sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Cuba precisa de um socialismo participativo e democrático


No 16 de agosto de 2008 Pedro Campos e outras persoas apresentavam um interessante documento para o seu debate no VI congresso do Partido Comunista de Cuba. Titula-se "Cuba necesita un socialismo participativo y democrático. Propuestas programáticas", e pode-se ler inteiro aqui. Começa assi...

"Cuba vive una continuada crisis económica, política y social a consecuencia del estancamiento en la socialización, generado por el pleno control burocrático estatal sobre la sociedad, los medios de producción y el plustrabajo y del permanente y criminal asedio imperialista. No obstante, se han realizado grandiosas transformaciones culturales, científicas y técnicas que han creado las condiciones para desarrollar nuevas relaciones socialistas de producción. La disminución de la población, su envejecimiento prematuro, la baja tasa de natalidad, la salida masiva del país de jóvenes por cualquier vía y la insatisfacción generalizada son consecuencias palpables de esa crisis. Mayoritariamente, los cubanos están frustrados, enajenados y desesperanzados y las nuevas generaciones -desmotivadas- no sienten el mismo compromiso que las anteriores con este "socialismo pobre y sin perspectivas" muy alejado de las expectativas, todo lo cual está conformando una rara especie de "situación revolucionaria" que podría desatarse imprevistamente y cuya evolución pudiera capitalizar el enemigo.

Preservar la Revolución demanda progresar de la estatización a la socialización. De lo contrario, se ahondará la creciente contradicción entre los esquemas estatales de propiedad, trabajo asalariado mal pagado y centralización de las decisiones y la distribución del plustrabajo (aspectos de las relaciones de producción) y el nivel científico, cultural y técnico alcanzado por los trabajadores cubanos y los medios de trabajo (elementos fundamentales de las fuerzas productivas); aumentará la lucha por controlar el plustrabajo entre el pueblo trabajador y el estado burocrático todo poseedor y decidor, que se lo apropia para usarlo a su buen entender y limita su control real por los auténticos dueños; y se profundizarán las dificultades económicas, el desinterés y el rechazo a ese "no-socialismo", con peligro de una plena restauración capitalista que para Cuba sería la anexión, la absorción de su cultura y un desastre incalculable para la nación y para el movimiento revolucionario internacional."



segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Nobel para Elinor Ostrom e a propriedade comum




O pseudo-prémio Nobel de economia (pois a rigor não é um Nobel "de verdade") deste ano foi para a cientista política norteamericana Elinor Ostrom. O juri valorou que Ostrom "desafiou a crença estendida de que a propriedade comum é mal gestionada, e deveria ou bem ser regulada por autoridades centrais, ou bem privatizada. Baseando-se em numerosos estudos de recursos gestionados polos usuários (peixes, pastos, bosques, lagos, aquíferos), Ostrom conclui que os resultados são, frequentemente, melhor do que prediziam as teorias estándar. Observa que os usuários dos recursos a miúdo desenvolvem mecanismos sofisticados de toma de decisões e cumprimento das regras para manejar conflitos de interesse". Pode-se ler um comentário ao respeito aqui.
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E ao fio disto, uma notícia relacionada: *s trabalhador*s do asteleiro viguês MCies venhem de tomar a valente decisão de comprá-lo para evitar o feche. Adiante, e moita sorte!
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Construirmos uma nova esquerda na Galiza

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Cómpre ler o artigo que vem de publicar Xoán Hermida no seu blogue Galizia Ecosocialista. Intitulado "Sobe a direita, aparecem os anticapitalistas", é uma atinada reflexão sobre as tendências atuais na esquerda europea - nomeadamente, de como parece que se vão abrindo espaço, também eleitoral, novas alternativas políticas ao sistema capitalista. Asemade, e diretamente relacionado com isto, o Encontro Irmandinho convoca no nosso país a chamada Rolda de Rebeldia: um "rebelde andar na procura de novos mecanismos, tanto organizativos coma de ação política e social, para caminharmos cara um câmbio radical deste modelo de sociedade". Uma atípica iniciativa à que tod*s estamos convocad*s, e à que lhe desejamos todo o êxito possível. Uma outra esquerda semelha, mais que nunca, possível. E nas circunstâncias atuais, fracassarmos neste intento é um luxo que não nos deveriamos permitir.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O soviete de Limerick

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Soubem da história do Soviete de Limerick por Alberto, quem lera sobre ela aqui. Em 1919, durante a guerra de independência irlandesa, o exército británico declarou Limerick zona militar especial como castigo por certas açoes do IRA. Em resposta organizou-se uma folga geral, e o comité que a dirigia constituiu-se em soviete, seguindo a moda dos criados na Rússia dous anos antes. Antes de ser dissolvido, este conselho de trabalhadores administrou a cidade durante duas semanas. Pode-se ler o relato dos acontecementos no livro de Liam Cahill, acessível de balde aqui.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Miguel Brieva: Flipper González

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Naxalitas

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A guerrilha naxalita leva mais de 40 anos luitando por uma Índia comunista, seguindo a tática maoista de controlar o campo para tomar as cidades. Nos últimos anos a insurreição cobrou força, e a dia de hoje controlam uma parte importante do subcontinente, incluindo um "corredor vermelho" que vai do Nepal ao sudoeste. A edição brasileira de Le Monde Diplomatique explica-o num artigo, e os Asian Dub Foundation ponhem a banda sonora.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Solidariedade Galega

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Fragmento do "Catecismo Solidario" de 1907 (à direita: Ugio Carré Aldao, um dos "solidários"),

P. ¿Que é eso da Solidariedade?

R. Pois é a xuntanza de tódolos homes honrados e traballadores que fan irmandade para iren contra dos que nos desgobernan e nos explotan os nosos direitos. Non deixando que asoballen a ninguén, por cativo que sea, pois poñéndonos todos na defensa dun solo non se estreverán a seguiren facendo o que fixeron. Agora como temos irmandade, o mal que se lle faga a un solo viciño, será mal que se lle faga a todos e se antes deixábamos por medo ou por ignorantes que perseguiran a un solo, agora non, pois todos saliremos uns na defensa dos outros. E así non só temos de selos mais fortes pol-a razón, se non pol-a razón dos fortes.

P. Non me parece mal, mais ¿se eso facedes uns nono faredes todos?

R. Faceremos, senor, faceremos. Para eso é solidariedade. Ben sabemos que unha sola parroquia, nada valería e farían dentro de pouco ou de moito tempo, o que lles dera a gana. Así ó xuntarnos por parroquias, xuntámonos tamén por axuntamentos e logo nos federamos ou xuntamos por partidos xudiciales e así xuntarémonos os de cada provincia e tódolos de Galicia, e de ese xeito axudarémonos todos e o mal que lle fagan a un solo será como feito a todos, e coma todos daquela pediremos xusticia... xa vostede me comprende.

P. ¿E que ouxeto levades?

R. Que tódolos que nos representen no Axuntamento, na Deputación, nas Cortes, sean elexidos por nós e que fagan e voten o que nós lles digamos, que conveña ó país, e non fagan e voten o que lles manda o cacique ou o goberno, que sempre van en contra de nosoutros.

P. ¿Eso non poderá sere, pois os políticos cada un quererávos mandar?

R. Non; pois as opinións son o de menos e nombraremos representantes de tódolos partidos e non serán solo liberales, conservadores, republicanos ou carlistas, non terá ninguén mando máis grande e así mirarán todos polo que conveña a todos e non nos asoballarán mais. Ven a sere coma se os veciños dunah parroquia quixeran compoñer un camiño. Se fora un solo non o podería facer, ou solo o facería diante da súa casa, pero sendo todos, poderíano facer mais pronto, mais ben a diante, non solo da casa deles, senón en toda a parroquia. O interés de todos sería o que fixera boa a obra. Ahí ten espricado o fondamento da Solidariedade, que vén ser un para todos e todos para un.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Free Ronald Biggs!

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Ronald Biggs desertou do exército em 1949, roubou quase 3 milhões de libras dum trem postal em 1963, e passou 30 anos de boa vida exilado no Brasil. No 2001 retornou a Inglaterra, onde está no cárcere desde então. Este herói dos tempos modernos tem direito, segundo a lei británica, à liberdade condicional (a qual, de facto, foi solicitada polo Parole Board of England and Scotland), mas o Jack Straw não está disposto a concedé-la. Antonte, Ronnie Biggs foi ingressado num hospital com pneumonia. Desde aqui pedimos a sua liberdade, e aproveitamos para lembrar a divertidíssima canção que cantara com os Sex Pistols em 1978: "No one is innocent". Toda uma declaração de intenções, na que foi seguramente a mais original colaboração do punk!
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terça-feira, 28 de julho de 2009

Mil dias: a experiência chilena da Unidade Popular (II)

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Por Vítor Manuel Martins


(ilustração dum comic criado por CSmedia)

Estrutura organizativa
No momento inicial a Unidade Popular (UP) estivo conformada polo Partido Socialista (PS), Partido Comunista (PC), Partido Radical (PR), Movimento de Acçom Unitária (MAPU), Partido Social-Democrata (PSD) e Acçom Popular Independente (API). Posteriormente incorporou-se em Julho de 1971 o Partido de Esquerda Radical (PIR), saído de umha racha do PR, em Agosto desse ano o Movimento Esquerda Cristá (MIC), surgido de umha racha do MAPU o Movimento Esquerda Cristá (MIC) e, em Março de 1973, o MAPU-Operário e Camponês (MAPU-OC).

No plano sócio-político, a UP dá continuaçom à FRAP (1956-69), vendo-se afortalada com a incorporaçom de importantes expressões do pensamento leigo e cristão progressista.

A participaçom do PR, representante da pequena burguesia, umha vez purgado o seu sector reaccionário, supom a culminaçom dum longo processo de maturaçom ideológica desde as suas posições racionalistas e positivistas para se aderir a um projeto socialista. O mesmo acontece com o MAPU, representante dos sectores cristãos identificados cum processo socialista. Este movimento criara-se em 1968 a partir de membos da Democracia Cristã (PDC) que fracassaram na sua tentativa de arrastar este movimento a um compromisso de transformaçom revolucionária.

O PSD, ao igual que o MAPU, surgira dumha racha anterior produzida no seio do PDC. Apesar do seu nome, nom guarda qualquer relaçom com a social-democracia internacional nem com os conceitos sociais-democratas tradicionais. Define-se como um movimento nacional comprometido com o processo de libertaçom dos povos da América Latina e solidário com a Revoluçom cubana. A API é a mais pequena das forças integrantes da UP cujo líder, Rafael Tarud, procedente do movimento agrário, desempenhara vários ministérios no governo do Gral. Ibáñez (1952-58).

Para os simpatizantes independentes formarom-se os Comités da Unidade Popular (CUP) a nível vizinhal, de bairro, de serviço público e de fábrica. Constituirom-se com o objectivo imediato de promover a participaçom popular na campanha eleitoral e, de acordo ao programa, a sua funçom seria a de “preparar-se para exercer o poder popular ao tempo que constituem um método permanente e dinámico de desenvolvimento do programa, umha escola activa para as massas e umha forma concreta de aprofundar o conteúdo político da UP em todos os níveis”. Igualmente, "nom só serám organismos eleitorais, serám intérpretes e combatentes das reivindicações imediatas das massas e, sobretodo, prepararám-se para exercer o poder popular".

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Os organismos da UP eram o Comité Executivo, o Conselho Directivo Nacional e a Comissom Política, organismo de representaçom dos Partidos.

Aliás, durante todo o período contou com o apoio da federaçom sindical Central Única de Traballadores (CUT) a qual, apesar de ser o órgao máis representativo da classe trabalhadora chilena, carecia de personalidade jurídica. Esta situaçom é devida a que a legislaçom laboral chilena proibe explicitamente a confederaçom de sindicatos, apenas reconhecendo a existência de sindicatos individuais a nível de fábrica ou de empresa, discriminaçom que, de chegar ao governo, a esquerda pretende modificar.

O programa
(Nota: o programa da UP já fora reproduzido integramente neste blogue, estando disponível em duas partes, I e II)

Em Dezembro de 1969 constitui-se a Mesa da Esquerda, destinada a definir o programa e designar um candidato único. O dia 17 desse mês os partidos da UP aprovarom o programa básico como leitmotiv da aliança política e como bandeira de agitaçom e de combate na eleiçom presidencial de Setembro de 1970.

Partindo dumha crítica da gestom do governo democrata-cristao de Eduardo Frei (desde 1964), o Programa de Governo da UP plasmou-se no “Programa Básico da Unidade Popular” e “As 40 primeiras medidas do Governo Popular”. Estes elementos conformariam a base teórico-política da chamada Via Chilena ao Socialismo (“a revoluçom com vinho tinto e empadas”, como Allende se referiu a ela num discurso). Esta postulava a possibilidade de um país capitalista subdesenvolvido efectuar um tránsito nom violento ao socialismo. Tudo isto pola via do processo democrático e por meio do uso da legalidade do Estado sem a necessidade de contar cum partido único que o efectuasse, senom com a coaligaçom de todas as forças democráticas que estivessem a favor das mudanças sociais e democráticas. Em certa forma tratava-se de criar um novo bloco hegemónico dentro da linha gramsciana, ideia que posteriormente influiu no eurocomunismo. A Vía Chilena ao Socialismo ia no sentido contrário da via armada (foquismo) que entom se propugnava na América Latina. Por isso, o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) ficou excluído da UP.

Em síntese, o programa parte do reconhecimento inobjectivável de que o Chile vive umha profunda crise estrutural, manifestando-se na estagnaçom económica-social e na miséria generalizada. Porém, os problemas resultantes podem-se resolver cum cámbio de regime. Na realidade fracassara o capitalismo, dependente do imperialismo, dominado por umha burguesia ligada ao capital estrangeiro, cujos privilégios constituem o atranco fundamental para o avanço e o progresso do país. Por isso, a única alternativa verdadeiramente popular era a de terminar com o domínio do imperialismo, dos monopólios, da oligarquia fazendeira e iniciar a construçom dum novo regime, o socialismo. Esta seria a tarefa do governo do povo. A acçom unitária e combativa da imensa maioria de chilenos pode romper as actuais estruturas caducas e avançar na tarefa da sua libertaçom.

O plano da UP para chegar ao “Socialismo à Chilena” consistia nos seguintes pontos:
- Estatizaçom das áreas “chave” da economia e criaçom de três áreas de propriedade (social, mista e privada)
- Nacionalizaçom da minaria e da banca
- Aceleraçom da reforma agrária que erradique o latifundismo
- Congelar os preços das mercadorias
- Aumentar os salários de todos os trabalhadores, recorrendo à emissom de moeda.
- Introduzir fórmulas de participaçom dos trabalhadores nas empresas (cogestom)
- Modificar a Constituiçom da República e criaçom de umha cámara única.

Umha vez aprovado o programa, os partidos da UP subscreverom publicamente um pacto comprometendo-se perante o povo a levar adiante os objectivos acordados, os quais "estám decididamente vinculados a um novo conceito da conduçom do país, que o Governo Popular se propom pôr na prática".

Finalmente, um terceiro documento denominado "Acordo sobre conduçom e estilo da campanha" previa o confronto social como a inevitável culminaçom do processo revolucionário. As forças populares, destaca, nom patrocinarám um confronto artificial, mas "a agudizaçom das contradições do sistema provocarám um confronto a cada vez maior, que elevará as luitas das massas a superiores níveis, propondo-se final e necessariamente o problema definitivo da conquista do poder". Neste documento reitera-se o papel assignado aos Comités da UP como expressões "germinais do poder popular", que, após a vitória, estarám chamados a se converterem em "factores dinamizadores e de direcçom local dos processos de mudanças revolucionários".

A UP fazia-se e soldava-se para tal propósito. O triunfo popular abriria passagem à instauraçom dum governo popular, cuja dupla tarefa seria:
Preservar, fazer mais efectivos e profundos os direitos democráticos e as conquistas dos trabalhadores;
Transformar as actuais instituições para instaurar um novo Estado, onde os trabalhadores, e o povo em geral, tenham o real exercício do poder.

A candidatura
Os partidos da UP quixerom inovar e conseguirom-no. a unidade selava-se em torno ao programa e nom à pessoa do candidato. Umha vez aprovado o programa, procedeu-se a eleger o candidato. A tal efeito constitui-se umha Mesa Redonda, à qual cada integrante concorreu com o seu candidato.

Se bem Salvador Allende era o lógico candidato socialista (três campañas presidenciais: 1952, 1958 e 1964), o PS nom o apoiava completamente e tivo como competidor ao Secretário Geral do seu partido, Aniceto Rodríguez. É um facto que Allende nunca contou com a maioria no Comité Central do seu partido, polo que a sua nominaçom só saiu adiante após várias votações.

Cada partido concorreu com o seu candidato:
PS: Salvador Allende
PC: Pablo Neruda
PR: Alberto Baltra.
MAPU: Jacques Chonchol
API-PSD: Rafael Tarud

O PC era partidário de propor a candidatura do dirigente do MAPU, o senador Rafael Agustín Gumucio, que nove meses antes militava no PDC. Porém, o PR e API-PSD facilitarom a eleiçom de Allende. Desta forma em 22 de Janeiro de 1970, numha grande concentraçom em Santiago, Salvador Allende era proclamado como candidato da Unidade Popular.

Como candidato da esquerda assinou-se um compromisso segundo o qual se ganhava, o governo de Chile seria partilhado entre Allende e os partidos da UP, representada polo seu Comité Executivo e no que cada partido contava com um representante. Isto implicaria umha renúncia às suas faculdades como presidente da República já que nom poderia actuar sem o apoio desse Comité que funcionava por unanimidade.

A campanha
Iniciada a campanha eleitoral, o Programa Básico da UP, impresso num milhom de exemplares, foi distribuído por todo o país. Assim o voto emitido na eleiçom presidencial seria um voto consciente e ilustrado. Todos, partidários e adversários, saberiam a que ater-se se a esquerda alcançava o governo.

A campanha eleitoral foi dura mas sem violência. Os primeiros inquéritos davam por ganhador, com maioria absoluta, a Jorge Alessandri Rodríguez, o candidato da direita reaccionária representada polo Partido Nacional (PN). Mas a sua campanha foi-se deteriorando, principalmente a causa da sua avançada idade. Acusado de senil e de sofrer Parkinson, o seu próprio comando eleitoral decidiu nom fazer grandes concentrações, salvo no encerramento da campaña, para nom mostrar a idade do seu candidato. Seguros da vitoria de Alessandri, os seus partidarios alporiçarom-se quando numha entrevista a El Mercurio o Gral. René Scheneider, Comandante em Chefe do Exército, perguntado pola atitude do exército se nengum dos candidatos obtinha maioria absoluta respondeu que deveria decidir o Congresso Pleno, segundo o estabelecido na Constituiçom e que o exército acataria os postulados da carta fundamental (esta seria a base da doutrina Scheneider). A ira dos alessandristas produzia-se porque a tradiçom era eleger presidente, sem mais, ao candidato que obtivesse a primeira maioria relativa.

O governo dos EE.UU. involucrou-se na campanha empregando até 1,125 milhões de dólares numha “operaçom de ruina” para impedir o triunfo da esquerda. Se bem nom derom apoio decidido a nengúm candidato anti-Allende, principalemente porque os seus inquéritos apontavam a Alessandri como ganhador, as acções forom dirigidas mais bem a previr a eleiçom de Allende que a assegurar a vitória do outro candidato.

Da vitória popular ao governo
Finalmente em 4 de Setembro produze-se o triunfo da UP. Numha eleiçom a três bandas, Salvador Allende logra o triunfo por umha estreita margem (1.075.616 votos e 36,3%) fronte à reacçom (1.036.278 votos e 34,9%). Num terceiro lugar situava-se o candidato democrata-cristao, Radomiro Tomic, com 824.849 votos e 27,8%. Dado que o candidato da esquerda nom obtivera a maioria absoluta, segundo a Constituiçom Política, o Congresso Pleno (sessom conjunta da Cámara de Deputados e Senado) devia eleger entre os dous candidatos mais votados. Portanto, ficava em maos do PDC a eleiçom de presidente.

Esta circunstáncia seria utilizada pola direita para impor condições a Salvador Allende antes de lhe permitir formar governo: ou se respeitava a primeira maioría, como tradicionalmente acontecera no Chile, ou se tratava de impedir, por qualquer meio, que o candidato marxista assumisse o governo.

A esta segunda linha entregou-se a administraçom norte-americana. Justificado pola lógica da guerra fria e da partilha do mundo, o governo dos EE.UU. nom podia consentir que se a experiência cubana prendera como exemplo por toda a América Latina, se voltasse a repetir desta vez, mostrando que pola via eleitoral também se podia redistribuir o poder e a riqueza. Por isto, umha vez conhecida a primeira maioría de Allende, Richard Nixon tomou umha determinaçom: evitar que Allende assumisse a presidência. A CIA organizou dous planos com a colaboraçom da direita e o sector golpista do exército para deter a eleiçom de Allende polo Congreso Pleno em 24 de Outubro, os que seriam conhecidos como o Track One e o Track Two.

O Track One consistia em que o Congresso, com os votos do PN e PDC, elegesse ao candidato da segunda maioría relativa, Jorge Alessandri; este renunciaria e convocariam-se novas eleições nas que a toda a direita apoiaria a Eduardo Frei. Para lograr este objectivo nom se escatimarom meios: corrida bancária, saída de dólares, campanha de terror, abandono de empresas,... Porém, o Track One fracassou pola hegemonia progressista entom existente no seio PDC, encabeçada por Tomic e partidária de seguir a tradiçom de respeitar a primeira maioria.

Allende puxo-se de acordo com o PDC e aceitou o chamado “Pacto de Garantías Constitucionais”. Tratava-se de umha série de emendas constitucionais que segundo os democrata-cristãos assegurariam a permanência dum regime democratico, consistentes em: garantia de existência dos partidos políticos, resguardo da liberdade de imprensa, do direito de reuniom, liberdade de ensino, inviolabilidade da correspondência, liberdade de trabalho, liberdade de movimento, assegurar a participaçom social em grupos da comunidade e profissionalizaçom das forças armadas (piar fundamental do estado burguês). Este foi o compromisso exigido polo PDC para apoiar a su ratificaçom parlamentar. Nessa altura soubo-se da existência de um pacto secreto entre Tomic e Allende polo qual cada um reconhecia a vitória do outro se a diferença fosse maior a 5.000 votos, e de Alessandri só se este os superava aos dous por mais de 100.000 votos. Entom ficou aberto o Track Two para o governo estado-unidense.

Tratava-se de criar um clima de inestabilidade política para que as forças armadas intervissem e anulassem a eleiçom de Allende polo Congresso Pleno. Encargou-se a sua execuçom ao general golpista Roberto Viaux, cujo plano era sequestrar ao Gral. Schneider, acochá-lo e provocar umha situaçom de inestabilidade. Dous dias antes da sessom do Congresso Pleno foi executado o plano, mas, ao tentar defender-se, o Comandante en Chefe foi abatido polos seus assaltantes, que conseguirom fugir, frustrando o golpe.

Finalmente, em 24 de Outubro Salvador Allende é eleito no Congreso Pleno com o apoio do PDC por 153 votos, 35 a favor de Alessandri e 7 em branco. De acordo com a Constituiçom política, o cidadão Salvador Allende Gossens era proclamado Presidente da República do Chile por um período de seis anos (entre o 3 de Novembro de 1970 e o 3 de Novembro de 1976). A assunçom da Presidência no Congresso Nacional foi realizada em 3 de Novembro.


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Slavoj Zizek e a ideologia dos retretes europeus

terça-feira, 21 de julho de 2009

Manifesto pola hegemonia social do galego

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Para assinar: ir aqui
Blogue do manifesto aqui
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A Galiza vive uma crise da língua própria sem precedentes. À evidente perda do galego na mocidade une-se agora a política das novas elites do Partido Popular governante, decididas a acabar com os tímidos avanços na promoção da língua que o governo bipartido anterior começava a introduzir. Especialmente preocupantes são a eliminação da obrigatoriedade de demonstrar conhecimento de galego escrito para o acesso à função pública (isto é, as trabalhadoras e trabalhadores ao serviço de todos e de todas), e a notável discriminação que se avizinha na presença do galego no sistema educativo público (isto é, coletivo).
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O Partido Popular, sob a demagogia da "liberdade linguística", parece decidido a instituir o golpe de graça legislativo e político que impossibilite a recuperação da transmissão, dos usos e do prestígio da língua da Galiza. Que, por políticas dirigidas, num breve período histórico praticamente um povo inteiro deixe de transmitir e de utilizar o seu idioma como forma de conduta diária constitui um linguicídio em toda a ordem, que vulnera frontalmente os direitos humanos e cívicos coletivos.
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Mas a situação não é apenas fruto dum plano improvisado do PP à luz duma contingente vitória eleitoral: é também resultado duma prática de décadas em que a classe política dirigente da Galiza se demitiu da sua responsabilidade histórica de contribuir para a necessária hegemonia social do galego como língua de relações sociais, de referência identitária, e de avanço cultural e material. Como em qualquer sociedade, só esta hegemonia do próprio poderá produzir a integração social num espaço comunicacional comum no nível local, nacional e internacional, imprescindível para imaginarmos e portanto construirmos uma ordem de verdadeira igualdade num âmbito de decisão verdadeiramente soberano.
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Nós, as pessoas e coletivos abaixo assinantes,
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DENUNCIAMOS o plano ultraliberal do Partido Popular e dos poderes económicos e mediáticos dominantes para manterem a língua (isto é, a conduta visível de milhões de pessoas) à mercê do darwinismo social, da lei do mais forte económica e mediáticamente, a língua espanhola;
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RECLAMAMOS dos poderes públicos, sujeitos sempre a renderem contas perante a cidadania, o exercício das suas obrigações para a promoção social e institucional do galego e para a eliminação de qualquer discriminação e obstáculo à sua expansão, consolidação e naturalização como língua nacional própria a todos os efeitos;
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e CHAMAMOS, na mais firme tradição do galeguismo, a um compromisso comum, horizontal e persistente de toda a cidadania galega pola construção da hegemonia social da nossa língua, a meio da sua transmissão efetiva aos mais novos na vida diária e no ensino, nos seus usos orais e escritos, como o nosso principal instrumento integrador e como o nosso vozeiro internacional no âmbito linguístico e cultural galego-luso-brasileiro de que nunca deixou de fazer parte.
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Galiza, julho de 2009
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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Mil dias: a experiência chilena da Unidade Popular (I)



Por Vítor Manuel Martins



Os dirigentes da Unidade Popular. De esquerda a direita: Carlos Altamirano (com óculos) do Partido Socialista, Luis Corvalán (de chapeu) do Partido Comunista, Rodrigo Ambrosio (MAPU), Salvador Allende e Bosco Parra (Esquerda Cristá). Detrás de Allende está Carlos Morales (PR).

A tradiçom de luta da classe operária chilena vem de longe. Paralelamente à constituiçom dumha burguesia forte e expansionista, consolidou-se um movimento operário nas suas posições de classe. No Chile surgiu a primeira mútua operária da América Latina (1847); os primeiros caminhos-de-ferro (1851); a legislaçom civil mais adiantada do seu tempo (1855); a primeira lei de sufrágio universal (1884); a primeira legislaçom social efectivamente aplicada (lei do lazer dominical, 1907, simultaneamente à do Uruguai de Battle); umha das melhores de ensino leigo e obrigátorio (1909); a primeira República Socialista da América (1932, batizada assim por decreto-lei); o primeiro e único governo de Frente Popular do continente (1938-52),... Em Setembro de 1970 teria lugar um acontecimento sem precedentes: a eleiçom como presidente do Chile do socialista Salvador Allende, candidato da Unidade Popular, quem se propunha levar a cabo «umha revoluçom por vias legais».

A tradiçom da classe trabalhadora chilena só emergeu no século XX como umha força puxante. Com efeito, em 1909 funda-se a Federaçom Operária e dez anos depois, com um programa novo, este sindicato propom abolir o regime capitalista. A eleiçom na altura de 1921 de Emílio Recabarren e Luís Víctor Cruz, candidatos do Partido Operário Socialista (POS), marca um fito histórico ao significar a presença, pola primeira vez, de representantes operários num Parlamento dominado pola oligarquia. Um ano mais tarde o POS converte-se no Partido Comunista.

O entreguismo ao imperialismo e a repressom política durante a ditadura do General Ibáñez e dos seus sucessores (1927-32), deixaram umha vaga de descontentamento social canalizado em greves e outras movimentações políticas polas embrionárias organizações operárias e partidos políticos de esquerda. O labor político dumha série pequenos movimentos socialistas, unido ao descontentamento das massas perante as injustiças cometidas polos que detentavam o poder, conduzem ao poder a um movimento revolucionário encabeçado polo coronel Marmaduke Grove (chefe militar) e Eugénio Matte (dirigente civil). Em 4 de Junho de 1932 é derrotado o governo de direitas e instaura-se um governo socialista.

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Na forma de República Socialista, o novo governo embarca-se em seguida numha série de medidas concretas en benefício dos carenciados, contidas num programa conhecido como de “50 pontos” e sob a consigna de “Pam, teito e abrigo”. As medidas reformadoras propostas provocarom a ira da reacçom direitista. Ainda assim há no novo governo umha clara consequência anti-imperialista; o seu programa económico remarca que “a administraçom do crédito, o exercício do comércio externo e interno, o controlo dos salários e do mercado escaparom das nossas maos. Empresas estrangeiras têm no seu poder toda a indústria pesada de produçom de matérias primas e umha grande parte dos serviços públicos. As nossas classes privilegiadas viverom embriagadas com os luxos e a molicie que lhe fornecia o capitalismo estrangeiro a cámbio das nossas riquezas naturais e da miséria do povo. Por isto na burguesia do Chile, mais do que em nengum país que se chame livre, evidenciou-se umha maior falta de respeito por todo o que é nacional...”.

O programa dos revolucionários nom propunha a socializaçom dos meios de produçom nem a confiscaçom das grandes fortunas. Mais ainda, o governo nom se apoiou decisivamente nas massas para a sua execuçom e assim foi como, após 12 días, foi derrocado por um golpe de Estado apoiado pola burguesia nacional e o imperialismo. Apesar da sua curta duraçom, a Junta Revolucionária constituiu unha esperança para a classe operária e, aliás, juntou no seu seio a cinco pequenos movimentos socialistas de cuja unificaçom nascería em 1933 o Partido Socialista.

Em cada jeira do desenvolvimento da luta da classe trabalhadora chilena houve períodos de encontro e desencontro com as forças da pequena burguesia.

A Frente Popular
Seguindo as resoluções do VII Congresso (1935) do Komintern, o Partido Comunista entregou-se de cheio à ideia da constituiçom dumha Frente Popular. O fundamento desta linha está na luita contra o triunfo do fascismo e a defesa da democracia. A Frente Popular passou a constituir umha aliança de forças operárias e democrático-burguesas (representadas no Partido Radical) cum programa que, contemplando os interesses de classes antagónicas, tendia a eliminar os atritos nas suas posições opostas. O mais destacado nele era a defesa das liberdades democráticas e algumhas reformas económico-sociais, com visos na melhoria das condições de vida das massas operárias.

Porfim em 1936 organíza-se a Frente Popular (FP). Em 1938 realiza-se a Convençom de Esquerdas na que se designa como candidato para as eleições desse ano o mestre radical Pedro Aguirre Cerda. Para além do Partido Radical, partido hegemónico da coaligaçom, a FP estava integrada polo Partido Comunista, o Partido Socialista e o Partido Democrata junto a grupos ibañistas. A FP derrota à direita por 4000 votos após umha campanha de extraordinária combatividade.

O programa de governo frentepopulista era basicamente reformador, contemplando umha série de medidas que visavam dinamizar a agilizar a economia seriamente comprometida ao interesse foráneo. No plano social recolhia umha série de reivindicações, que apontavan o afortalamento democrático, o fim da repressom contra as organizações dos trabalhadores, o planeamento económico, o fomento industrial, a supressom dos monopólios, a reforma agraria, o ensino obrigatório e gratuíto, leis sociais, políticas de habitaçom popular e saúde, defesa da paz na América Latina.

Os efeitos da experiência de governo frentista seriam de grande trascendência para o país. A mais importante é a criaçom em 1939 da CORFO (Corporaçom de Fomento da Produçom), entidade estatal destinada a industrializar rapidamente o país através do planeamento económico e o crédito industrial. Sob o seu impulso criou-se um plano de electrificaçom e planos de produçom de aço, petróleo, açúcar de remolacha, indústria conserveira, têxtil, cimento, pnéus,... Duas forom as razões para fomentar a industrializaçom: a necessidade de aumentar o nível de vida e o ingresso per cápita e a vulnerabilidade da economia chilena às flutuações exteriores. Isto também favoreceu a poupança de divisas, evitando o esbanjamento em produçom que podia ser elaborada no país convertendo-se na experiência mais bem sucedida de planeamento econômico da América Latina.

O governo do radical González Vídela, o último da Frente Popular (1946-52), contou com a participaom ministerial dos comunistas, mas logo o PC foi ilegalizado mediante a Lei de Defensa Permanente da Democracia, conhecida como “Lei maldita”. Os seus dirigentes forom deportados, encarcerados e perseguidos, o que nom impediu que os comunistas continuassem umha activa vida política na clandestinidade.

A Frente do Povo
Fracassada a experiência da Frente Popular polo desencontro da esquerda com as forças da pequena burguesía, apesar da triste relembrança da ditadura do General Ibáñez, em 1951, um sector majoritário do PS que constituira o Partido Socialista Popular apoia a sua candidatura numha plataforma de carácter populista.

Entom o sector minoritário em que se dividira o Partido Socialista encabeçado por Salvador Allende, os comunistas e outras pequenas formações formam a Frente Nacional do Povo (FRENAP). En 1952 candidata a Salvador Allende cum programa que propom a necessidade de conquistar um governo que rompa com a dependência e com o imperialismo através da nacionalizaçom das riquezas básicas, entregue a terra ao camponesado por meio dunha profunda reforma agraria e acabe com o domínio da oligarquia financeira. A primeira candidatura de Allende à presidência apenas recebe o 5,45% de votos.

A política econômica do segundo governo de Ibáñez (1952-58), ao mais puro corte reaccionário, originou a saída do seu governo do Partido Socialista Popular propiciando assim o reencontro da esquerda. Assim é como nasce a Frente de Acçom Popular.

FRAP (Frente de Acçom Popular)
Surge em 28 de Fevereiro de 1956 como umha coaligaçom política e eleitoral de unidade das forças da esquerda, nomeadamente socialistas e comunistas. A FRAP seria o conjunto de forças que luitariam por um programa anti-imperialista, antioligárquico e antifeudal (Declaraçom da FRAP, 1956) num amplo movimento de massas pola conquista dos direitos dos trabalhadores e a emancipaçom econômica e política nacional.

A FRAP opuxo-se ao governo de Ibáñez e nas eleições legislativas de 1957 obtivo um importante avanço eleitoral. Produzida a unidade do socialismo, em 1957 Salvador Allende passa a presidir a FRAP sendo o seu candidatado nas eleições presidenciais.

As propostas programáticas da FRAP enquadram-se numha alternativa anti-oligárquica e anti-imperialista, que toma as grandes reivindicações nacionais da Frente do Povo de 1952. No concreto, propunha-se a acentuaçom e consolidaçom da democracia política, a recuperaçom das actividades industriais, a eliminaçom da carestia, o restabelecimento do poder aquisitivo dos trabalhadores, um plano de nacionalizações do cobre e resto riquezas básicas, de estatizaçom da banca, a reforma agraria,...

Nas eleições presidenciais de 1958 Salvador Allende ocupa o segundo lugar, (28,65% e a 33.000 votos do ganhador, Jorge Alessandri). Nas eleições de 1964 triunfa o candidato da Democracia Cristá, ocupando novamente o segundo lugar Salvador Allende com o 39,19% de votos.

No seio da FRAP houve tensões entre socialistas e comunistas enquanto à definiçom e estratégia política que se acentuaria a cada derrota eleitoral. Mentres que os socialistas defendiam que se tratava dumha Frente de Trabalhadores (coaligaçom exclusiva dos partidos da classe operária em defesa e luita dos seus interesses), para os comunistas era umha Frente de Libertaçom Nacional (via eleitoral de aceso ao poder em coaligaçom com outros partidos chamados burgueses como os radicais e democrata-cristaos reunidos num programa de emancipaçom nacional e de democratizaçom política e social). Se bem houve críticas ao PC pola sua pouca claridade política, o PS apoiou a formaçom da FRAP.

Os partidos integrantes eram:
-Partido Comunista
-Partido Socialista Popular (até a súa unificaçom no PS em 1957)
-Partido Socialista
-Partido Democrático do Povo
-Partido Democrático de Chile
-Vanguarda Nacional do Povo
-Partido da Social Democracia.

En 1960 o Partido Democrático do Povo e o Partido Democrático de Chile fusionam-se para formar o PADENA (Partido Democratico Nacional) abandonando a frente en 1965.
Vanguarda Nacional do Povo surge en 1958 como resultado da fusom de vários grupos menores como o Partido do Trabalho.

Cara a Unidade Popular
Perante as eleições presidenciais de 1970, o fracasso das receitas reformadoras e desenvolvimentistas impulsadas polo governo estado-unidense através da Aliança para o Progreso e que foram assumidas polo governo democrata-cristao de Eduardo Frei (desde 1964), a extrema concentraçom do capital e a acentuaçom da dependência, terminan pondo em evidência o carácter da sociedade chilena e da revoluçom que a devia transformar. Com. Eeito, as fracas tentativas de mudança operadas pola Democracía Cristá naufragarom na estagnaçom económica, a carestía e a repressom violenta contra o pobo (massacres de San Miguel, Puerto Montt,...).

Em Novembro de 1967 o PS realiza o seu XXII Congreso Geral no que se define como umha organizaçom marxista-leninista (pensamento Trotsky) e se propom como tarefa organizar e conduzir aos trabalhadores para derrubar o regime vigente, conquistar o poder e construir umha sociedade socialista sem descartar qualquer método de luita. Porém, a sua praxi, fiel às condutas históricas do movimento operário chileno, seguiu a ser a luita reivindicativa e de confronto eleitoral, embora com. Umha linguagem radicalizada como catalisador do descontentamento social.

Entretanto, o PC, assentado firmemente no que chamava “A Nossa Via”, apostava polo respeito polo marco institucional e validaçom da luita dentro do Estado burguês aceitando com realismo a sua condiçom de partido intra-sistema. Destarte, ao encarar as eleições de 1969, fará-o sob o lema “Unidade Popular para um Governo Popular”, propondo a necessidade de conquistar em 1970 um governo de carácter pluralista, amplo, que asegurasse ao país estabilidade democrática e umn acelerado progresso social, económico e político. Para o PC, quanto mais amplo for esse governo, mais revolucionario seria.

A estratégia política dos comunistas é respaldada nas urnas ao obter nas eleições paralamentares de Março de 1969 o 15,9% de votos frente o 12,2% dos socialistas. Entom, num Pleno Nacional celebrado polo PS en Junho de 1969 o partido aprova a “política de Frente Revolucionaria” e de questionamento da “legalidade burguesa”. Nesse Pleno, Allende, de maneira decidida defendeu unha política mais achegada ao PC, argumentando a favor dumha ampla aliança popular, de acordo com. As condições políticas que se daban nesse momento nas distintas forças políticas do país (nomeadamente a mudança interna experimentada no PR e pola constituçomn, un mes antes, do MAPU como racha da democracia-cristá) e que ia na linha partidária da unidade com as organizações operárias. Porém, a maioria do Pleno apostou por aprofundar a linha aprovada no XXII Congresso, rejeitando centrar a sua estratégia política nas eleições presidenciais de 1970. No entanto, apesar da verborreia revolucionária, pouco a pouco o Comité Central do PS, a instáncias de Salvador Allende, Clodomiro Almeyda e Adonis Sepúlveda, acabou aceitando as teses do PC em orde de agrupar "as mais amplas forças anti-imperialistas e antioligárquicas", numha aliança de partidos marxistas e nom marxistas. A nova posiçom implicava a liquidaçom política da FRAP.

Em Setembro de 1969 constitui-se a Mesa Redonda de conversaçom da que acabaria saindo a ideia da Unidade Popular em cujo seio se deu um desencontro entre os representantes socialistas e comunistas. Enquanto o PC via a questom do socialismo no Chile como umha “perspectiva indefinida no tempo”, Allende e os socialistas acreditavam na possibilidade da transformaçom socialista da sociedade para já. Finalmente a Unidade Popular (UP) ficou constituída como coaligaçom eleitoral em 9 de Outubro de 1969 com a participaçom de até quatro organizações burguesas: Partido Radical (PR), Acçom Popular Independente (API), Partido Social Democrata (PSD) e Movimento de Acçom Popular Unitária (MAPU).

Porém, esta nova coaligaçom era muito diferente das anteriores edições de frentes da esquerda: na Unidade Popular, a diferença do passado, serám os partidos operários (PS e PC) as forças dominantes e majoritárias.

sábado, 27 de junho de 2009

Pescanova não é um modelo, é um desastre

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(Colo a seguir, para abrir boca, os primeiros parágrafos dum interessante artigo de Manoel Santos. Moi recomendável ler o texto completo em Vieiros).

A empresa transnacional Pescanova, de orixe galega, está acusada en medio mundo de sobreexplotar bancos pesqueiros, de contaminar as costas, de esnaquizar a biodiversidade mariña e de contratar en condicións laborais abusivas, até negando dereitos sindicais.


Dende Galiza para o mundo. A chantaxe

Pescanova acaba de inaugurar o día 21 de xuño en Mira (Portugal) unha planta de cría de rodaballos, unha fábrica de peixe para ser máis exactos, que pasa por ser a maior do mundo, como cada unha que crea o poderoso grupo. A devandita planta comezouse a construír cando, en 2007, o goberno galego entón compartido polo PSOE e o BNG, decidiu non permitir á empresa crear unha nova planta no cabo Touriñán, un espazo protexido da Rede Natura 2000. O plan sectorial de acuicultura que deixara aprobado o PP –en plena campaña electoral e logo retomado polo bipartito– creaba decenas de plantas de fabricación de rodaballo en espazos desta rede, a maioría na costa oceánica en estado completamente virxe. A reacción do Grupo pesqueiro que dende Vigo preside Manuel Fernández de Sousa foi inmediata: “Marchamos a Portugal”, que na Galiza sempre representa, neste contexto, o Terceiro Mundo de Europa, pois é a mesma ameaza que moitos empresarios do sector do metal regurxitan en plena folga dos traballadores polos seus dereitos.
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Deslocalización no ventre do dragón capitalista

Como ben informa a organización ecoloxista galega Adega, para a planta de Mira o Estado portugués entregou a Pescanova –que se saiba– 45 millóns de euros en subvencións públicas directas –sen contar coas subvencións indirectas para melloras tecnolóxicas, infraestruturas de distribución, vantaxes fiscais…–, dos 140 millóns de euros do total do proxecto. Todo para criar, segundo a empresa, uns 200 postos de traballo –comezaron ofertando máis de mil–, aínda que en toda a costa galega pódese constatar que este tipo de plantas non adoitan empregar a máis de 50 persoas. Malia isto, facendo un rápido cálculo, resulta que cada emprego custou ás arcas públicas portuguesas nada menos que 225.000 euros, ou o que é o mesmo, Portugal pagará con cartos públicos o xornal completo dos traballadores e traballadoras de Pescanova –estimando 15.000 euros ao ano– durante 15 anos. Así calquera pon un negocio! Co cambio de goberno en Galicia, o PP volve ao poder e de novo, azuzados e envexosos pola inauguración portuguesa, á que ata acudiu o presidente José Sócrates, e que cubriron moitos diarios galegos a catro columnas en portada, ofreceu de novo a Pescanova violar o espazo virxe de Touriñán. Para que volvan á súa terra. Pescanova non o ve mal. Ao cabo, son dúas polo prezo dunha.
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(continua em Vieiros)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Os independentistas ganham as eleições em Gronelândia

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por Vítor Manuel Martins


A Gronelândia é a maior ilha do mundo com dous milhões de quilómetros quadrados e umha populaçom duns 56.000 habitantes (num 88% composta polo povo Inuit). Tem importáncia estratégica geopolítica, por se encontrar geograficamente bem próxima dos Estados Unidos e por estar juridicamente ligada à Europa como território autónomo da Dinamarca. O passado 21 de Junho de 2009, dia da festa nacional, marca a entrada em vigor dum novo estatuto de autonomia que reconhece o direito de autodeterminaçom. Dias antes, os independentistas do partido Inuit Ataqatigiit (Solidariedade Inuit) ganhavam as eleições situando ao seu líder, Kuupik Kleist, na presidência do governo.


A história da Gronelândia (“terra verde”) é a da sobrevivência e adaptaçom do homem nas condições climáticas mais extremas. Quando no século X é “descoberta” polos Viquingos noruegueses estava desabitada. Eles prosperarom durante alguns séculos, mas após quase quinhentos anos de habitaçom, desaparecerom por volta do século XV ao igual que os seus primeiros moradores.

O povo Inuit (ou Esquimó), actualmente estabelecido, chegou no século XIII, desenvolvendo umha grande capacidade de recursos para sobreviver num país frio onde nom é fácil obter alimentos. A populaçom de Gronelândia constitui o maior grupo da naçom Inuit, cujo território se estende nas regiões árticas desde o norleste da Sibéria (3.000 indivíduos), Alasca (30.000) e o Território Autónomo de Nunavut no Canadá (25.000) desde há quatro mil anos.

Em 1721 o Reino da Dinamarca-Noruega reafirmou a sua reivindicaçom sobre o território como colónia. Durante duzentos anos os Dinamarqueses tentarom colonizar Gronelándia desde Copenhaga. Para isto seguírom unha política isolacionista mantendo afastada a ilha de toda influência externa e de competititivade com outros países. O governo dinamarquês acreditava que a sociedade iria enfrentar exploraçom do mundo exterior ou até mesmo extinção se o país fosse aberto.

A dependência colonial supôs para o país que nom estivesse sujeito às regras democráticas. O direito de voto era extremadamente limitado e o papel das assembleias eleitas por votaçom popular estiverom restringidas ao controle dos representantes do poder colonial.

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Porém, durante a Segunda Guerra mundial, a Gronelândia separou-se tanto social como economicamente da Dinamarca, entom ocupada polos nazis, aproximando-se mais dos Estados Unidos e Canadá. Durante toda a guerra a ilha é governada directamente desde a capital, Nuuk, polos conselhos Provinciais da Gronelándia do Norte e Sul e nom por Copenhaga. Estes factores criarom as condições especiais para romper o isolacionismo político que prevalecia até entom. Os Gronelandeses descobrirom o mundo exterior acedendo às mercadorias norte-americanas. Quando a guerra chegou ao seu fim, as mudanças eram de tal magnitude que acabariam por colapsar o período colonial.

Depois da guerra, embora o controle da ilha voltasse à Dinamarca, esta deveu transformar o status da ilha em 1953. Esse ano, através dumha emenda constitucional, Gronelandia converteu-se numha província como parte igual do Reino de Dinamarca, podendo eleger dous representantes no Parlamento dinamarquês e as provisões de liberdade estenderom-se ao país. Os conselhos provinciais forom agrupados num só, mas apenas com funções consultivas, embora as competências do Conselho foram gradualmente estendidas.

No período de 1945-54, Gronelândia figurava na lista de Territórios Nom Autónomos a serem descolonizados dentro do capítulo XI da Carta das Nações Unidas e durante esse período Dinamarca tivo que submeter-se a informes sobre a situaçom da ilha a intervalos regulares perante os organismos de descolonizaçom da ONU. Estes informes finalizarom em 1954 quando a Assembleia Geral das Nações Unidas tomarom conta da integraçom da Gronelândia no Reino da Dinamarca.

Durante os anos 50 e 60, numha política de “modernizaçom”, Dinamarca tenta trasladar o Estado do Bem-estar a Gronelândia. Esta modernizaçom traduziu-se numha política de concentraçom dos habitantes das aldeias mais afastadas (conhecido como Plano G-60). As povoações esquimós forom esvaziadas e transferidas para localidades nas que se concentrarom os investimentos estatais em infraestruturas e comércio. Desta maneira rompeu-se a ligaçom da populaçom autóctone com o seu modo de vida tradicional. Esta “modernizaçom” provocou um trauma social ao nom dar encaixado umha mudança tam radical para umha sociedade urbana que foi indesejada e forçosa.

A política neocolonizadora concretizaria-se numha série de factos consumados: grande penetraçom na província de capital dinamarquês; descuido na protecçom pesqueira; espólio de recursos petrolíferos e de uránio, -controlados directamente desde a metrópole- e permitir a instalaçom no país de bases militares estado-unidenses no seio da NATO.

A colonizaçom de Gronelándia modificou também a sua estrutura humana com a chegada dos colonos Dinamarqueses que se converteram numha minoria privilegiada (12% da populaçom) que detenta a maioria dos altos cargos na administraçom ou se dedicam a florescentes negócios privados (lembre-se que o 80% das empresas privadas estám em maos dinamarquesas). Destarte em Nuuk, capital do país, quase a metade da populaçom é dinamarquesa.

Na década dos setenta, dentre a juventude e os sectores mais conscienciados da sociedade, descobriu-se que ainda havia umha oportunidade de recuperaçom nacional: persuadir ao povo e aos dinamarqueses de que deviam ser os próprios Gronelandeses que tomassem as suas próprias decisões através do autogoverno e de que podiam assumir tal responsabilidade através dum movimento nacionalista.

A tal efeito em 1973 foi criada, polos membros dos Conselhos Provinciais gronelandeses e os dous representantes no Parlamento dinamarquês, o Comité de Autogoverno de Gronelándia. Em 1975 este Comité emite um informe no que propunha a autonomia para a ilha conforme o modelo aplicado às Ilhas Faroé. Ese mesmo ano o governo dinamarquês constituiu umha Comissom de Autogoverno paritária polos partidos dinamarqueses e representantes gronelandeses. Os trabalhos desta comissom durarom três anos, topando dificuldades no que respeita ao direito de jurisdiçom do território sobre os seus recursos naturais e de subsolo e do subsídio que o governo central teria que dar para a transferência das competências do Estado ao governo autónomo de Gronelándia.

Aprovado o projeto de autogoverno polo Parlamento dinamarquês, em Janeiro de 1979 tem lugar o referendo em Gronelándia sobre a autonomia em base à proposta apresentada por esta Comissom que foi aprovado por ampla maioria (70,1% de votos afirmativos), o que levou à entrada em vigor do autogoverno a partir de 1 de Maio desse ano.

Se bem o carácter da Lei de Autogoverno de Gronelándia é semelhante a qualquer lei aprovada polo Parlamento dinamarquês acordou-se que, a diferença doutras, como se chegara a ela através de negociações bipartidas entre Dinamarca e Gronelándia, qualquer modificaçom precisaria dum novo processo negociador entre as partes.

A metrópole reserva-se as competências em matéria constitucional, autoridade suprema do estado, a determinaçom da cidadania, passaporte, visados, simbologia estatal, negócios estrangeiros, defesa, finanças nacionais, banco nacional, expediçom de moeda, legislaçom privada e penal e regime penitenciário. Todos os demais ámbitos estám sob a responsabilidade da autonomia. Os órgaos mais importantes de autogoverno som umha Assembleia de eleiçom popular (Landsting) e umha administraçom dirigida por um governo (Landstyre)

A estrutura social tradicional dos Inuit é mui comunitarista. Esta característica faz com que seja mais compatível com o modelo sócio-político dos países nórdicos que com o modelo de sociedade capitalista dos EE.UU. De facto, os Esquimós do Canadá e Alasca têm máis dificuldades para se adaptarem à sociedade capitalista do que os da Gronelándia para se adaptarem ao modelo de sociedade dos países nórdicos europeus. Por outro lado, o modo de vida do caçador, baseado na combinaçom de solidariedade e individualismo, é um factor que conecta muito bem coas tradições socialistas nórdicas.

Gronelándia conta com forças políticas próprias. Desde institucionalizaçom do autogoverno a vida política do território está dominada por três partidos.
· O partido social-democrata Siumut (Adiante), fundado em 1971, cuja politica nacionalitária visa incrementar a independência no marco da soberanía dinamarquesa.
· O partido Inuit Ataqatigiit (Solidariedade Inuit), partido que irrompeu na cena política com motivo das eleiçons de 1983 com o 10,7% e que procura a independencia de Gronelándia.
· Partido liberal Atassut (Unidade), que advoga por umha estreita cooperaçom com Dinamarca. Este partido está vinculado ao ao Venstre (Partido Liberal de Dinamarca).
· Os Democratas, partido liberal/socio-liberal surgido a partir de 2002. Mostra-se céptico com todo o relativo ao autogoverno e independência e conta com grande apoio na comunidade dinamarquesa.

Nos primeiros anos de autonomia o governo gronelandês procedeu a sacar a Gronelándia da CEE. Em 1972 Gronelándia pronunciara-se em contra da sua pertença à CEE mas, fazendo parte de Dinamarca e sem autogoverno, convertera-se em membro forçoso da Comunidade. Umha vez estabelecido o autogoverno, na primavera de 1981, o Parlamento de Gronelándia acorda convocar um referendo consultivo sobre a sua continuidade na CEE. Em Fevereiro de 1982 o 53% dos Gronelandeses votarom abandonar a CEE. Três anos depois Gronelándia seria o primeiro país em sair da CEE estabelecendo-se um novo acordo económico de associaçom que salvaguarda os intereses da ilha face a CEE.

A vida política tem sido mui activa. Após as eleiçons de 1983 forma-se um governo de coaligaçom entre o Siumut e Solidaridade Inuit (IA). Após um ano o Siumut perde umha moçom de censura apresentada polo IA. Porém, após umhas novas eleiçons (nas que pola primeira vez os conservadores superarom à esquerda) acabaría reeditando-se a coaligaçom Siumut-IA.

O Governo de Gronelándia mantivo nestes anos unha clara política pacifista e contrária à NATO. Em 1984, em plena guerra fria e apesar da pertença de Dinamarca à Aliança Atlántica, o Governo de coaligaçom gronelandês declara o país zona desnuclearizada, o que afectou à gigantesca base estado-unidense de Thule. Em Outubro de 1986 a instáncias do governo autónomo entra em vigor um acordo entre Dinamarca e os EUA polo qual se reduz a superfície das bases ianques no território. As terras ocupadas (105.000 hectares) som devoltas às comunidades de Esquimós.

A passividade do Primeiro-Ministro de Gronelândia, o social-democrata Jonathan Motzfeldt, perante a instalaçom dunha nova equipa de rádar polos EUA na base de Thule provoca umha nova crise no governo de coaligaçom. Segundo, Aqqaluk Lynge, líder de IA, a pretensom ianque ataca as disposições do Tratado 72 sobre a eliminaçom de míseis antibalísticos. Após as eleições antecipadas de 1987 o líder social-democrata tentou umha “grande coaligaçom” com os unionistas do Atassut mas a oposiçom do seu partido acabaria frustrando estas pretensões. Nom seria até depois das eleições de 1995 e Fevereiro de 1999 que se forme um governo de coaligaçom Siumut-Atassut. Até entom Gronelándia foi governada pola coaligaçom Siumut-IA.

Após as eleições de 2002 o Siumut, dirigido por Hans Enoksen, recupera a coaligaçom de governo com IA. Os dous partidos protagonizarom discussões em como mudar o acordo com a Dinamarca e os EE.UU. e sobre quanto deveria receber Gronelándia em compensaçom pola base aérea estado-unidense situada na vila de Thule.

O autogoverno permitiu fortalecer a identidade nacional, situando ao povo gronelandês no mesmo nível de Dinamarca e com o resto do mundo. Em 1985 Gronelándia procurou um contacto máis estreito com os demais povos nórdicos (Finlándia, Suécia, Noruega, Islándia e Dinamarca). O Parlamento de Gronelándia começou a participar nas gestiões do Conselho de Ministros do Norte. Ao mesmo tempo intensificárom-se as relações com os Inuit de Alasca e do Canadá, constituindo-se a Conferência Circumpolar Inuit nunha estratégia de luta que inclui a defesa meio-ambiental, a das suas terras, a preservaçom da cultura trdicional e a promoçom dunha economia de desenvolvimento sustentável que garanta o futuro da naçom.

Após vinte anos de autogoverno, praticamente todas as competências que deviam ser transferidas no marco da Lei do Autogoverno de 1979 forom assumidas polo Governo autónomo. Reconhecendo que era preciso revisar a posiçom da Gronelándia no seio do Reino, o Governo gronelandês estabeleceu em 1999-2000 umha Comissom de Autogoverno da Gronelándia. Esta Comissom apresentou o seu informe no ano 2003. A seguir o Parlamento gronelandês, que assumiu as recomendaçons da Comissom, propuxo estabelecer umha Comissom de Autogoverno Gronelándia-Dinamarca.

O relatório desta Comissom delineou seis possibilidades para o futuro da ilha:
1. Independência;
2. Uniom com outro país, similar ao antigo Reino da Islándia (1918-44);
3. Livre associaçom, similar ao relacionamento entre Porto Rico e Estados Unidos;
4. Federaçom;
5. Aumento do auto-governo frente à Dinamarca;
6. Integraçom completa.

Em 2 de Janeiro de 2008 o primeiro-ministro gronelandês H. Enoksen anunciou um referendo sobre o auto-governo, esclarecendo que nom resultaria na retirada da Gronelándia do Estado dinamarquês mas que contemplaria umha via de aceso à independência. Finalmente, em 13 de Junho os primeiros-ministros dinamarquês e gronelandês assinam um acordo para promover umha “Lei do Governo da Gronelándia” que vai aumentar a autonomia do pais ainda prevendo a sua futura soberania total.

O acordo prevê que a Gronelándia passe a decidir sobre 32 áreas estratégicas exercidas pola Dinamarca como polícia local, dos tribunais de justiça e de aproveitar futuramente os possíveis recursos naturais oriundos das reservas de petróleo, gás, diamantes, ouro e outros minerais. Além disto, o gronelandês, idioma nacional falado polos Inuit, passará a ser o idioma oficial do território.

Se bem o movimento independentista tem-se visto desencorajado pola dependência da ilha dos subsídios económicos recebidos do governo dinamarquês (o 30% do PIB), este quadro talvez se altere com a retraçom das geleiras, que podem tornar acessíveis recursos minerais e petróleo. Calcula-se que na zona há jazidas petrolíferas em quantidade superior a toda a produçom do Mar do Norte e à metade das reservas da Arábia Saudita, uma riqueza que permitiria a autosuficiência do país.

O monarca dinamarquês seguirá a ser o chefe do estado e a Dinamarca continuará decidindo apenas sobre política exterior, além de continuar enviando, anualmente, os cerca de 429 milhões de euros que som remetidos actualmente.

Com este acordo, para além de reconhecer o direito de autodeterminaçom, a Gronelândia pode-se tornar um Estado independente e soberano, caso iso seja decidido em consulta popular (plebiscito ou referendo). Com efeito, após o Limiar da Lei do Autogoverno da Gronelândia referir literalmente “Reconhecendo que o povo da Gronelândia é um povo sujeito à lei internacional com o direito de autodeterminaçom, a Lei baseia-se no desejo de fomentar a igualdade e o respeito mútuo na parceria entre Dinamarca e Gronelândia. Em consequência, esta Lei baseia-se no acordo entre o Governo da Gronelândia e o Governo Dinamarquês como parceiros iguais”, o capítulo VIII (Aceso da Gronelândia à independencia) recolhe: “Art. 21. 1) A decisom a respeito da independência da Gronelândia deve ser tomada polo povo de Gronelândia; 2) Se a decisom é tomada conforme à subsecçom (1), devem iniciar-se conversações entre o Governo dinamarquês e o Parlamento gronelandês com o fim da introduçom da independência para Gronelândia; 3) Um acordo entre o Parlamento gronelandês e o Governo a respeito da introduçom da independência para Gronelândia deve ser concluído com a aprovaçom do Parlamento gronelandês e deve ser aprovado por um referendo na Gronelândia. O acordo deve, aliás, ser concluído com o consentimento do Parlamento dinarmarquês; 4) A independência para Gronelândia deve implicar que a Gronelândia assume a soberania sobre o território da Gronelândia”[1].

A folha de rota contempla que o acordo seja votado em referendo polos Gronelandeses em 25 de Novembro de 2008 e deve entrar em vigor em 21 de Junho de 2009, dia nacional. No referendo a proposta em votaçom foi aprovada com umha maioria de 75,54% dos eleitores e 72% de comparecimento às urnas.

O referendo foi considerado polos independentistas um passo essencial para a independência da Groenlândia. A seguir H. Enoksen, promotor do acordo, convocou eleições antecipadas para que os Gronelandeses decidissem quem deveria liderizar o país na “nova era”.

Nas eleiçons legislativas de 2 de Junho de 2009 a formaçom mais à esquerda do sistema político, em favor dumha independência rápida, IA, duplicou os resultados ao conseguir 14 mandatos e 43,7% de votos. O seu líder, Kuupik Kleist (na foto), de 51 anos, é eleito novo chefe do governo.

A nova coaligaçom de governo[2] é novidosa na história da Gronelándia: estende-se do partido mais à esquerda (IA), ao partido de orientaçom nacionalista (Associaçom de Candidatos), passando polo centro (Democratas). Umha aliança que dá toda a sua singularidade a Gronelândia, governada durante os últimos trinta anos polo partido Siumut.

Tal como previsto, o passado 21 de Junho a rainha Margarida II entregou oficialmente a lei de autonomia reforçada ao presidente da Assembleia territorial da Gronelandia em presença dum presidente independentista e de numerosas personalidades e médias estrangeiros.

domingo, 21 de junho de 2009

Entrevista a Francisco Louçã (Bloco da Esquerda)

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Originalmente publicada no Correio da Manhã (inclui video). Impecáveis as respostas do líder do BE, Francisco Louçã.

(Foto de Raúl Alexandre)

Correio da Manhã/Rádio Clube - A sua última entrevista provocou alguma perplexidade. Nomeadamente quando falou de algumas propostas do Bloco de Esquerda. Defende o regresso ao tempo das nacionalizações de 1975?

- Não, não defendo nenhum regresso ao passado. Acho que o passado nos ensina muito do que não deve ser feito e dos erros que têm de ser impedidos. Acho bom que haja polémica a propósito das ideias que apresento. Mas eu creio que nós estamos perante uma crise, um desastre económico, um horror económico de dimensões enormes. E que tem a ver com a forma como se precipitou na especulação os bens que eram das pessoas. E o sistema financeiro tem uma responsabilidade muito grande. E é por isso que eu creio que é preciso que haja um sistema financeiro que tenha uma base pública. Temos, aliás, um banco público, que é o banco dominante. E para mim é muito significativo que quando o maior banco privado português teve uma crise, que foi o BCP, só conseguiram encontrar gestores em cuja honorabilidade acreditassem no sector público.

ARF - Na Caixa Geral de Depósitos.

- Na Caixa Geral. Não conseguiram encontrar ninguém no sector privado em que acreditassem. Isso dá-nos uma ideia de que é preciso que haja uma estrutura de grande confiança e de grande respeitabilidade na gestão dos bens que são monopólios ou que são bens de grande poder. E é por isso que eu não concordo, por exemplo, que uma empresa pública de energia seja vendida ao sector privado. Veja o caso da Galp. A Galp é uma empresa pública, foi construída pelo Estado, paga pelos portugueses.

ARF - É verdade.

- E um terço da Galp foi entregue a Américo Amorim e a José Eduardo dos Santos, que beneficiaram disso extraordinariamente. 300 milhões de euros. Ora, nós temos défice orçamental. Eu pergunto: porque é que nós pagamos impostos ou aumentam os impostos para pagarmos o défice orçamental quando aquilo que já foi utilizado com o dinheiro dos impostos vai ser entregue como uma renda ao sector privado. Eu não concordo que haja monopólios privados naquilo que é um bem público comum. Outra coisa é haver uma actividade económica normal em todos os sectores.
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ARF - A EDP também é um desses casos? Aí o Estado mantém uma posição.

- Minoritária, mas é verdade.

ARF - Ainda tem. Como na PT e outras. Se nacionalizasse essas empresas como é que funcionava a concorrência, como é que funcionava o mercado?

- Bem, mas o problema é que agora não tem concorrência.

ARF - São monopólios.

- Muitos deles são monopólios naturais. Por exemplo, a água e a electricidade. São monopólios naturais. É um custo tão elevado constituir uma rede de distribuição de alta tensão pelo País que só pode haver uma, que é a REN. Se for entregue a um privado é um monopólio cujos lucros deixam de ser do Estado, ou seja, dos contribuintes, e passam a ser de um privado. Ou seja, está-se a entregar uma renda a alguém que quer aquela empresa porque não tem concorrência.

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ARF - Quer um monopólio.

- Ganhar sem qualquer esforço. A ideia de privatizar as águas é uma ideia tão indigna porque todos precisamos de água. É um bem de que necessitamos. Como a saúde. Aliás, o sector da saúde é um bom exemplo porque há um sector privado. Mas eu não posso aceitar que o acesso de um português ou de uma portuguesa pobre a um cuidado de saúde dependa da sua possibilidade de pagar. Porque é um bem público, o facto de respeitarmos os outros, de cuidarmos dos mais idosos, de podermos cuidar dos doentes. Isso é uma obrigação pública. Eu nunca fui submetido a uma cirurgia. Mas acho muito bem que os meus impostos sirvam para pagar as cirurgias de quem precisa.

ARF - Claro.

- É uma questão de respeito pelas pessoas. E eu creio que na economia temos de ter mais respeito por esses bens públicos para poder proteger aquilo que é essencial. E é nesse sentido que acho que as nacionalizações devem contribuir para um controlo democrático, social sobre aquilo que é monopólio, já faz parte do bem do Estado.

ARF - Mas houve pessoas que ficaram muito perplexas com a entrevista que deu. Mesmo próximas do BE. E como é que olha para a Comunicação Social neste momento? Tem um sector público e privado. Ia ficar tudo na mesma com o Bloco de Esquerda no poder?

- Eu creio que é um exemplo diferente mas é um bom exemplo.

ARF - É uma questão de liberdade de informação.

- Com certeza. O problema da Comunicação Social é que temos quatro grandes grupos privados e depois temos o sector público. Eu creio que é indispensável que haja uma desconcentração da Comunicação Social. Há grupos que se formam, têm o direito de fazer o seu investimento e ter os seus produtos. O que eu não concordo é que essa concentração possa prejudicar a liberdade de informação. Repare. Nos EUA, por exemplo. Nenhuma televisão pode ter mais de 25 por cento do share geral das audiências para evitar uma monopolização que faz com que não haja a possibilidade de o jornalista poder dar uma informação que incomoda o seu grupo económico ou o Governo, ou um grupo económico associado ao Governo, coisa que muitas vezes acontece. A promoção da liberdade de informação e da Comunicação Social é o que deve levar à não concentração da Comunicação Social e a uma intervenção do Estado que tenha de ser respeitadora desses princípios.

ARF - A lei avançada pelo Governo e que foi vetada pelo Presidente da República foi contestada por ser contra o mérito e a qualidade. Um grupo vencedor era penalizado. Concordou com essa lei?

- É verdade o que diz. Eu votei contra essa lei. Votei convictamente contra a lei e apoiei o veto do Presidente porque acho que a lei era errada. Não conseguia os objectivos que pretendia e tinha objectivos escondidos que eram errados do ponto de vista da liberdade da Comunicação Social. Eu acho que aqui o único critério é a liberdade de informação, o direito das pessoas poderem fazer escolhas livres sobre a informação que querem ter e poderem participar nisso. Agora, aquilo que acho é preciso que a lei preveja é isto. Imagine um grupo que tem um jornal, mas que também é proprietário da rede de distribuição de todos os outros jornais, isto é, distribui os seus concorrentes. Ora isso é perigosíssimo para a liberdade de informação. Porque pode prejudicar a possibilidade de acesso da informação dos seus concorrentes. Ou que tem uma agência noticiosa ou que tem as gráficas, por exemplo. Um proprietário de um jornal que tem as gráficas que imprimem os jornais dos concorrentes isso é negativo do ponto de vista da transparência da vida pública e da informação. Por isso eu creio que é preciso ter regras ponderadas, que promovam a qualidade da informação, o acesso à informação, a liberdade de escolha. E a liberdade de escolha é a diversidade. É assim que deve ser. Hoje temos grandes jornais de referência, grandes rádios e uma Comunicação Social diferenciada, o que não podemos ter é uma comunicação oficialista ou de televisões com medo do que o Governo possa dizer, com medo do que possa fazer.

ARF - Como é que vê hoje a Comunicação Social em Portugal?

- Eu creio que nós estamos a passar uma situação muito difícil na Comunicação Social porque os meios estão a mudar. Hoje há jornais que eram grandes jornais de referência que estão em grandes dificuldades, há o projecto de haver um novo canal generalista de televisão, não se sabe se há mercado publicitário para isso, há escolhas estratégicas que têm de ver com esta mudança de padrão geral da comunicação. Mas acho que todos os contributos que são dados para trazer informação diversificada sobre a vida social, com o olhar próprio de cada jornal e de cada jornalista são inestimáveis do ponto de vista da nossa vida. Veja o caso do Correio da Manhã, que tem uma atenção especial em relação a problemas como o da saúde, da vida dos reformados, da vida das populações com mais dificuldades e com mais problemas sociais. Isso não é muito comum na imprensa portuguesa. E eu acho que é muito importante que haja essa atenção para que todas as vozes possam ser ouvidas e para que o pluralismo e a riqueza de uma vida social, de uma comunidade viva se possa exprimir do ponto de vista da Comunicação Social. Se nós perdermos isso podermos ter outros direitos mas perdemos o direito essencial de olharmos para nós próprios com uma visão crítica.

LC - O Bloco de Esquerda subiu de um para três deputados nas Europeias. Um resultado que surpreendeu muita gente. Passou a ser também o terceiro partido. Se esta tendência de subida se manter vai mudar alguma coisa no BE?

- Já está a mudar, com certeza. Nós começámos há dez anos atrás numa eleição para o Parlamento Europeu e não elegemos ninguém embora depois tenhamos eleitos dois deputados para a Assembleia da República, depois três, depois oito, veremos quantos vamos eleger agora. É certo que nesta campanha houve uma subida importante. Eu creio que o Miguel Portas, a Marisa Matias e o Rui Tavares se revelaram candidatos extraordinários com uma grande intervenção política sobre temas essenciais no que era decisivo neste debate. As grandes políticas económicas da Europa e de Portugal, as grandes opções estratégicas para Portugal e para a Europa. E creio que isso explica uma consolidação do BE, que hoje é mais forte como uma esquerda socialista, como uma esquerda popular, como uma esquerda da democracia social no nosso País. Agora, estes resultados aumentam a nossa responsabilidade. É claro que nós os vemos com prudência, porque uma eleição que tem 62 por cento de abstenção é uma eleição particular. Nas próximas eleições, quando se tomam grandes decisões sobre a política nacional, temos de convocar muito mais eleitores. E, portanto, a decisão será muito disputada e iremos a essa luta. Iremos apresentando um programa de Governo. Essa é a responsabilidade que nós assumimos. Ou seja, um partido que representa meio milhão de eleitores, muitas pessoas que querem alternativas para Portugal, tem de assumir a responsabilidade e nós temos de o fazer, e assim o faremos, de mostrar como Portugal deve ser governado para sair deste desastre económico e para poder dar passos certos no caminho da convergência social, no caminho do combate à injustiça na economia.

LC - Até que ponto é que essa responsabilidade de que fala se deve traduzir numa solução de Governo e o BE apoiar uma solução de Governo?

- Depende do que nos estão a perguntar. Mas eu dou-lhe uma resposta muito clara nos dois casos. Se o que nos estão a perguntar é se queremos ser Governo a resposta é sim. Se estamos preparados para ser Governo a resposta é sim. Se apresentaremos um programa concreto sobre como deve ser esse Governo evidentemente. Nós temos de ser medidos pelo que propomos, pelo que fazemos e pelo que é o nosso compromisso com os eleitores. Não pode ser de outra forma. Nós queremos ser essa resposta de um poder em que a sociedade assume nas suas mãos a resposta aos problemas fundamentais. E é nesse sentido o nosso compromisso profundíssimo com a democracia republicana. É exactamente esse. Nós queremos constituir uma força para a maioria em Portugal e fazer essa grande aliança política que corresponda a uma transformação na luta pela justiça na economia.

LC - Esse é um projecto a longo prazo.

- Bom, há dez anos atrás dizíamos que nunca chegaríamos aos dez por cento. Cá estamos. É um processo que tem de ser construído, porque uma maioria tem de ser merecida, tem de ser disputada. Agora, se nos estão a perguntar se estamos dispostos a ir às eleições a dizer uma coisa para no dia seguinte fazermos o contrário, fazermos uma aliança, isso não.

LC - Quais são as condições do BE para uma aliança com o PS se o PS não tiver maioria absoluta?

- A pergunta é a mesma. Nós não vamos mudar de camisa na noite das eleições. Nós vamos dizer aos eleitores que é preciso um Governo de esquerda, uma política social, é preciso um Governo com prioridade social e com uma política económica com a qual nos comprometemos e por isso é preciso derrotar o Código do Trabalho, a precariedade, é preciso promover a qualidade da escola em vez do ataque aos professores, promover a qualidade da economia em vez da desagregação económica.

LC - Isso são condições?

- Não, são políticas. Nós queremos ser maioritários. Eu quero ser totalmente claro sobre isso. Nós queremos a maioria e provámos que em grandes batalhas da sociedade portuguesa já somos maioritários, já caminhamos para construir essa maioria.

LC - Estou a colocar-lhe um cenário. À direita o PSD já disse que tem uma solução com o CDS. À esquerda parece que não há solução nenhuma.

- Mas essa pergunta tem que a fazer ao PS. Nós seremos coerentes com o nosso programa. E nós queremos que cada uma das medidas com as quais nos comprometemos com os portugueses se torne maioria.

LC - Mas numa negociação com o PS não vai impor todas as suas medidas.

- Eu não impor coisa nenhuma. Repare, as eleições não são uma negociação. As eleições não são um jogo político.

LC - Mas se houver alianças acaba por ser uma negociação.

- Não, as eleições são uma coisa diferente. As eleições são uma escolha de caminhos. Portugal está desesperado porque viveu sempre na traficância política. De políticos de vistas curtas que acham que o que interessa é a sua carreira e o seu lugar. E portanto o que é preciso é chegar a algum poleiro o mais depressa possível. Em vez de pensarem que o que é preciso é resolver problemas. Nós queremos maioria para resolver esses problemas. Temos de fazer parte de maioria e constituir maioria.

LC - Não há um problema de governabilidade se o PS ganhar com maioria relativa?

- Nós temos hoje um gravíssimo problema de governabilidade. A maioria absoluta é um problema de governabilidade. O caso BPN é um problema de governabilidade ou é o quê? O colapso do Banco de Portugal na supervisão é um problema de governabilidade. O roubo nos bancos é governabilidade. O Código do Trabalho é governabilidade. Em Portugal, em quatro anos, há de repente quatrocentos mil trabalhadores temporários. Isso não é governabilidade?

LC - O PS está a colocar essa questão, de instabilidade, se não tiver maioria absoluta. É uma falsa questão?

- É uma questão inteiramente justa. O problema é que a instabilidade já existe.

LC - Mas o Governo não caiu.

- Mas o Governo o que diz é que nós, que criámos a crise em Portugal, precisamos que nos dêem os votos para continuar a criar a crise em Portugal. A resposta é não. Nós dizemos outra coisa.

ARF - Quando se ouve o discurso do PS sobre a maioria absoluta e a instabilidade não é uma chantagem sobre os eleitores?

- É uma chantagem. É uma chantagem de quem está desesperado. De quem sabe que os eleitores os estão a criticar. O PS não teve, que eu me lembre na história da política portuguesa, menos de um milhão de votos. Nestas eleições tiveram muito menos votos do que Manuel Alegre. Estão desesperados. E não percebem que os eleitores lhes puxaram as orelhas. Disseram. Isto está mal. E agora estão a dizer. Votem em nós, apesar de pensarem que estamos a fazer mal, para continuarmos a fazer mal. Isto não é possível aceitar. O que é preciso é acabar com esta situação em que o País tem estado aprisionado num Bloco Central rotativo e este sinal foi dado nestas eleições. O PSD diz que ganhou as eleições com 32 por cento. Santana Lopes teve 29 por cento, é uma eleição desgraçada do ponto de vista do PSD. PS e PSD juntos têm menos de 60 por cento.

ARF - Exacto.

- Isto também nunca aconteceu. Ou seja, há uma crise no regime social e político. E portanto a chantagem da maioria absoluta é errada. Eu respondo ao PS quando falam de governabilidade. O que eu lhes digo é que estamos dispostos a todos os contributos para a governabilidade, ou seja, para soluções para o País, para políticas concretas. E o BE nunca faltará, como nunca faltou em todas as políticas que contribuam para combater o desemprego, para melhorar as pensões dos reformados, para melhorar os serviço públicos, para melhorar a economia, para combater os spreads abusivos que estão a aumentar. Ou seja, em todas as medidas que criem governo económico para responder ao desastre económico o BE garante maioria.

LC - Ou seja, o BE não estará interessado para uma aliança no Governo mas poderá viabilizar documentos importantes, como o Orçamento de Estado?

- Nós não fazemos alianças de Governo com uma maioria que é contra as posições que são os nossos compromissos com os eleitores.

LC - É impossível fazer uma aliança de Governo com o PS?

- O que eu estou a dizer é que o PS apresenta um programa que é a continuidade da sua política. Nós queremos acabar com essa política. Eu sempre tenho dito que o PS não pode ser convencido, tem de ser vencido. A arrogância social do primeiro-ministro não é só uma questão de características pessoais. Todos nós temos defeitos e virtudes. Eu tenho os meus defeitos. Mas a arrogância dele é a arrogância social brutal. É perante 200 mil desempregados que não têm subsídio de desemprego dizer que Portugal está bem desse ponto de vista.

LC - As pessoas vão ficar sem saber se o BE considera ou não impossível ir para o Governo com o PS.

- Eu já o disse com muita clareza. Nós não iremos para um Governo fazer o contrário do que o dissemos aos eleitores. Porque a política da mentira tem de ser destruída.

LC - E para acordos pontuais, para isso está disponível?

- Perante qualquer Governo nós aprovaremos sempre medidas que respondam às emergências económicas e sociais. Porque a prioridade destas eleições é a economia, a vida das pessoas. As pessoas estão numa situação desesperada e tudo o que possa responder a isso nós vamos propor, vamos procurar maioria para essas soluções. Aprovamos pela qualidade das propostas. Se nos dizem que vamos ter um Orçamento que aumenta a idade da reforma ou reduz as pensões em 46 por cento isso não aceitamos.

LC - É indiferente para o BE que o próximo primeiro-ministro seja José Sócrates ou Manuela Ferreira Leite? Não há muita coisa que os distinga?

- Não há nada na política que nos seja indiferente. Tudo é relevante. E há grandes diferenças entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates. Mas eu não estou a escolher. Estou a escolher uma política que responda aos problemas.

LC - Mas prefere a política de quem?

- Não prefiro, nem tenho de preferir. Eu combato as políticas dos dois. Porque acho que é preciso outra política. Quem ainda pensa que a política portuguesa se faz entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite não está a perceber o que se passa no País, não está a perceber a subida do BE e não está a perceber o sinal que os eleitores do PS deram quando se abstiveram ou votaram no BE. Eles não querem que continue esta pasmaceira pachorrenta.

LC - Gostava de ser primeiro-ministro um dia?

- Eu disputo a eleição para a formação do Governo.

ARF - Para ser primeiro-ministro?

- Com certeza.

LC - O BE não está a empurrar o PS para uma aliança com o CDS?

- Não, nós procuramos uma clarificação política. Há tanta gente que continua a pensar na política como um arranjo de partidos. Política não é isso. E o problema do País não são os arranjos entre partidos. O problema do País são dez anos de recuo económico e uma recessão que é mais grave em Portugal do que em qualquer País. O problema do País são elites dominantes que mostraram, em alguns casos, que são capazes de meter 30 milhões de euros ao bolso numa comissão com um negócio com um traficante de armas libanês em Porto Rico. Esse é que é o problema do País. E outros que depois de andarem a falsificar as contas do maior banco privado saíram com 80 milhões nos bolsos.

ARF - Falemos de liberdade e da esquerda. O PCP está muito ligado à ex-União Soviética, à Cortina de Ferro, aos regimes do socialismo real. Como é que o BE encara a questão da liberdade, a liberdade individual dos cidadãos?

- No sentido mais radical. Entendemos sempre que uma das lições mais importantes para a esquerda é perceber que o fracasso trágico desses regimes de Leste foi a sua rejeição do pluralismo político, da liberdade sindical. Hoje em dia na China um trabalhador não pode fazer uma manifestação, um cidadão não pode publicar um jornal, o acesso à Internet é dificultado. A restrição da liberdade destrói a vida social. A liberdade colectiva e individual é o código genético da vida colectiva. Não pode ser de outra forma.

ARF - Isso separa-os muito do PCP.

- Bem, marca muito a identidade do BE. Agora, é verdade também que na enorme diversidade da esquerda o diálogo que tivemos com Manuel Alegre foi muito importante. E Manuel Alegre disse isso com muita felicidade dizendo que era um tabu de 30 anos que tinha acabado. Nós temos de pensar que a esquerda tem de olhar para a sociedade, tem de ouvir a sociedade, tem de percebê-la.

PERFIL
Francisco Louçã nasceu em Lisboa no dia 12 de Novembro de 1956. Licenciou-se, fez o mestrado e o doutoramento no Instituto Superior de Economia. Professor catedrático do ISEG, foi preso na Capela do Rato em 1972, fundou o Bloco de Esquerda e foi eleito deputado em 1999. Em 2006, candidatou-se às eleições presidenciais.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Keep on rockin' in the free world!

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Cumprem-se 20 anos desde que Neil Young publicara Freedom, magnífico álbum que supuxo o seu retorno pola porta grande à indiscutível excelência musical tras uns erráticos anos '80. Nel atopávasse uma das minhas canções favoritas de todos os tempos: uma raivosa denúncia do sistema do "mundo livre", uma labazada na cara de Reagan e um esgarro na de George Bush I, os presidentes saíntes e entrantes naquela altura. Com este temazo inflamara Neil Young os bises daquela noite na que o fomos ver n'a Crunha, e polo visto (informa Alberto) segue a fazê-lo também agora. Se não che ferve o sangue com esta canção, é provável que já estejas morto. Forever Young, keep on rockin' in the free world!


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Nota: o video recolhe a versão single, que está acurtada de jeito que não se chega a cantar o último parágrafo da letra... que para mim é quase o melhor, com isso da "kinder, gentler machine gun hand". Mas toda ela é sensacional, verso tras verso sem desperdício. Veja-se:

There's colors on the street / Red, white and blue / People shufflin' their feet / People sleepin' in their shoes / But there's a warnin' sign on the road ahead / There's a lot of people sayin' we'd be better off dead / Don't feel like Satan, but I am to them / So I try to forget it, any way I can.

Keep on rockin' in the free world (x4)

I see a woman in the night / With a baby in her hand / Under an old street light / Near a garbage can / Now she puts the kid away, and she's gone to get a hit / She hates her life, and what she's done to it / There's one more kid that will never go to school / Never get to fall in love, never get to be cool.

Keep on rockin' in the free world (x4)

We got a thousand points of light / For the homeless man / We got a kinder, gentler, machine gun hand / We got department stores and toilet paper / Got styrofoam boxes for the ozone layer / Got a man of the people, says keep hope alive / Got fuel to burn, got roads to drive.

Keep on rockin' in the free world (x4)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Steven Chu: câmbio climático, aforro energético e relação entre investigação pura e aplicada


As Compton Lectures são umas charlas que tenhem lugar no MIT desde 1957 e que são impartidas por oradores de mui alto nível. Não tenhem uma periodicidade fixa, e desde o seu início tem havido uma média inferior a uma por ano. São por tanto um evento bastante excepcional, assi que tivem muita sorte de poder assistir a uma este ano. Em concreto, a impartida por Steven Chu, prémio Nobel de Física em 1997 e novo Secretário de Energia da administração Obama. O tema (O problema energético e a relação entre a investigação básica e aplicada), não podia ser mais interessante, e o encargado de falar dificilmente podia ser mais acaido; e a verdade é que a charla não defraudou. Porque Steven Chu não só é algo parecido a um génio, também é um orador excelente... e além disso tem uns pontos de vista sorprendentemente refrescantes.
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Dum secretário de energia dos USA esperaria escoitar nestes momentos uma mensagem tranquilizadora ante a crise energética global: relativizar a sua gravidade, dizer que sairemos dela pouco a pouco, apostar por buscar novas formas de energia... pois nada disso: desde o primeiro momento Chu pintou um panorama estarrecedor, com um câmbio climático mais acelerado do previsto e com umas necessidades energéticas mui conflictivas. Como solução, nada de fugir cara adiante, senão ir ao básico, investigando em como reduzir o consumo. E sobre como organizar a investigação e o que podemos agardar dela, nada melhor que um repaso a alguns fitos da história recente, que el conhece de primeira mão polo seu passo por Berkeley, Stanford ou os míticos laboratórios Bell. Mas, melhor que tentar resumir o que dixo, é que o vejades e escoitedes vós mesmas: Nesta página pode ver-se o video da charla, assi como as transparências (e ligações a mais recursos, como um artigo relacionado). Recomendável ir vendo as duas cousas (video + slides) ao mesmo tempo, para seguir melhor o fio. Garanto-vos que será uma horinha bem aproveitada.
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quarta-feira, 27 de maio de 2009

A derrota militar dos Támis do Sri Lanka

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Vitor Martins informa sobre este tema de raivosa actualidade.

No Sri Lanka, a antiga Ceilám batizada polos portugueses, a maioria cingalesa de religiom budista, hegemónica após a independencia de 1948, discriminou à minoria támil, uns 3 milhons de pessoas, de religiom hinduista, tanto aos nativos como aos Támis importados como colonos polos británicos do sul dravídico indiano no século XIX para trabalhar as plantações en regime de semiescravidom.

A imposiçom do nacionalismo populista cingalês budista na Constituiçom de 1972 provocou o nascimento de um nacionalismo radical támil, que alentou a formaçom desde 1975 de vários grupos armados, sendo o mais importante deles o dos Tigres do Támil. A polarizaçom étnica que seguiu deu lugar a umha guerra em 1983 que, trás 25 anos e causar 70.000 mortos, chegou ao seu fim o passado 17 de Maio.
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[Figuras referenciadas ao final da postagem]
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Sri Lanka, é umha ilha situada frente às costas indianas surorientais com umha populaçom de 19 milhões de habitantes, dos quais 74% som Cingaleses e 18% Támis (13% nativos e 5% trasladados polos británicos do sul da Índia). Os Támis, de fala dravídica e religiom hinduista, moram nas províncias do norte –a península de Jaffna- e do Leste, onde conformam, respectivamente, o 98% e o 45% da populaçom. Os Cingaleses, de língua sánscrita e religiom budista, moram nas sete províncias restantes, conhecido como o Sul. Existem também minorias de Mouros e Malaios (50.000), e grupos religiosos mussulmanos (7%) e cristaos (8%).

A parte costeira de Ceilám foi ocupada desde o século XVI por sucessivos colonizadores europeus, Portugueses, Holandeses e, desde 1796, Ingleses. No interior da ilha existiu um reino cingalês que manteve a sua independência até 1815. O Império británico implantou na ilha umha economia colonial de monocultivo baseada exploraçom dos recursos naturais (café, chá, coco e cauchu). Para isto necessitou importar mao-de-obra semiescrava do sul do subcontinente indiano (da zona onde hoje se acha o Estado de Támil Nadu e com 66 milhões de habitantes).

Sri Lanka obtivo a sua independência em 1948, trás a da Índia. A sua Constituiçom, a foi a dum Estado centralizado segundo o modelo británico. A língua cingalesa é tratada como a única oficial do país e estabeleceu-se um sistema de checks and balances polo que o Parlamento mantinha umha proporçom de 3 a 2 entre os eleitos Cingaleses e as minorias e umha cláusula constitucional salvaguardava os seus direitos étnicos.


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O Partido Nacional Unido (UNP), representante dos Cingaleses anglófilos e conservadores ganhou as eleições. A pressom dos camponeses Cingaleses da montanha impom umha lei de 1949 que exclui da cidadania e do voto os Támis trazidos como colonos da Índia. Em 1952 os Támis do UNP constituem um partido federalista. A Frente Popular Unida esquerdista de Bandaranaike, ganhou as eleições de 1956, mas a força social que predominava na coaligaçom era a Frente Unida dos Monges, que fez do nacionalismo budista a nova ideologia dominante e conseguiu que o singalês fosse declarado única língua oficial do Estado. Bandaranaike tentou pactuar umha soluçom com os federalistas Támis mas foi assassinado em 1959 por um monge budista. Porém, quando a sua viúva acedeu ao poder em 1960 a sua política procurou a resurreiçom da «grande cultura cingalesa». Em 1965 UNP ganha as eleições graças a umha coaligaçom na que faziam parte os federalistas támis, mas as suas reivindicações forom desouvidas mais umha vez. Ao volver a viúva Bandaranaike ao poder e sob a pressom dumha Frente de Libertaçom Nacional cingalesa que se levantou em armas, promulgou-se em 1972 umha constituiçom republicana que impuxo brutalmente o domínio da maioria budista e cingalesa.

Os Támis, em consequência, começarom a reclamar a partir de 1972 um Estado independente. Emergeu no seu seio umha liderança solidamente implantada na península de Jaffna, de extracçom mais popular e antiociental que o antigo federalismo. O novo nacionalismo támil, inspirado nos modelos palestiniano e vietnamita, pôs em prática a luta armada para conseguir o controlo do território que habitava. Forom surgindo assim distintos grupos que atacavam forças de segurança e colaboracionistas. O grupo mais forte foi o dos Tigres da Libertaçom do Támil Eelam (LTTE), criado em 1975 e dirigido por Velupillai Prabhakaran, que acabou por se impor nos oitenta.

As eleições de 1977 polarizarom-se entre a UNP, que aglutinou o conjunto do nacionalismo cingalês e a Frente Unida de Libertaçom do Támil, que conseguiu os doze escanos da província do Norte e quatro dos doze da do Leste, convertendo-se no maior partido da oposiçom da ilha. As tentativas do governo de negociar com os Támis moderados para os afastar radicais nom derom fruto. Para sufocar a insurreiçom do Norte, reformou-se a Constituiçom de 1978 em sentido presidencialista, aprovou-se em 1979 um Acta de Prevençom do Terrorismo e enviou-se o Exército aos territórios sublevados, mentres que os Támis que viviam no Sul eram objecto de umha crescente violência social.

O conflito étnico converteu-se assim em guerra, trás um atentado no que os Tigres abaterom em Julho de 1983 a treze soldados. A populaçom cingalesa voltou-se no Sul contra todos os Támis que toparom, massacrando a milhares deles e forçando a fugida de outros 90.000 ao Estado indiano de Támil Nadu. Os campos de refugiados dos arredores de Madrás converterom-se em ninhos onde os grupos támis recrutavam os seus combatentes (que chegariam a 6000). Após umha tentativa de reuniom em 1984 dos cinco grupos mais importantes, os Tigres acabarom por se impor polo expeditivo método de dar morte aos quatro rivais da Organizaçom Popular e Libertaçom de Eelam Támil (PLOTE), Organizaçom de Libertaçom de Îlam Tamil (TELO), a Frente de Libertaçom Revolucionaria Popular de Îlam (EPLRF) e do EPDP. Nom lhes custou muito apoderar-se da zona da península de Jaffna.

Em Julho de 1987 o exército do Sri Lanka lança a primeira operaçom militar no seu próprio solo desde a independência do país com o objectivo de expulsar os simpatizantes dos Tigres do Támil de Jaffna, onde viviam 750.000 pessoas assediadas polo Exército e bombardeadas pola aviaçom, sem subministros e com umha taxa de desemprego do 40%.

A solidariedade que esta situaçom despertou no sul da Índia, que conhecia à sua vez um movimento nacionalista dravídico, acabou envolvendo o Governo indiano no conflito, fazendo de mediador para conseguir a abertura de negociações entre as duas partes, primeiro em Thimpo (Bhutám), e porfim em Colombo, a capital de Sri Lanka. Fruto indirecto destes encontros foi o Acordo Indo-Lanka de 1987, polo que o governo cingalês se comprometeu a criar uns Conselhos Provinciais que conferiam certos poderes a todas as províncias da ilha, e nom só às Támis, o que se supunha resolveria o conflito. A Índia comprometia-se a enviar a Sri Lanka umha força militar de paz duns 45.000 homens que supervisaria o cumprimento do Acordo e desarmaria os grupos támis.

O Acordo, que com todas as suas limitações dava forma institucional por vez primeira ao carácter multiétnico e plurinacional da ilha, foi aceitado ao princípio pola oposiçom cingalesa e polos Tigres do Támil, que respeitarom durante certo tempo um cessar-fogo embora nom se implicassem nas eleições derivadas dele. Estas celebrarom-se no sul cingalês em Abril de 1988, e no Norte e Leste támis em Novembro desse ano, com presença indiana. Aqui, a Frente Revolucionária do Povo de Eelam ganhou-as amplamente.

Ao cabo de ano e meio os Conselhos Provinciais criticarom as limitações legais derivadas dumha emenda constitucional que devolvia ao Governo central competências que foram outorgadas em matéria de ordenamento rural, polícia, segurança, educaçom e administraçom pública. Aliás, as tropas indianas de paz pronto se converterom em forças repressivas. O governo de Sri Lanka pediu em 1989 a retirada das forças indianas e iniciou novas negociações com os Tigres. Os Conselhos Provinciais do Norte e Leste proclamarom pola sua parte o Estado Támil independente, polo que forom dissolvidos.

Em Março de 1990, dous meses depois da retirada indiana, as negociações romperom, reanudando-se no Norte umha guerra a grande escala. Os Tigres, aos que se atribuiu o assassinato em atentado do ex-presidente indiano Rajiv Gandhi em 1991 derom morte ao presidente de Sri Lanka Premadas em 1993. Kumaratunga, viúva dum líder da Frente Popular abatido polos Tigres em 1988 e filha do assassinado Bandaranaike, ganhou as eleições em Novembro de 1994 contra outra viúva, cujo marido, líder do UNP Disanayake, acabava de ser assassinado em atentado um mês antes.

Contrariamente ao UNP, o programa da Frente Popular contemplava reiniciar as negociações de paz com os Támis, rotas em 1990, a fim de relançar e melhorar o projecto que convertera a Sri Lanka numha uniom de províncias autónomas dotadas dum alto grau de autonomia nos oitentas. Mas o cessar -fogo acordado polos tigres em Janeiro de 1995 foi roto quatro meses mais tarde ao exigir-lhes o desarmamento como condiçom para iniciar as conversas de paz. A ofensiva lançada polo exército do Sri Lanka em Outubro de 1995 culminou em Dezembro de 1996 com a tomada do quartel geral támil na península de Jaffna.

Em 30 de Janeiro de 1996 um sangrento atentado dos Tigres num banco de Colombo causava um centenar de mortos. Em Julho, os Támis, que ao ser expulsos de Jaffna se atrincheiraram na selva, atacarom umha base militar causando mil baixas ao exército do Sri Lanka. A ofensiva terrestre, aérea e naval lançada polo governo contra o quartel geral dos Tigres em Killinochi nom acabou com a sua resistência.

Em Maio de 1997, 20 mil soldados governamentais nom dá organizado umha linha de fornecimento cara Jaffna através da zona de Vanni controlada polos LTTE. Nestas operações a populaçom civil é habitualmente assassinada en cada lado.

Em Março de 1999 durante a Operaçom Rana Gosa o exército cingalês invade o distrito de Vanni polo Sul, conquista vários territórios, mas nom consegue derrotar os Tigres na regiom. Em resposta, estes lançam umha ofensiva com a Operaçom «Ondas Incessantes», retomando os territórios ainda ocupados polo exército.

Em Abril de 2000 os Tigres lançam umha nova ofensiva em direcçom ao norte e atacam a Passagem dos Elefantes onde se reagrupam 17.000 soldados cingaleses. Em 22 de Abril tomam o controle desta zona estratégica que corta a península de Jaffna do distrito de Vanni desde 17 anos.

Os Tigres instauram unilateralmente um cessar-fogo em Dezembro de 2000. Em Abril de 2001 o exército governamental lança a operaçom Agni Khiela tentando retomar, sem sucesso, o sul da península de Jaffna.

Após vários anos de guerra civil e de embargo económico na parte norte da ilha, o país entra entre 2002-2005 num período conhecido como «pós-conflito». Os Tigres, que controlam a costa oeste da ilha e una zona circunscrita no norte, moderam as suas exigências e procuram umha autonomia económica e política no seio do Estado cingalês, declarando que a luta militar nom é um bom método para atingir os seus objectivos. No fundo, após os atentados terroristas de 11 de Setembro nos Estados Unidos, acha-se o receio dum possível apoio internacional para o exército do Sri Lanka, ou mesmo sobre um possível ataque internacional.

Aliás, a poderosa guerrilha Támil é umha das poucas que conta com umha marinha de guerra (Tigres Marinhos), com capacidade de levar a cabo batalhas navais para controlar as vias e aprovisionamento da ilha. Igualmente, umha unidade chamada Tigres Negros é a encarregada de organizar atentados suicidas contra as forças regulares. Desde 1987, ano do seu primeiro ataque suicida, esta unidade realizou mais que qualuqer outra organizaçom no mundo. As táticas usadas polos tigres do Támil resultarom na sua classificaçom como organizaçom terrorista nos EE.UU., no Brasil, na Austrália, na UE e no Canadá.

Para retomar a iniciativa o governo cingalês aumenta o orçamento da defesa (5% do PNB) e os efectivos do seu exército (aumento do 500% entre 1985-2005). Nestas condições em 2005 o exército do Sri Lanka rompe a trégua desistindo ao cessar-fogo em repetidas ocasiões. Em 2008 a coaligaçom de governo central na Índia, integrada pola primeira vez polo partido pró-támil, viu-se abalada pos protestos baseados no nacionalismo támil, para que começasse a apoiar os támis de Sri Lanka e do qual se esperava mais apoio indiano para com os támis no Sri Lanka. Todos os partidos támil do Estado indiano do Támil Nadu exigirom o cessar-fogo imediato. Como contrapartida, os támis do Sri Lanka acusam o próprio povo támil indiano de apoiar os Cingaleses.

As sucessivas ofensivas governamentais desde 2007 fam recuar o território controlado polos independentistas támis. A partir de Novembro de 2008 o exército cingalês começou umha ofensiva indiscriminada sem precedentes que consegue, a partir de Janeiro-Fevereiro de 2009, ocupar todas as cidades controladas polos Tigres támis, incluída Kilinochchi, a «capital» rebelde. Os Tigres, que começam a recuar em larga escala, solicitam um cessar-o-fogo que é rejeitado polo governo.

Em 25 de Abril de 2009 os independentistas ficam confinados numha zona de 48km2 rodeados polo exército cingalês, mas a presença de mais de 50.000 civis complicam a situaçom humanitária. E, 16 de Maio os Tigres perdem o seu acceso ao mar, vital para o seu fornecimento. O dia 17 os independentistas támis anunciam o fim dos combates e a deposiçom de armas. Mais de 250 dirigentes e quadros dos Tigres som abatidos nos últimos combates nas praias de Mullaitivu. Em 18 de Maio as autoridades cingalesas anunciam a morte de Velupillai Prabhakaran, dirigente histórico dos Tigres. O governo de Sri Lanka declara a derrota militar final dos Tigres do Támil.

Segundo as Nações Unidas, o último ataque governamental causou o desalojamento de 265.000 pessoas em campos de refugiados, a morte de mais de 6.500 civis e 14.000 feridos.

BIBLIOGRAFIA

«Juego de espejos: conflictos nacionales centro-periferia». F. Letamendia. Edit. Trotta (1997)

MAPAS
FIGURA 1
Percentagem de Támis por distrito segundo os recenseamentos de 2001.

FIGURA 2
Situaçom em Dezembro de 2005. Em vermelho, zonas controladas polos Tigres. Em laranja, zonas controladas polo governo com áreas controladas polos Tigres. Em amarelos, zonas controladas polo governo e reivindicadas polos Tigres para um Estado támil independente.

FIGURA 3
Situaçom territorial em Julho de 2007.

FIGURA 4
Zona reivindicada (em verde) polos Tigres támis e território controlado de facto (limites aproximados em amarelo) no momento do lançamento da ofensiva governamental de 2008-2009.




sábado, 16 de maio de 2009

Desenterrando a McCarthy: a ilegalização de Iniciativa Internacionalista

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A candidatura ao parlamento europeu Iniciativa Internacionalista, encabeçada polo dramaturgo madrilenho Alfonso Sastre e pola avogada castelhana Doris Benegas, e integrada por outras persoas a título individual (o "nosso" X. L. Méndez Ferrín no posto nº 6) assi como por diversos partidos de esquerda (Izquierda Castellana, Corriente Roja), vem de ser ILEGALIZADA polo estado espanhol. A excusa é que esta lista teria sido apoiada (em segredo!) por Batasuna. A lista de Unidá Nacionalista Asturiana, integrada unicamente por gente de Asturies, estivo a piques de ser ilegalizada também polo mesmo motivo. Polo visto, o ridículo das acusações (que lembram a paranoia anticomunista do McCarthysmo -de aí o clássico dos REM que serve de banda sonora a este texto) e a extrema gravidade da medida não abondam para que os meios de comunicação lhe prestem a devida atenção -- não sendo polos clássicos arroutos da covacha fascista. As forças políticas "de esquerda" estão a ficar retratadas neste processo: mentres que Aralar ou ERC já amosárom a sua solidariedade, o BNG cala a boca, e IU mesmo exigiu a alguns dos seus membros que tinham avalado a candidatura a retirada de ditos avais. Vergonha deveria de dar-lhes, quando todo um prémio Nobel da Paz como Pérez Esquivel já enviou uma carta a Zapatero manifestando a sua repulsa pola ilegalização.

Outra Esquerda condena energicamente (isto é, com a pouca energia que poda ter) a ilegalização da candidatura de Iniciativa Internacionalista [sem que isto implique que coincida com as suas posturas].

Actualização: Finalmente (22 de maio), o Tribunal Constitucional espanhol rectificou ao Supremo e permitiu a apresentação da candidatura de Iniciativa Internacionalista.  O dia seguinte (23 de maio), a "esquerda abertzale de toda a vida" pedia publicamente, por boca de Arnaldo Otegi, o voto para esta candidatura. Os macarthynhos devem estar a botar escuma pola boca! XD 

X.M. Álvarez Blázquez: em 1978, sonhando a Galiza de 2002

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Na web de Celso Álvarez Cáccamo podem-se atopar diversos materiais sobre a vida e obra de seu pai, Xosé María Álvarez Blázquez. Fixei-me especialmente em 3 citações suas, extraídas da obra "Galicia 2002 a través da imaxinación creadora", um seminário de trabalho transcorrido em 1977. São umas fermosas visões da Galiza do "futuro", um futuro que para nós já é passado. Pola sua força inspiradora, polo seu sensato idealismo, recomendo vivamente a leitura das três (não leva mais de 10 minutos). As ligações para duas delas são as seguintes: "Da sociedade em 2002", e "Do ensino em 2002". A terceira, titulada "Do campo e a cidade em 2002", reproduz-se a seguir:

"Creo que nesta revalorización que pretendemos, do home e da terra, imponse a necesidade dun retorno á Natureza, mediante contactos coa súa realidade. É un feito evidente que unha grande parte dos galegos que hoxe viven nas cidades ignoran a vida do campo ou, o que é peor, están de costas a ela. Non por vontade propia, xeralmente, senón por imperativos do seu propio estilo de vida. É un fenómeno mundial, pro entre nós resulta máis dramático polo feito de ser Galicia unha terra, unha paisaxe, unha pura e apretada Natureza, e non unha simple xeografía; e tamén, naturalmente, pola entrañable ligazón telúrica que entre nós se dá. Non poder realizar esa comunicación home-terra é orixe de traumas. Eu véxoo nos meus fillos, que teñen pena de non coñecer os nomes das plantas e dos paxaros, de non saber distinguir unha arbre froiteira doutra, de non ter asistido ou colaborado nos labores agrícolas. É certo que os homes da cidade escapamos ao campo e á praia tan axiña como podemos, pro son contactos fugaces e superficiáis, que aínda fan máis dorido o desarraigo. Por iso creo que no ano 2002 todo galego que o desexe deberá dispor dun anaco de terra, senón de seu, formando parte dunha explotación colectiva, perto da cidade, onde lle sexa posíbel pasar os fins de semana e algunha temporada de vacacións ao ano, traballando a súa parcela. Poderá plantar legumes ou coidar roseiras, sementar patacas ou atender unha granxa; colaborar en traballos comúns ou realizalos ao seu gusto, illadamente; en todo caso vivirá en contacto coa terra, sentiráse revalorizado coo galego e contribuirá co seu esforzo á revalorización da propia terra, porque o que eu propoño non é un puro divertimento. Eu vexo esas explotacións colectivas como o nexo físico, espiritual e social entre a cidade e o campo, ou, se se prefire, da cidade-campo proposta por Cunqueiro. E tamén soño con que o campesiño pase as súas vacacións nas cidades marítimas ou nas praias, coa súa familia. O binomio home-terra hase cumplir no individuo mesmo, na súa mesmidade, e non como ser gregario".