja atacado de loucura, que é noite quando se vê que ainda é dia. Pois bem, o que pretendemos é viver e morrer iguais já que como iguais nascemos: queremos a igualdade efetiva ou a morte.
Não importa qual o preço, mas havemos de conquistar essa igualdade real. Ai daqueles que se interponham entre ela e nós! Ai de quem se oponha a um juramento formulado desta forma!

A Revolução Francesa não é mais do que a vanguarda de outra revolução maior e mais solene: a última revolução.

O povo passou por cima dos corpos do rei e dos poderosos coligados contra ele; e assim acontecerá com os novos tiranos, com os novos tartufos políticos sentados no lugar dos velhos.

De que mais precisamos além da igualdade de direitos?

Temos apenas necessidade dessa igualdade, da qual resulta a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: queremos vê-la entre nós, sob o teto das nossas casas. Estamos dispostos a tudo, a fazer tábua-rasa de tudo o mais, apenas para conservar a igualdade. Pereçam, se for necessário, todas as artes, desde que se mantenha de pé a igualdade real!

Legisladores e governantes, com tão pouco engenho como boa fé, proprietários ricos e sem coração, em vão tentais neutralizar a nossa sagrada missão dizendo: "Eles não fazem mais do que reproduzir aquela lei agrária exigida já por diversas vezes no passado".

Caluniadores, calai-vos pela vossa parte e, em silêncio de confissão, escutai as nossas pretensões, ditadas pela natureza e baseadas na justiça.

A lei agrária, ou a divisão da terra, foi aspiração momentânea de alguns soldados sem princípios, de algumas populações incitadas pelo seu instinto mais do que pela razão. Nós temos algo de mais sublime e de mais eqüitativo: o bem comum, ou a comunidade de bens! Nós reclamamos, nós queremos desfrutar coletivamente dos frutos da terra: esses frutos pertencem a todos.

Declaramos que, posteriormente, não poderemos permitir que a imensa maioria dos homens trabalhe e esteja ao serviço e ao mando de uma pequena minoria.

Há muito tempo já que menos de um milhão de indivíduos tem vindo a dispor de quanto pertence a mais de vinte milhões de semelhantes seus, de homens que são em tudo iguais a eles.

Devemos pôr termo a este grande escândalo, que os nossos netos não quererão acreditar possa ter existido! Devemos fazer desaparecer, finalmente, essas odiosas distinções de classes entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos, entre senhores e servos, entre governantes e governados.

Que entre os homens não exista mais nenhuma diferença do que aquela que lhes é dada pela idade e pelo sexo. E, porque todos temos as mesmas necessidades e as mesmas faculdades, que exista, portanto, uma única educação para todos e um idêntico regime de alimentação. Toda a gente se sente satisfeita por dispor do sol e do mesmo ar que respira. Porque não há de acontecer o mesmo com a quantidade e a qualidade dos alimentos?

Mas é verdade que já os inimigos da ordem de coisas mais natural que imaginar se possa protestam e clamam contra nós.

Desorganizadores e facciosos, dizem-nos eles, vós só desejais que exista anarquia e massacre.

Povo da França!

Não desejamos perder tempo a responder a esses senhores, mas a ti dizemos-te: a sagrada tarefa em que estamos empenhados não tem outro objetivo que não seja pôr termo às lutas civis e à miséria pública.

Nunca foi concebido e posto em execução um plano mais vasto do que este. De vez em quando, alguns homens de talento, homens inteligentes, falaram em voz baixa e temerosa desse plano. Mas nenhum deles, claro, teve a coragem necessária para dizer toda a verdade.

Chegou a hora das grandes decisões. O mal encontra-se no seu ponto culminante, está a cobrir toda a face da terra. O caos, sob o nome de política, há já demasiados séculos que reina sobre ela. Que tudo volte, pois, a entrar na ordem exata e que cada coisa torne a ocupar o seu posto. Ao grito de igualdade, os elementos da justiça e da felicidade estão a organizar-se. Chegou o momento de fundar a República dos Iguais, este grande refúgio aberto a todos os homens. Chegaram os dias da restituição geral. Famílias sacrificadas, vinde todas sentar-vos à mesa comum posta para todos os vossos filhos.

Povo da França!

A ti estava, pois, reservada a mais esplendorosa de todas as glórias! Sim, tu serás o primeiro que oferecerá ao Mundo este comovedor espetáculo.

Os hábitos inveterados, os antigos preconceitos, farão novamente tudo para impedir a implantação da República dos Iguais. A organização da igualdade efetiva, a única que satisfaz todas as necessidades sem provocar vítimas, sem custar sacrifícios, talvez em princípio não agrade a todos. Os egoístas, os ambiciosos, rugirão de raiva. Os que conquistaram injustamente as suas possessões dirão que está a cometer-se uma injustiça em relação a eles. Os prazeres individuais, os prazeres solitários, as comodidades pessoais, serão motivo de grande pesar para os indivíduos que sempre se caracterizaram pela sua indiferença ante os sofrimentos do próximo. Os amantes do poder absoluto, os miseráveis partidários da autoridade arbitrária, baixarão pesarosos as suas soberbas cabeças perante o nível da igualdade real. A sua visão estreita dificilmente penetrará no próximo futuro da felicidade comum. Mas que podem fazer alguns milhares de descontentes contra uma massa de homens completamente satisfeitos de terem procurado durante tanto tempo uma felicidade que sempre tiveram à mão?

Logo que se verificar esta autêntica revolução, estes últimos, estupefatos, dirão uns aos outros: "Como custava tão pouco conseguir a felicidade comum! Era necessário apenas ter o desejo de alcançá-la. E por que não fizemos isso há mais tempo?" Será preciso repetir sempre uma e outra vez? Sim, sem dúvida, basta que sobre a terra um homem seja mais rico e mais poderoso do que os seus semelhantes, do que os seus iguais, para que o equilíbrio se quebre e o crime e a desgraça invadam o Mundo.

Povo da França!

Quais os sinais que nos permitem reconhecer as qualidades de uma Constituição? Aquela que se apóia integralmente sobre a igualdade é, na realidade, a única que te convém, a única que satisfaz as tuas aspirações.

As cartas aristocráticas dos anos 1791 e 1795, em vez de romper as tuas cadeias, vieram consolidá-las. A de 1793 supôs ser um grande passo no sentido da igualdade real, mas não conseguiu todavia esse objetivo e não apontou diretamente para a igualdade comum, embora consagrasse solenemente o grande princípio dessa igualdade.

Povo da França!

Abre os olhos e o coração para a plenitude da felicidade; reconhece e proclama conosco a República dos Iguais.

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Zeitgeist: Addendum

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Hai quase exactamente um ano comentávamos nestas páginas o documental Zeitgeist. Está disponível já a segunda entrega, "Zeitgeist: Addendum", a qual, ao igual que a primeira, oscila entre o mui interessante e o quase delirante. E, também ao igual que a original, consta de várias partes claramente diferenciadas (atençom: se se pode estragar o argumento dum documental... entom o que segue é um SPOILER!). O Addendum começa com uma descriçom crítica do monetarismo, apresentado como um sistema que furta recursos do comum para entregar-lhe-los aos bancos (correcto!). A seguir, e ligado com este roubo de recursos, John Perkins (colaborador do NY Times, escritor, impulsor do projecto Dream Change) fai um repasso da trajectória imperialista dos USA, analisando os casos de desestabilizaçom (tanto total como em grau de tentativa, e sempre com o fim de expoliar estes países) de Panamá, Irão ou Venezuela, entre outros (certo!). Despois a película vira para outro âmbito, nom já de crítica, senom de proposta em positivo: a do Projecto Venus, uma simpática ida de olla sem desperdício. E é que basicamente defendem uma tecno-utopia, possibilitada por uma "economia baseada em recursos" na que estes seriam super-abundantes. Na sua visom, nom nos teremos que preocupar pola escassez de energia: hai de sobra, só que em fontes ainda nom explotadas -tales como a geotérmica ou a hidroeléctrica das correntes submarinhas. Outro exemplo: o do transporte, para o que imaginam um futuro onde os VTOLs e os trens Maglev nos solucionam a vida a baixo custo. A chave de todo isto, o que o faria possível, explica-se na película e também aqui. ..
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.Verdadeiramente é um futuro no que me gostaria acreditar (paga a pena botar uma olhada à sua web, talvez algum dia me construa uma casa como as que proponhem), se nom fosse polo déjà vu a sonho hippie da Era Espacial... e a que, apesar das maravilhas prometidas, nom dam nenguma folha de rota para chegar a elas. O seu projecto é aparentemente um quadro estático, nom um processo; igual de fermoso e perfecto que o anarquismo -sendo em realidade uma forma de realizaçom do ideal anarquista-, apresenta as mesmas (formidáveis) dificuldades para a sua realizaçom. Mas, apesar de todo, recomendo o visionado deste Addendum, por refrescante e "debatível"... e também, que carai, porque imagino que Carl Sagan sorriria vendo-o ;-)

O debate do programa eleitoral do Bloco da Esquerda, em internet

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(tirado de www.bloco.org)
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O programa eleitoral do Bloco de Esquerda será elaborado através de um debate na internet, estimulando a participação de militantes, de activistas de movimentos, de especialistas e de homens e mulheres de esquerda de diversas opiniões. Nunca nenhum partido em Portugal promoveu um processo de discussão aberta deste tipo. O Bloco fá-lo-á aqui.
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Em cada área temática, partindo de um texto de abertura, serão publicadas observações desenvolvidas, pedidas pelo Bloco a especialistas críticos ou activistas sociais e políticos. Serão acolhidos contributos mais extensos (até 4000 caracteres, espaços incluídos), enviados para igualdade@bloco.org. Todos os textos serão abertos a comentários.
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

Antoni Domènech: Glossário do Activista Crítico

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Hai ano e meio recolhíamos um artigo a favor da renda básica da autoria de Antoni Domènech, catedrático de filosofia e editor de Sin Permiso. Reproduzimos agora uma entrevista realizada no marco do Foro Social Galego e publicada originalmente em Rebelion. (Existe também uma versão editada e traduzida para o galego em Tempos Novos, mas que eu saiba só na edição impressa dessa revista.) Mui interessante, em especial a sua última parte (clicar em "CONTINUAR LENDO..." e ver os ressaltados em vermelho).
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Me interesa especialmente el análisis de ciertos conceptos en los que tú te detuviste en algunas de tus intervenciones en el Foro. Y por eso estoy pensando en darle a la entrevista la forma de glosario, de un "glosario para el activista crítico". ¿Qué te parece?

Pues adelante…

En primer lugar, la conceptualización de ciudadanía me parece básica. Hablamos de movimientos ciudadanos, de la asunción de una serie de derechos y deberes, del sentimiento de pertenencia a un grupo humano... Lo cierto es que las instituciones políticas gallegas han puesto de moda el término y lo utilizan de forma un tanto gratuita. Se busca la participación del público teatral o de los usuarios de transporte público... Pero se busca a través de campañas unidireccionales y muchas veces sin un destinatario claro. Entiendo que para que podamos hablar de ciudadanía (y estoy pensando en la sociedad gallega pero supongo que podemos generalizar esta visión al resto del Estado español), es necesario que exista una conciencia y un cierto grado de organización. ¿O se puede pensar en una ciudadanía pasiva y conformista?

El concepto de "ciudadanía" desapareció prácticamente del vocabulario político, y señaladamente de la filosofía política académica, en los años 50, 60 y 70. Se entendía como algo trivial, como el "derecho a tener derechos". Por un lado, digamos, desde la izquierda, en un sentido amplio del término, en la medida en que ese derecho madre de todos los derechos se veía plenamente asegurado tras la II Guerra Mundial, cuando no solamente se consolidó el derecho de sufragio universal conquistado por el movimiento obrero socialista europeo tras el desplome de las grandes monarquías continentales entre 1918 y 1931 (la conquista que trataron de destruir, precisamente, los fascismos de los años 30), sino que, además, se ofrecieron elementos de ciudadanía social, blindados constitucionalmente (como en las Constituciones republicanas alemana, austriaca, francesa e italiana de 1949, o, muy tardíamente, en la Constitución de 1978 actualmente vigente en el Reino de España).

Por otro lado, desde la derecha, particularmente desde la derecha académica, dominada por el utilitarismo, nunca se tomaron en serio los derechos, y menos aún un pretendido "derecho a tener derechos": lo que contaba es la “utilidad”, es decir, el grado de satisfacción de los deseos y las preferencias de las gentes. Fue Bentham quien, a comienzos del siglo XIX, inaugurando esa tradición de filosofía política y social, dejó dicho que los derechos eran un "sinsentido" y, los "derechos humanos, un sinsentido al cuadrado". Los neoutilitaristas del siglo XX —particularmente los economistas neoclásicos— podían estar a favor de aumentar el “bienestar” de las poblaciones, pero deslindado eso de cualquier categorización en términos de “derechos” constitutivos de ciudadanía.

Cuando, a finales de la década de los 70, comenzó el proceso de contrarreforma del capitalismo que se conoce con el horrísono neologismo de "globalización", comenzó también un asalto a las ideas mismas (procedentes del antifascismo) de ciudadanía democrática (recuerda la posición de Huntigton en la época —¡ese viejo cabrón siempre está en las peores brechas; ahora, en la de la guerra de civilizaciones!—: todos los problemas del mundo se debían a una "crisis de gobernanza", y la crisis de gobernanza se debía a un exceso de democracia, de participación popular en los procesos políticos y en los Estados) y de ciudadanía social: con la llegada de la señora Thatcher al poder en 1979 comenzó un ataque decidido al amplio conjunto de medidas que venían garantizando desde el final de la II Guerra Mundial cierta protección social de los trabajadores, desde derechos sindicales elementales hasta derechos de cogestión trabajadora de las empresas privadas (la célebre Mitbestimmung alemana), pasando por la institución de robustas áreas de propiedad económica pública y la implantación de amplias prestaciones en materia de sanidad e instrucción públicas que configuraron lo que en Europa continental se llamó "Estado social" y en los países anglosajones, "Estado de bienestar".

Por todos esos motivos, la "ciudadanía" volvió al centro del debate público, reingresando también en las elaboraciones académicas de economistas, politólogos y filósofos. Y claro, una forma de eludir el debate y escurrir el bulto es, como tú sugieres, fingir que se está muy preocupado por la "ciudadanía", pero actuar en la práctica con un concepto de "ciudadanía" o huero o yerto.

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¿O huero o yerto?

Huero es el concepto de "ciudadanía" pergeñado por algunos intelectuales neoliberales, empeñados en hacernos creer, contra una tradición jurídica milenaria (que arranca del derecho civil republicano romano) que un ciudadano verdaderamente "libre" sería el que, si quisiera, y sin los actuales impedimentos de los Estados democráticos de derecho, podría venderse "libremente" como esclavo a otro (piensa en el debate de la semana laboral de las 65 horas —“libremente” pactadas entre el trabajador individual y su patrón—, escandalosamente propuesta por la Comisión europea); o el “ciudadano” que podría firmar —contra las normas vigentes del actual derecho penal— un contrato "libre" y voluntario de asesinato (o más moderadamente, de venta de órganos anatómicos) con otro; o, por un último ejemplo, el que estaría habilitado para poner "libremente" en almoneda al mejor postor su derecho de sufragio. En una palabra: la ciudadanía huera nace de la idea de destruir los derechos constitutivos —no meramente instrumentales— que, precisamente, definen nuestra personalidad jurídica ciudadana, y con ella, nuestra libertad, derechos que, por lo mismo, son considerados inalienables en cualquier orden jurídico de impronta republicana.

Yerto es, en cambio, el concepto de ciudadanía manipulatoriamente pasivo, propagandístico, que, reconociendo retóricamente (parte de) lo antedicho, trata de convertir a los ciudadanos en meros espectadores pasivos de un juego de esgrima más o menos cruento entre elites. Entre elites, por lo demás, tan poco inteligentes y tan inseguras de sí mismas que, encima, mendigan el aplauso de un público inerme. Y cuando los ciudadanos se lo niegan (como hicieron franceses y holandeses con el grotesco proyecto de la “Constitución” europea), hacen caso omiso y buscan otras salidas.

Mi primera pregunta venía de una preocupación que me ronda, y que supongo sale de mi experiencia de trabajo en los medios de comunicación. Parece obvio que los grandes poderes mediáticos, cuya influencia en la conformación de opiniones resulta incontestable, no tienen ningún interés en que los ciudadanos y ciudadanas adquieran mecanismos de pensamiento crítico. El Foro del pasado fin de semana en Santiago, a pesar de reunir a más de cuatrocientas personas en sus distintas actividades, no apareció en los medios de mayor difusión en Galicia. Cómo puede el pensamiento crítico contrarrestar el dominio aplastante del pensamiento oficial (hace unos años se habló de "pensamiento único", no sé si sigue siendo pertinente). Creo que en este caso, el vocablo a desgranar sería conscienciación o, quizá, educación.

Es un problema muy grave. Ten en cuenta que son menos de una decena las grandes empresas de medios de comunicación que dominan hoy más del 95% de la información que circula por el mundo. La concentración de la propiedad a que hemos asistido en las últimas décadas en ese sector, que en buena medida ha venido de la mano de la privatización de los medios públicos escritos y audiovisuales, constituye una amenaza muy grave a la libertad de expresión y a la pluralidad, una amenaza para nada ajena a eso que se llama el “pensamiento único”, que no es otra cosa que la paulatina conversión de un ideario extremista, rabiosamente hostil a lo público —es decir, a las soluciones políticas y democráticas de los problemas de la vida social y económica—, en una doxa pretendidamente “moderada” y “centrista”, conformadora del sentido común, también académico. Nunca el sentido común, forjado e “impartido” ahora por un mediocre doxariado compuesto de tertulianos, columnistas y académicos exhibicionistas y bien financiados por intereses siniestros, estuvo tan lejos del buen sentido.

La izquierda debe oponerse a eso en diversos planos: por lo pronto, creando medios alternativos (cosa facilitada en cierto modo por Internet; pero sabiendo que con Internet se puede llegar, a lo sumo, a menos de un 10% de la población); insistiendo, por difícil e ingrato que eso resulte, en la necesidad de introducir más pluralidad en los medios existentes, es decir, denunciando —todo lo educadamente que se quiera— el monopolio del doxariado en esos medios; y en otro plano, más de fondo, más radical, fijando bien claramente en los programas políticos de las izquierdas la necesidad de reconstituir el carácter democrático, es decir, público, y públicamente dotado, de buena parte de los medios de comunicación y de información. Eso no pasa necesaria o exclusivamente por su nacionalización; también es concebible, paralelamente, un fondo de ayudas públicas que rebajara drásticamente las barreras de entrada al mercado de los medios de comunicación y que actuara a favor de la libertad de ese mercado, combatiendo con los más variados instrumentos que ofrecen las políticas públicas (incluidas una severa disciplina fiscal sobre las rentas monopólicas y la limitación o aun la prohibición de la publicidad comercial) una atroz deriva oligopolística cargada de consecuencias políticas gravemente nocivas para la calidad de la vida democrática. En la medida en que varios grandes grupos de comunicación se ven afectados por la crisis financiera galopante (piensa en el grupo Chicago Tribune, del que forman parte Los Angeles Times y el New York Times), es posible que la idea de reconstruir un gran espacio público, democráticamente controlable, para la comunicación vuelva, directa o indirectamente, al orden del día, incluso por motivos groseramente económicos. Así como la alternativa a la nacionalización democrática del grueso de la banca es hoy un ulterior y delirante proceso de concentración oligopolístico del sector financiero, la alternativa a la renacionalización democrática de buena parte de los medios de comunicación (o a la severa regulación pública del mercado de los medios de comunicación en un sentido antimonopolista) es hoy un ulterior y delirante proceso de concentración oligopolística de la propiedad privada de esos medios de conformación y manipulación de la opinión pública.

¿Es ingenua la aspiración, desde un movimiento minoritario como es el de los Foros Sociales, a emprender iniciativas transformadoras que den un vuelco a este sistema injusto y en crisis?

Eso depende de cuál sea esa aspiración. Los Foros Sociales han desempeñado un papel muy interesante en una época de euforia “globalizadora” y dominio prácticamente incontestado de un ideario extremista surgido de la derrota del movimiento obrero y popular mundial a finales de los 70 del siglo pasado. Esa euforia se terminó como consecuencia del suicidio del capitalismo financiarizado de estilo norteamericano. Lo que hay que ver ahora es si los Foros Sociales pueden jugar también un papel importante en la reconstrucción de los movimientos populares. Esta va a ser una crisis larga, honda y duradera, que tendrá consecuencias devastadoras sobre las poblaciones trabajadoras y sobre los pobres de todo el mundo. Lo que está por ver es si la inmensa mayoría de la humanidad logrará organizarse de forma tal, que consiga gravitar políticamente de manera decisiva sobre el modo de salir de esta crisis, una crisis que, encima, se solapa con otras cargadas de desafíos: una crisis energética (la necesidad de salir de la era de los combustibles fósiles) y una crisis ecológica sin ejemplo en la historia de la humanidad (cambio climático, entrada del planeta Tierra en la era del antropoceno). A mí me parece que, en la medida en que los Foros Sociales se pongan modesta y realistamente al servicio de esa tarea reorganizadora de las fuerzas populares, sus aspiraciones no tienen por qué ser ingenuas.

Proyectos como el de la revista Sin Permiso están proporcionando utilísimas herramientas de reflexión para reforzar los argumentos de los movimientos ciudadanos. Pero su difusión es limitada, las personas que no tengan acceso a Internet lo tendrán difícil para leerla, y en cualquier caso su lectura requiere de un cierto grado de preparación. Durante el plenario del Foro hubo una intervención que criticaba que "la Academia", o los "expertos", siempre estaban del lado del poder, y que los intelectuales de izquierdas habían traicionado a los movimientos de base. Era una intervención un tanto apasionada, pero en cualquier caso, puede ser sintomática de un sentir habitual en determinadas organizaciones. Como respuesta a esto, qué crees tú que puede aportar el pensamiento académico a los movimientos sociales?

Ese debate se ha dado ya otras veces en la historia de los movimientos sociales, y particularmente, en la historia del movimiento obrero socialista. ¿Necesitan “expertos” los movimientos sociales transformadores? El viejo Engels y el viejo Marx pensaban que sí; sobre todo Engels, que murió (en 1895) obsesionado con la idea de atraer al movimiento obrero, y particularmente a la socialdemocracia alemana, a ingenieros, médicos, economistas, higienistas, estadísticos, ecólogos, juristas que pudieran ayudar a gestionar una economía en transición democrática hacia el socialismo. Quería evitar a toda costa que a los socialistas les pasara lo mismo que a los jacobinos franceses de 1793, que tuvieron que depender de “expertos” reaccionarios que saboteaban la política republicana revolucionaria, lo que llevó al Terror. Ahora bien; tanto Marx como Engels fueron muy conscientes de que muchos de los intelectuales y académicos que se acercaban al movimiento obrero eran más “ideólogos” que expertos técnica o científicamente competentes. Y los viejos fueron extremadamente hostiles a este tipo de “intelectual” diletante, nada sólido científicamente y siempre orientado según la dirección de los vientos. En mi opinión, el siglo XX ha dado la razón a los viejos. Marx llegó a decir que esas gentes “se construyen una ciencia privada” con el ánimo logrero de hacerse un lugar en el mundo (también en el mundo académico), en flagrante violación de los códigos deontológicos más elementales de la investigación científica, que pertenece al ámbito de la razón pública. Esas gentes, decía Marx, no sirven para nada: lo que precisa el movimiento son expertos de verdad, no personajillos que se refugian en el assylum ignorantiae de una “ciencia privada” construida pro domo sua, en vez de participar, como uno más, de la ciencia normal y corriente, que es siempre ejercicio público de la razón (en parte por eso, Marx fue hostil a la idea de que pudiera hablarse de una concepción “marxista” de la historia o de la economía; pero eso es harina de otro costal). Buena parte de los intelectuales “marxistas” del siglo XX fueron —¡ironías de la historia!— gentes que se construyeron “ciencias privadas”: desde los estalinistas de la “ciencia proletaria” y la “lógica dialéctica”, hasta los posmodernos “deconstruccionistas” y “relativistas”. Yo pienso como los viejos: esas gentes no nos sirven para nada, políticamente hablando, y es, además, necio tratar de atraerlos, porque son veletas que se orientan y obran según los vientos. Eso hay que tenerlo en cuenta, ahora que la veleta parece comenzar a girar en un sentido más favorable para la izquierda. Lo que necesitamos son expertos competentes, no cantamañanas, ni falsarios especuladores de tres al cuarto (aunque se columpien en un “pensamiento débil”), ni arbitrarios cultivadores de arcanas “ciencias privadas”. Por lo demás, al lego siempre le resultará más fácil controlar democráticamente a un experto especialista de verdad, obligado a hablar el lenguaje de la razón y de la deliberación públicas, que al ideólogo de turno (al perito en “paz”, en “socialismo del siglo XXI”, en “deconstrucción”, en “discursos de género”, en “biopolítica”, en pretendidas “ontologías de lo social”, en “sociedad de la información” o en “alterglobalización”) que, buscando fascinar a propios y extraños con una jerga privada esotérica y apenas inteligible, termina por cultivar lo que los franceses –¡que de eso saben un rato!— llaman el bluff à l’expertise.

Otro término que se presta a abusos y limitaciones es el de libertad. Y por eso me parece muy oportuna la definición que, desde el enfoque republicano, le disteis en la mesa sobre la Renta Básica Daniel Raventós y tú. Cuál es la libertad a la que aspiran los movimientos ciudadanos integrados en el movimiento altermundista, frente al concepto "robado" por los defensores del modelo neoliberal?

Es el concepto de libertad como capacidad para no tener que pedir permiso a ningún particular para vivir. Ese es el viejo concepto de libertad republicana. No es libre quien necesita pedir permiso a otro particular para vivir, quien no es materialmente independiente de otro particular: no es libre el esclavo, no es libre el trabajador asalariado (“esclavo a tiempo parcial”, según la genial definición de Aristóteles, luego retomada por Adam Smith y por Marx), no es libre la mujer sometida al pater familias. La democracia republicana revolucionaria y el moderno socialismo industrial lo que hicieron fue tratar de universalizar ese concepto: la democracia revolucionaria, mediante la distribución de la tierra a todos y la fundación de una “república de pequeños propietarios agrarios” (Jefferson), o mediante garantía republicana de un derecho universal e incondicional de existencia material (Robespierre, Tom Paine); la democracia socialista posterior a la revolución industrial, mediante una “asociación republicana de productores libres e iguales que se apropian en común de los medios e instrumentos de producir” (Marx). La idea era que no sólo unos pocos tuvieran libertad para vivir sin necesidad de tener que pedir permiso a otros; que todos tuvieran esa libertad. La lucha por la universalización de la libertad republicana, tan antigua, sigue siendo nuestra lucha y es el núcleo axiológico del socialismo democrático-republicano contemporáneo, entendido como programa político de lucha por una cultura económica, política y social capaz de realizar aquel ideal en las condiciones de una economía tecnológica e industrialmente desarrollada.

Globalización/Mundialización. El lema principal de los Foros Sociales es el de que otro mundo es posible, o la famosa consigna de trabajar en lo local para cambiar y pensar globalmente. Pero ¿tiene sentido pensar en una "mundialización buena"?

No, no tiene el menor sentido. La llamada globalización ha sido un proceso, de todo punto político, de remundialización del capitalismo, un proceso paralelo a la contrarreforma del mismo. El capitalismo posterior a la II Guerra Mundial pudo reformarse más o menos tímidamente en un sentido social por la vía de fijar e instituir internacionalmente el derecho de los gobiernos democráticos —según expresó Keynes lo que consideraba el principal resultado de Bretton Woods— “a controlar los movimientos de capitales”; es decir, a desmundializar una economía capitalista sin brida ni freno que había llevado a la humanidad a la catástrofe de las dos guerras mundiales más cruentas y terribles que registra la historia universal. Cualquier alternativa razonable a la catástrofe económica y ecológica en que ha venido a parar esa “globalización” pasa hoy, en mi opinión, por una nueva desmundialización, comenzando por la reinstauración del derecho de los gobiernos democráticos a controlar los movimientos de capitales y por devolver a los pueblos su plena soberanía. El cosmopolitismo republicano de Kant y Robespierre, y su heredero directo, el internacionalismo socialista del movimiento obrero, aspiraron a la unión fraternal de los distintos pueblos soberana y democrático-republicanamente constituidos, y eso no tiene nada que ver con la utopía pseudocosmopolita universal, que es y ha sido siempre, desde los tiempos de Diógenes el cínico y Antístenes hasta el neoliberalismo de nuestros días, una construcción intelectual al servicio de causas imperiales inconfesables; la otra cara, si quieres decirlo así, de los belicosos nacionalismos etnicistas y antidemocráticos.

Entre otros efectos del capitalismo, creo yo, hay uno que afecta directamente a las personas, y es el de la generalización del egoísmo. Yo tengo muchas discusiones con amigos míos, muy escépticos, que defienden que somos egoístas y malvados por naturaleza. Yo soy tal vez un poco ingenua y discrepo, y me paro a pensar en mis abuelos que vivían en el campo y que se juntaban con los vecinos para repartirse las tareas, o que tenían sistemas de ayuda mutua en caso de malas cosechas. Sé que este comunitarismo era simplemente una característica de la economía tradicional agraria que en Galicia no desapareció hasta hace muy pocos años, y que tenía aspectos muy negativos como la posición de la mujer, etc. Pero en cualquier caso, tenía un elemento muy interesante como era el del sentimiento de comunidad. ¿A ti te parece, realmente, que soy una ingenua, o tiene sentido defender los valores de la solidaridad a la hora de proponer una transformación social?

Ese es un asunto bastante complejo, y me resulta imposible despacharlo con una contestación rápida. Pero prueba a preguntar a tus amigos “egoístas” qué sacan ellos, egoístamente hablando, de la defensa de la tesis panegoísta, según la cual el único motivo de la acción humana es el interés propio, indiferente al de los demás. Porque si esa tesis fuera verdadera, no se ve, en su caso, por qué tendrían que andar defendiendo, por amor a la verdad, el panegoísmo, una tesis que, por lo pronto, no parece favorecer a la promoción de su interés propio (el interés propio siempre estaría mejor servido por alguna hipocresía buenista); y en todo caso, el perder tiempo defendiendo algo —lo que sea— por mero a amor a la verdad ya es un tipo de conducta que no se condice nada bien con el “egoísmo” calculador y economizador de energía. Diles que no se odien tanto a sí mismos, que la contradicción performativa en que les has pillado revela que ellos mismos no son tan egoístas como creen. Diles que son víctimas de la propaganda del “sentido común” construido por el doxariado de nuestro tiempo –¡esa colección de pusilánimes!—, tan alejado del buen sentido que va con la humana magnanimidad. Reclútales para tu causa, ofréceles el viejo consejo aristotélico que está en el corazón axiológico del laicismo republicano y socialista moderno: “Deja de pensar mal de ti mismo, y sé tu mejor amigo siempre”.

En la mesa "O neoliberalismo en crise: cara a onde vai o sistema?" planteabas que la actual crisis evidencia también el fracaso del intento de superar el shock de 1973 a través de la financiarización, el neoliberalismo y la remundialización del capitalismo. Muchas fueron las voces durante el Foro que invitaron a aprovechar este fracaso del capitalismo, para orientar el movimiento altermundista hacia acciones políticas que nos lleven a un sistema más justo. Si crees que hay alguna posibilidad para esto, ¿hacia donde crees que podría ir encaminada esa acción política? ¿Cuáles serían los errores de la izquierda actual a evitar? Propuestas como la de la Renta Básica se plantean como reformas dentro del sistema, porque, aunque son conflictivas como afirmáis, no parecen directamente dirigidas a acabar con el sistema, con el capitalismo. Ahora que el sistema (el capitalismo, tal vez el propio Estado), parece que se desmorona, habrá que replantear propuestas de este tipo, o tienen más sentido que nunca?

Se puede ver la presente crisis como una crisis de la economía real inducida por los insensatos procesos de desregulación, financiarización y remundialización de las últimas décadas. Pero también se puede pensar que el neoliberalismo (como conjunto de políticas de desposesión de los derechos conquistados por los trabajadores y de despojo y privatización de los patrimonios comunes de los pueblos del mundo —incluido el patrimonio natural—), la remundialización (sobre todo, la reintroducción de la plena “libertad” de movimientos de capitales) y la financiarización (la autonomización sin precedentes del sector financieros y su creciente conversión en una especie de “esquema Ponzi” fraudulento a escala mundial) han sido distintas estrategias destinadas a superar la crisis clásica de “sobreproducción capitalista” (por decirlo con Marx) o de desplome de la “eficacia marginal del capital” (por decirlo con Keynes) del final de la Edad de Oro del capitalismo socialmente reformado en los años 70. En este segundo caso, estaríamos ante una crisis, no sólo del grueso de las políticas contrarreformistas puestas por obra por las elites capitalistas en las últimas tres décadas, sino ante una crisis sistémica del capitalismo mismo, como forma histórica de civilización.

Sea ello como fuere, tanto en uno como en otro diagnóstico, lo esencial es, por lo pronto, concentrar el grueso del fuego político contra las políticas capitalistas ahora manifiestamente fracasadas (contra el neoliberalismo, contra la “libertad” de movimientos de los capitales y contra el predominio del sector financiero). Y concentrar ese fuego, a sabiendas de que las fuerzas propias son más bien débiles —no hará falta insistir en eso—; a sabiendas de que en los años 70 las fuerzas populares sufrieron, a escala mundial, una tremenda derrota de la que todavía no se han recobrado en la mayor parte del mundo, y desde luego en Europa y en EEUU. Reconocer eso quiere decir reconocer la necesidad de acumular fuerzas, de dar tiempo a la reorganización, lo que pasa por encadenar conjuntos de pequeñas victorias que vayan devolviendo la confianza en las propias fuerzas a las clases subalternas. Siempre lo son, pero en circunstancias de debilidad propia como las actuales todavía son más peligrosos los maximalismos de todo o nada. Aquí, en el Foro Social Gallego, se ha oído a gente que razonaba como si de la crisis sistémica del capitalismo se pudiera pasar inmediatamente al socialismo sin mayores mediaciones que las ofrecidas por el tremolar una bandera de cuatro consignas estremecidas. Y resulta perfectamente comprensible: durante años y años se la ha dicho a la gente no sólo que “no hay alternativa” (la TINA de la señora Thatcher), sino que lo existente es buenísmo; y de repente, lo existente se desploma a ojos vista, y todo el mundo comienza a hablar, como si de la cosa más natural del mundo se tratara, de grandes alternativas (hasta Sarkozy quiere “refundar éticamente el capitalismo”; sólo los muy despistados, como el presidente de las Cortes españolas, el ínclito “socialista” señor Bono, actúan como si no pasara nada, y se siguen despachando a gusto con declaraciones —por cierto que inconstitucionales— como que la libertad de mercado y de empresa “están por encima de los deseos de los gobiernos democráticos” ). Es natural que una izquierda que ha tenido que morderse la lengua por dos décadas salte ahora a la brava como el corcho de una botella de cava previamente agitada.

Uno de los signos inconfundibles de la derrota de un movimiento popular es la cantidad de posibilidades de pequeñas reformas institucionalmente posibles desperdiciadas. El “sistema”, o el “capitalismo”, no es una especie de máquina de una sola pieza, ni siquiera de varias piezas con engranajes perfectamente ajustados. Esa visión, bastante común entre gentes formadas en el marxismo estructuralista y en el posestructuralismo franceses, es hija de una ignorante concepción ahistórica y apolítica del capitalismo, que es, en cambio, una realidad histórica y política, y por lo mismo, una realidad que ha evolucionado de formas complejas y contradictorias: parte de esa evolución son las luchas sociales enconadas que ha provocado, luchas que han cristalizado secularmente en multitud de costumbres, de leyes, de instituciones y de prácticas tendencialmente anticapitalistas, o al menos, incongruas con la cultura económica y moral básica del capitalismo: desde magnas realidades institucionales, como los Estados sociales, los grandes sindicatos obreros y aun la propia institución del sufragio universal democrático —una conquista del movimiento obrero del siglo XX—, hasta los pequeños “lazos y lacitos” criticados por Berlusconi como trabas intolerables al funcionamiento cotidiano de lo que los neoliberales llaman mercados “libres” (en realidad, mercados cautivos de competición oligopólica en los que los grandes pueden extraer a su buen placer, “libremente” y sin trabas públicas, las rentas monopólicas más escandalosas). La derrota del movimiento popular a finales de los 70 propició el progresivo desuso o abandono de muchas de esas potencialidades existentes (por señalado ejemplo: la afiliación sindical), y luego, y en parte por consecuencia, el ataque directo de las elites a las realidades institucionales y legales potencialmente anticapitalistas, entre ellas el derecho de afiliación sindical o el derecho de los gobiernos democráticos a controlar los movimientos de capitales. A mí me parece que, dada la situación de partida, con fuerzas notoriamente débiles y desorganizadas, se trata también de comenzar recuperando el terreno perdido. Por ejemplo, un mero ejemplo, pero de un país con mucha menos tradición que la Europa occidental en materia de instituciones decantadas históricamente como resultado de grandes luchas populares del pasado: en los EEUU, muchos propietarios de viviendas que han caído en la morosidad y están a punto de perder sus casas, han descubierto ahora que pueden pelear legalmente contra sus bancos acreedores amparándose en leyes centenarias que obligan a condonar deudas injustamente contraídas. Las reformas, por pequeñas que sean, si tienen un sentido democrático y anticapitalista —la institución de un ingreso universal e incondicional de ciudadanía, indudablemente, tiene ese sentido, porque substrae un área de la vida social al imperativo de trabajar asalariadamente—, no sólo no son lo contrario de un cambio social y político radical, sino que –como advirtió certeramente Rosa Luxemburgo hace más de 100 años— lo complementan y aun lo orientan: permiten acumular progresivamente fuerzas, dar confianza a quienes luchan por esos cambios, y ampliar progresivamente la base social de quienes no están dispuestos a tolerar que un 10% de la población viva tan inconsciente como opíparamente a costa del resto de la humanidad en un planeta esquilmado y cada vez más parecido a un estercolero químico, bacteriológico y radioactivo.