domingo, 17 de janeiro de 2010

Mil dias: a experiência chilena da Unidade Popular (e III)



Por fim! Vítor Manuel Martins escreve, em exclusiva para outraesquerda, a 3ª e derradeira entrega da crónica da unidade popular chilena.

UNIDADE E OFENSIVA DA UP

O mesmo dia da sua tomada de pose, o Presidente Allende nomea o seu primeiro governo composto por 4 ministros socialistas (Interior, Negócios Estrangeiros, Habitaçom e urbanismo e Secretaria Geral), 3 comunistas (Fazenda, Obras Públicas e Trabalho), 3 radicais (Educaçom, Defesa e Minaria), 2 do PSD (Terras e colonizaçom e Saúde), 1 do API (Justiça), MAPU (Agricultura) e independente (Economia, fomento e reconstruçom). Nom presença feminina no executivo, mas prevê-se a criaçom dum Ministério da Família que estaria a cargo dumha mulher.
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O «cérebro» económico do governo é o economista independente Pedro Vuskovic, que levaria a cabo o plano de transiçom do capitalismo para o socialismo. O plano de reactivaçom económica posto em marcha basearia-se em dous princípios socializantes: a distribuiçom dos ingressos e a expansom da despesa pública para lutar contra o desemprego e o reduzido peso dos salários no PIB.

Allende nom dispom de maioria parlamentar (a oposiciçom conta desde 1969 com 62% da representaçom no Congresso e 54% do Senado) polo que decide governar por decreto baseando-se num Decreto Lei promulgado em Agosto de 1932, durante a chamada República Socialista e que nom fora derrogado.

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Desde os primeiros dias o Governo puxo-se a trabalhar no cumprimento rigoroso das “40 medidas” do programa da UP, tomando a iniciativa política. Para realizar as transformações estruturais propostas conta com alguns instrumentos legais importantes como a Lei de Reforma Agrária aprovada durante o governo de Frei (1964-70) que, com limitações, permite acelerar a expropriaçom das grandes fazendas. Dam-se igualmente os primeiros passos na construçom da Área da Propriedade Social (APS) com a expropriaçom de empresas e a nacionalizaçom do sistema bancário. Assina-se um Acordo CUT-Governo sobre a participaçom dos trabalhadores na área nacionalizada para alargar a sua participaçom na vida política e também para veiculizar o apoio das bases mobilizadas à nova política económica. Na cena internacional o Governo promove a abertura de relações diplomáticas com os países do bloco comunista: restabelecem-se de imediato as relações com Cuba e mesmo com o regime provisório revolucionário do Vietname do Sul.

Num clima de euforia, em Janeiro de 1971 durante o XXIII Congresso Geral Ordinário do PS impom-se a corrente encabeçada por Carlos Altamirano face o até entom Secretário Geral, Aniceto Rodríguez, mais comprometido com a estratégia política representada por Allende. Destarte o mando político do principal partido do governo ficava a maos dumha direçom pouco comprometida a reforçar a gestom do governo. A este acontecimento Allende refere-se nos seguintes termos: «Nós dixemos que as transformações e as mudanças vam-se fazer dentro da democracia burguesa. E se o companheiro Altamirano estima que devemos ir mais rápido, eu diria-lhe porque nom vamos ir mais rápido. O Presidente do Chile sou eu, e tenho muito respeito polo companheiro Altamirano e direi-lho sempre. Ouvirá a sua comissom política, assim como escuto a opiniom dos demais partidos. Mas, imposições, de nengum chefe de partido e de nengum partido. Tenho a obrigaçom de cumprir o programa da UP dentro do caminho que nos traçamos e disso ninguém me irá afastar».

Ao cabo de cinco meses de estar no Governo, nas eleições municipais de Abril, a UP conseguiu um triunfo ao obter 49,73% de votos face o 48,05% da oposiçom. Retrospetivamente este seria o momento mais acaido, tal como fixo Hugo Chávez em 1999, para aprovar um referendo que permitisse convocar umha Assembleia Constituinte que elaborasse umha nova constituiçom.

Em 11 de Julho o Congresso aprova por unanimidade a Reforma Constitucional que permite a Nacionalizaçom do Cobre e outras riquezas básicas sem pagar indemnizações devido aos grandes lucros obtidos na sua gestom anterior. Allende considerava este recurso natural como o «soldo do Chile» e a sua nacionalizaçom como «a segunda independência» do país.

UNIDADE E OFENSIVA DAS FORÇAS OPOSITORAS
O fortalecimento que supuxo o aumento considerável do apoio popular à gestom do governo tivo a sua contrapartida na sensaçom de impotência na direita, que se debatia em torno a diferentes estratégias. Se bem o PN, dirigido por S. Jarpa com a tutela financeira e técnica da CIA, nom duvidava em apostar polo golpismo, o PDC e a sua base social de apoio debatia-se entre as posições avançadas partidárias da colaboraçom com o governo e a oposiçom frontal da asa de direita encabeçada polo ex-presidente Frei. O assassinato em 8 de Junho de Pérez Zujovic, ex-ministro do Interior do governo de Frei, efetuado por umha chamada Vanguarda Organizada do Povo, permite ao setor freista recuperar a liderança do PDC. A partir de entom produze-se um achegamento de posições com o PN.

Em Julho, no seu Primeiro Congreso, o MAPU assume o marxismo. Previamente Allende e outros setores pressionaram à direçom do MAPU para que nom adoptasse essa definiçom, até o ponto de umha delegaçom do MAPU ter sido convidada a Cuba. Numha conversa de várias horas com o Comandante Fidel Castro, este aconselhou que adoptassem umha definiçom cristá de esquerda com o argumento de que o marxismo já estava representado por vários partidos. Em desacordo com a decisom tomada, um grupo de militantes do MAPU, entre os que figura o ministro de Agricultura, J. Chonchol, formulam a necessidade de criar umha alternativa política para os setores cristãos. A este grupo discrepante unirá-se um setor de militantes contrários à deriva direitista do PDC e de cuja confluência constitui-se o Movimento de Esquerda Cristá (MIC) em Agosto. Esta nova organizaçom postula o apoio do cristianismo popular ao governo de Allende e aspira a expressar numha força socialista a luta do cristianismo libertador.

Durante o seu XXV Congresso (31 de Julho-1 de Agosto), o Partido Radical entra em crise ao assumir, contrariamente ao que o partido historicamente representava, umha linha a favor da «luta de classes e a necessidade de terminar a exploraçom do homem polo homem». Com efeito, a corrente popular a favor do governo era demasiado forte mesmo para as massas da pequena burguesia. Os setores contrários a esta linha, entre os que figuram 5 senadores e 9 deputados, abandonam o partido e constituem o Partido da Esquerda Radical (PIR) «para representar os interesses da classe média». Se bem num primeiro momento nom se atrevem a se manifestar abertamente contra o governo da UP, acabaria passando-se em Março de 1972 à oposiçom contribuindo a solidificar o bloco da direita.

Com relaçom à táticas mais adequadas para a construçom do socialismo e o bom sucesso do Governo popular vam-se conformando duas linhas no seio de forças da esquerda. Segundo o PC todas as forças da UP deviam-se volcar no cumprimento do programa, opor-se às tentativas da ultraesquerda de dentro e de fora (nomeadamente o MIR) e apostar pola açom legal de avançar ao socialismo. Com esta tese concordava o Presidente Allende, o PR e setores minoritarios «allendistas» do MAPU e PS. Por outro lado o MIR (que denunciara publicamente por primeira vez o reformismo da UP em Abril), a direçom do PS e MAPU eram partidários de deixar de lado o programa e lutar polo socialismo. Em Novembro a direçom da UP avisa que, perante a ocupaçom de terras por camponeses fomentadas pola ultraesquerda, as expropriações fariam-se com a lei vigorante. Em contra deste critério a direçom local da UP da província de Linares e o MIR subscrevem umha declaraçom na que se exige umha reforma agraria radical para já.

Entre 11 de Novembro e 4 de Dezembro tem lugar umha visita de Fidel Castro a Chile. Num discurso pronunciado no Estado Nacional, acompanhado polo chefe do governo de Cuba, Allende di: «Defenderei esta revoluçom chilena e defenderei o governo popular porque é o mandado que o povo me entregou. Nom tenho outra alternativa. Só acribilhando-me a balaços poderám impedir a minha vontade que é fazer cumprir o programa do povo». Numha troca de prendas, Fidel entrega-lhe umha metralhadora.

Coincidindo com a visita do mandatário cubano, em Dezembro o movimento de «caçarolas vazias» organizada polas mulheres dos bairros ricos com assessoramento da CIA (reconhecido em 1974) protagonizam violentas manifestações com o pretexto da escaseza, falta ou crescente preço dos bens de primeira necessidade. Um amplo setor da classe média (mobilizam-se até 80.000 pessoas) começa a se aderir, consciente ou inconscientemente, às fileiras do fascismo. Trata-se de um problema que o governo nom pode aplacar porque os deputados da direita negam-lhe os votos para atuar legalmente contra o roubo, a especulaçom e o premeditado desabastecimento de subministros. Assim todo, ao cabo de um ano, incrementarom-se os salários reais um 66%, o desemprego baixou do 8,3% ao 3,8%, o PIB cresceu um 7,7%, a inflaçom baixou em mais de 12 pontos, incrementou-se em 19,4% a taxa de ecolarizaçom infantil, 5,3% a da primária, 15,5% a da secundária e 23,9% a universitária.

Segundo refere Marta Harnecker, a estratégia da direita estivo orientada por seis princípios:
1. Tentar dividir à UP estimulando umha suposta linha divisória entre partidos «marxistas» e partidos «democráticos» e utilizando o fantasma do anticomunismo.
2. Manter a tuda custa o controle dos meios de comunicaçom num momento em que a oposiçom controlava o 86% da imprensa e o 70% das cadeias de radiodifusom existentes no país, entre as que se achavam as cadeias de maior audiência.
3. Defender a propriedade privada usando todos os mecanismos legais e meios de pressom para adiar a APS.
4. A criaçom de umha consciência anti-UP nas forças armadas amplificando tudo aquilo que pudesse dar umha visom «caótica», «anárquica», de «desgoverno ou vazio de poder» ou tendências «totalitárias e antidemocráticas». O ponto central da sua campanha foi a denúncia da existência de grupos armados em detrimento das únicas forças armadas que deviam existir no país.
5. Conquistar as camadas médias para agir contra o governo apoiando-se para isso na sabotagem da produçom mineira, nos colégios profissionais ou utilizando às universidades.
Mas o objetivo fundamental seria provocar o fracasso económico do governo popular. As medidas começam a serem aplicadas imediamente após a vitória eleitoral com a fuga de capitais, o contrabando de dólares, a paralisaçom dalgumhas indústrias, o cesamento da importaçom de matérias primas e peças de resposiçom necessárias para o funcionamento da indústria,...

A partir de 1972 o Congresso inicia umha série de acusações constitucionais em contra dos ministros e altos funcionários do Governo. Para implementar este boicote parlamentar a oposiçom começa a utilizar a maioria simples do Congresso para desacreditar o governo. Mediante as acusações, a oposiçom abre um conflito de poderes entre o Parlamento e o Presidente da República. No apogeu desta campanha, a oposición destitui um alto funcionário da UP cada dez dias em três meses de 1973.

Em Fevereiro de 1972 o Comité Nacional da UP reflexiona sobre a situaçom e as prioridades a encarar. Para o governo, a falta de abastecimentos nom era devida à menor produçom senom ao maior consumo popular criado pola nova política de distribuiçom do ingresso e aos efeitos gerados polo mercado negro. Mais umha vez constatarom-se as diferenças sobre a estratégia a seguir existentes entre consolidacionistas (Allende, PC, PR e um setor do PS) e a asa esquerda (PS, MAPU e MIC). Enquanto os primeiros argumentavam sobre a necessidade de deter o proceso de reformas, consolidar o ganhado e procurar o apoio eleitoral mais amplo antes de avançar, os segundos advogavam por acelerar o ritmo das reformas, aprofundando o processo de nacionalizaçom e de pôr-se à frente das lutas sociais. As diferenças entre uns e outros, no concreto, situavam-se em se o governo deveria ir adiante ou nom na expansom do setor estatal, negociar ou nom com a burguesia na procura dum amplo consenso para implementar a política e assim conquistar à classe média ou lançar-se à luta ideológica para ganhar novos apoios.

Nessa altura o Congresso vota por maioria simples o Projeto Hamilton-Fuentealba do PDC, exigindo um acordo do Congresso para nacionalizar as empresas. O projeto, que visa desmontar as bases legais da APS e da participaçom dos trabalhadores, foi vetado polo presidente.

CRISE DE DIRECÇOM NA UP
Em Março dá-se a conhecer um documento de análise da direçom do PS no que se realiza umha crítica aberta à tese consolidacionista apostando por superar o limites da legalidade vigorante: «Umha vez entramos a discrepar com o PC pola sua conceiçom diferente da forma em que deve gerar-se o novo poder dos trabalhadores. Nós insistimos em que esse poder há que ir conquistando-o progressivamente, em todos os lugares, democraticamente, de abaixo arriba, impondo situações de fato, estejam ou nom explicitados nas leis e regulamentos. Se as massas tomarem a cada vez mais responsabilidade, mais atribuições, nom haverá constituiçom política nem governo capaz de lhes retirar este poder e os direitos alcançados... Enquanto aos (membros do PS) que tenhem relaxado a sua conduta, seremos extremamente severos... ".

Em Maio os filiados da CUT elegem por primeira vez em votaçom direta a sua direçom, dando os trabalhadores um amplo respaldo (67,2%) aos candidatos da UP. Dentro dela o PC obtém a primeira maioria (30,9%) frente o PS (26,4%). Contodo, o PDC mostra um amplo apoio ao obter 26,3% e fazer-se com a direçom provincial de Santiago, o qual vem a demonstrar que nom estava claramente definida por parte da esquerda a política a seguir perante os setores médios.

Esse mês umha nova conferência da UP em Lo Curro eleva o tom da análise sintetizando as diferenças de estratégia em slogans sugestivos: Avançar consolidando, em versom comunista ou Avançar sem patuar, segundo os socialistas. A linha consolidacionista (PC, PR e allendistas do PS e MAPU) imponhem os seus critérios perante a inexistência de umha alternativa clara: nom haveriam futuras incursões contra o capital privado nem tampouco mais desafios ao Estado. Segundo Allende, as concessões à burguesia assegurariam o seu respeito polos procedimentos constitucionais. Com o objeto de romper a frente opositora a conferência da UP decide retomar as suas conversas com o PDC (temporariamente suspensas um mês antes) e reafirmar o seu compromisso. Em consequência P. Vuskovic é substituído no ministério de Economia por O. Millas (PC).

Mais umha vez as diferenças exteriorizarom-se em Concepción, quando a finais de Julho parte da UP local (PS, MAPU, MIC e PR), apoiada polo MIR, pediu umha Assembleia Popular para Chile que substituisse o Parlamento burguês. O PC autoexclui-se do projeto, qualificando-o como «umha manobra reacionária e imperialista, que usava a elementos da ultraesquerda como escudos». Allende condena duramente a proposta, argumentando que criar um poder dual no Chile era um ato de «marcada irresponsabilidade», porque o governo do Chile representa os interesses de toda a classe traballadora. Se bem PR ou MAPU retificarom, o PS respondeu afirmando que essa Assembleia era «umha grande tarefa que se deverá desenvolver nas comunas que ofereçam asmelhores condições».

PARO DE OUTUBRO: AGUDIZAÇOM DOS CONFRONTOS
Entre 11 de Outubro e 5 de Novembro tem lugar o chamado «paro de Outubro», que viria agudizar ainda mais o conflito entre o governo e a oposiçom. Os empresários decidem paralisar a produçom, unido à greve dos camionistas e colégios profissionais. A CUT instrui os trabalhadores a tomar os postos de trabalho e responsabilizar-se da produçom. As massas, compreendendo o perigo, respondem com umha mobilizaçom que logra frustrar a tentativa contra-revolucionária: as empresas abandonadas polos patronos som ocupadas polos trabalhadores organizados em Cordões Industriais para manter a produçom. Criam-se as Juntas de Abastecimento e de Preços para assegurar a distribuiçom e comercializaçom de produtos de primeira necessidade ameaçados pola especulaçom, o açambarcamento e o feche dos negócios e os Comandos Comunais para coordenar a nível local as tarefas de manutençom dos serviços públicos.

O exército, encabeçado polo Comandante-em-Chefe, o general Carlos Prats, impede a extensom do caos às cidades e comunicações. O Governo atua com firmeza: Allende forma um executivo cívico-militar onde, junto a ministros da UP e da CUT, participam membros das forças armadas que pom fim ao paro. O general Prats é designado Ministro do Interior e iniciam-se negociações com a direita e os dirigentes patronais. Os trabalhadores organizados nos Comités Coordenadores manifestam a súa rejeiçom à decisom da UP, crítica à que se adere o PS contra umha «saída que escamoteia umha vitória na fase decisiva do processo» e solicita a criaçom do poder popular. Altamirano reivindicou as «exigências de poder que as massas organizadas exercerom de fato através de múltiplas formas, entre elas os Cordões industriais, os Comandos comunais, as frentes patrióticas, surgidas durante a crise de Outubro».

PERÍODO DE TRÉGUA. A LUTA TRASLADA-SE AO TERRENO ELEITORAL
Num dramático discurso pronunciado em 2 de Dezembro perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, o Presidente Allende denuncia «o bloqueio invisível» do que é vítima Chile por parte das grandes companhias multinacionais. Os créditos destinados a Chile polo BID, o FMI e o BM a partir de 1970 cairom a cifras simbólicas, o que tornou o país num devedor nom solvente nos mercados financeiros internacionais. Aliás, a queda em movimentos político-especulativos do preço do cobre, principal fonte de divisas do país, deteriorou drasticamente a economia, paralisando a política salarial que permitira o clima de adesom ao governo entre o operariado e os setores medios-baixos durante o primeiro ano.

Na procura de apoio para resolver os problemas derivados do boicote interno e externo, Allende viaja à URSS com o propósito de conseguir um crédito de 500 milhões de dólares, que se requeriam para safar as dificuldades mais imediatas. Porém, o governo soviético apenas concedeu um crédito de 27 milhões de dólares en matérias primas e produtos alimentares acrescentando 20 milhões de dólares a um crédito anterior.

Em Janeiro-Fevereiro de 1973 abre-se umha nova fonte de conflito público no seio da UP: o PS através de Altamirano defende numha carta remetida a Luís Corbalán, Secretário Geral do PC, o desenvolvimento de organizações independentes do governo como os Cordões Industriais. Na sua resposta, L. Corbalán manifesta: «Um poder popular independente do governo? Eis o objetivo do MIR. Mas acontece que quem está, como já se tem dito, sob o fogo do imperialismo e da olgarquia, dos Jarpa e dos Frei, e a quem estes querem derrocar, nom é o fantasmagórico poder popular independente do governo do que fala o MIR e que só existe na cabeça quente dos seus dirigentes, senom ao governo do Presidente Allende, que é um fato real, concreto, umha conquista do povo, que por acima de todo há que defender para seguir avançando mais e mais».

Em Março o MAPU, que se declarara marxista-leninista no seu Segundo Congresso (Outubro 1972), sofre umha racha: o MAPU Operário e Camponês (MAPU-OC), mais moderado e afim às teses de Allende, reclamando para si a herança teórica e política do projeto original. O MAPU-OC postula a formaçom dum «terceiro partido proletário» e a necessidade de configurar umha direçom única da revoluçom chilena com comunistas e socialistas. Sostém que o governo de Allende é «a principal conquista revolucionária lograda pola luta popular e democrática» e apoia decididamente as tendências que no seio do governo procuram um entendimento político com as forças armadas constitucionais e o PDC e qualifica à reaçom de diretia contra o governo popular como «fascista». As duas frações seguem participando na UP e concorrem às eleições.

As contradições acima assinaladas fixerom que em 1973 a UP nom existisse como aliança política efetiva ao estarem paralisadas as relações entre os seus membros, preferindo o entendimento direto com Allende quem compreendeu -através da prática- que o grau de homogeneidade e de concerto da UP era insuficiente. Enxergou entom a possibilidade de converter a aliança num bloco político com umha conduçom única, na que os diferentes partidos que o integram passariam a constituír segmentos desse bloco aos que propuxo chamar «destacamentos», distinguidos polo nome do mais relevante referente de cada um deles. Os socialistas haveriam-de denominar-se Destacamento Eugenio Matte; os comunistas, Destacamento Luís Emílio Recabarren; os radicais, Destacamento Pedro Aguirre Cerda; os partidos de origem cristá, Destacamento Rafael Luis Gumucio, e assim, os demais partidos da UP. O presidente tentou dar forma a esta iniciativa a propósito das eleições parlamentares de 4 de Março de 1973, logrando que os partidos de esquerda inscrevessem as suas candidaturas como Partido Unido da UP. Mas naquela ocasiom nom se davam as condições para dar esse grande salto adiante no processo da profundizaçom da unidade política das forças populares chilenas.

Nessa altura a oposiçom propom-se outra meta: o «golpe branco, isto é, obter umha alta votaçom (2/3) nas eleições parlamentares, logrando assim a maioria necessária no Congresso Nacional para destituir «legitimamente» a Salvador Allende. Também fracassam: a UP logra o 43,9% de votos, superando o 36,3% obtido em Setembro de 1970, e a oposiçom obtém um 54,7%. Dentro da UP, enquanto o PC consegue manter o seu eleitorado (16,2%), o PS duplicava votos (18,4%).

Entom Pablo Rodríguez, chefe de Patria y Libertad (PyL), formula que nom se pode esperar até as eleições presidenciais de 1976, porque para entom «os marxistas alcançarám o 80% de votos». Este grupo terrorista constitui umha ínfima porçom do movimento de massas da oposiçom, mas a sua ideologia fascista gravita entre alguns partidos opositores e as forças armadas.

A OFENSIVA FINAL DA OPOSIÇOM
Doravante a Casa Branca e a oposiçom compreendem que os mecanismos da democracia representativa já nom lhe servem. Os votos que obtém a UP demonstram que os anseios de mudança social nom recuaram, apesar dos milhões de dólares investidos polo governo norte-americano. A partir de entom, a estratégia da oposiçom democrática será, paradoxalmente, a estratégia do golpe de estado.

Em Abril a oposiçom acha um pretexto para continuar a agitaçom social perante o projeto de reforma educativa do governo. Por primeira vez umha quantidade estimável de estudantes deixa-se instrumentalizar polas classes mais privilegiadas. Os partidos de direita, os profissionais, as agremiações de comerciantes amparam a desordem na rua. Para recuperar o pulso social, a CUT convoca um ato de massas em apoio do Governo.

Ao tempo, desata-se outro conflito: por primeira vez a oposiçom atrai um setor do proletariado. Na mina El Teniente, umha parte dos trabalhadores declara-se em greve por causas económicas. O principal objetivo da oposiçom é paralisar a mina, fonte do 20% das divisas. A maioría de trabalhadores nom secundam o protesto mas o setor grevista, alentado pola direita, rejeita as fórmulas de soluçom: é importante que nas mobilizações se produzam vítimas para acusar o governo de repressom. A oposiçom fracassa na súa tentativa de espalhar a greve à minaría do cobre. Os estudantes da Universidade Católica convertem-se nos principais agitadores dum paro só secundado polo 25% do pessoal da mina. Em 21 de Junho a CUT convoca umha grande mobilizaçom contra o fascismo à que assistem 500 mil pessoas. Após setenta días finaliza a greve do cobre a custa de milhões de dólares ao Estado. Pode-se dizer que os adversarios de Allende ensaiarom quase tudo para derrocar o seu governo. Apenas fica um recurso por utilizar.

Em plena greve do cobre, o regimento blindado nº2, pertencente à II Divisom do exército em Santiago, protagoniza em 29 de Junho um levante militar contra o governo. Os sublevados tentam tomar de assalto o palácio do governo enfrontando-se às forças dirigidas polo chefe do exército, C. Prats, quem logra obter a rendiçom dos golpistas. A operaçom, conhecida como El Tanquetazo, resultou dumha aliança entre PyL e militares. Mas quando o governo quixo implantar o estado de sítio, o Congresso, com a sua maioria de PN e PDC denegou tal pretensom por 51 votos a 82.

O golpe abortado mostrou que a iniciativa era da oposiçom e que o Goveno estava encurralado, sem resortes legais ou de fato para responder às agressões. A tática político-institucional de Allende repousará em três ações: proporcionar um acordo com o PDC, privar à direita do respaldo militar e abrir a via do plebiscito. Com efeito, Allende propom a realizaçom dum plebiscito sobre o seu mandato. Se o ganhasse, o golpe tornaria-se improvável, e se perdesse retiraria-se nom polas pressões opositoras senom polo mandato popular. Mas o Comité da UP rejeita a proposta pois para o PS, MAPU e MIC «seria umha renúncia aos logros alcançados».

Na procura de soluções institucionais e de ruptura da aliança da direita, Allende pediu ao PDC umha via de diálogo com a mediaçom do cardeal R. Silva Henríquez, na que chegaria a oferecer duas pastas no governo a essa formaçom. No seio da UP, PC, PR e MAPU-OC consideram conveniente esse diálogo face a oposiçom de PS, MAPU e MIC. Para boicotar o diálogo e paralisar o país em dia 27 de Julho declara-se umha segunda greve indefinida do transporte. Os grevistas som financiados com 5 milhões de dólares pola CIA. Após duas entrevistas Patricio Aylwin, em nome do PDC, anuncia o fim das conversas e em 13 de Agosto adere-se à greve.

Enquanto se agrava a greve dos camionistas e outros coletivos empresariais, sucede-se umha vaga de atentados terroristas da extremadireita para disuadir a quem estiver pensando em abandonar um paro que conseguira deixar sem abasto os núcleos urbanos. Aliás, entre Julho e Agosto, em aplicaçom dumha Lei de Controle de Armas, as forças armadas invadem até em 27 ocasiões os bairros operários, empresas ocupadas, sedes de partidos, sindicatos e organizações da esquerda sob a escusa da procura de armamento que E. Frei e a imprensa de direita, El Mercurio à cabeça, vinha denunciando. Estas ações permitiam conhecer o terreno no que iam ter que atuar mais tarde, valorar a reaçom dos trabalhadores indefensos e vigiar o comportamento dos soldados.

Em 9 de Agosto Allende tenta romper a greve nomeando outro governo, chamado de «segurança nacional» no que participam os três chefes das forças armadas. Este novo governo é recebido com a oposiçom do PN, divisom de opiniões no PDC e a dúvida da esquerda. Dous dias depois, PC e PS apoiam a decisom de Allende. Porém, quando tentam pôr fim à greve, as iniciativas dos altos mandos militares batem com a oposiçom dumha maioria de oficiais que simpatizam com o paro, pondo em evidência a implicaçom de umha parte do aparelho militar na ofensiva contra o governo.

Entrementres em Valparaiso um grupo da Marinha deteta a conspiraçom e informa a três dirigentes da esquerda (PS, MAPU e MIR), fato que é oportunamente desvelado, servindo à oposiçom para denuniciar a subversom marxista no seio das forças armadas.

Em 22 de Agosto o PDC apresenta um projeto de acordo declarando ilegal o Governo popular que é aprovado por maioria simples (81 votos contra 47) da Cámara de Deputados. O acordo, sem força legal, assinala que o Governo estaria quebrantando a constituiçom e convida ao exército a intervir. O setor fascista do exército manobra e logra a renúncia, em dia 23, do general Prats aos seus cargos de ministro de Defesa e Comandante-em-Chefe do exército, sendo substituído neste último por Augusto Pinochet. Som dous passos decisivos para o golpe.

Pola sua parte, o Governo conta até o fim com o respaldo da maioria dos trabalhadores. Na comemoraçom do terceiro aniversário da Vitória celebrada em 4 de Setembro, mais de 800.000 pessoas manifestam o seu apoio a Allende. Três dias depois e perante a incapacidade de acordo da UP, Allende informa aos seus colaboradores, entre eles Pinochet, que seria convocado um plebiscito para resolver pola via democrática a continuidde do governo. A data marcada para dar a conhecer publicamente a data da celebraçom do plebiscito é o dia 11 de Setembro.

Perante o povo mobilizado, mas desarmado, vai entrar em açom o derradeiro recurso da oposiçom interna e do Departamento de Estado norte-americano. Em 11 de Setembro a Armada desencadea o golpe de estado no porto de Valparaiso. Ao mesmo tempo, quatro vasos de guerra norte-americanos estavam na costa para participar na operaçom e mantenhem contato direto com os golpistas. O Presidente Allende chega ao Palácio presidencial de La Moneda para impartir instruções mas a situaçom é crítica ao nom existir um plano conjunto para a defesa armada do governo. Durante a madrugada a maioria de oficiais constitucionalistas som neutralizados. Os chefes sublevados, autoproclamados comandantes em chefe, exigem a renúncia do Chefe do Estado e oferecem-lhe um aviom para abandonar o país. Às 9:15h Allende dirige por rádio as últimas palavras à naçom:
« Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarám outros homens este momento cinzento e amargo em que a traiçom pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirám as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores!
Estas som minhas últimas palavras e tenho a certeza de que o meu sacrifício nom será em vao. Tenho a certeza de que, polo menos, será umha liçom moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição ».

Ao cabo de várias horas de resistência os militares enviam a Allende um ultimato: se nom se rendir a aviaçom iniciará o bombardeamento. Ao lado do Presidente, que rejeita a rendiçom, ficam 40 combatentes civis prontos a afrontar o ataque. Apesar do bombardeamento os defensores do Palácio resistem três horas. Ao mesmo tempo, produzem-se pequenos combates em vários lugares de Santiago e províncias. Às 14:15h Allende morre em La Moneda. Às 21h os chefes da sublevaçom apresentam-se publicamente ao país.

A partir de 11 de Setembro todos os recursos do exército chileno som utilizados para reprimir o movimento popular. A primeira resistência armada oferecida por alguns Cordões Industriais, populaçom, minas e centros agrícolas é esmagado rapidamente numha luta desigual. Centos de pessoas perdem a vida e os principais campos desportivos convertem-se em campos de concentraçom. O sucesso dos golpistas deveu-se ao grande apoio prestado polo governo norte-americano, o imperialismo, os fazendeiros e a oligarquia financeira. Mas nom era fatal que triunfasse; aconteceu ajudado polos erros da UP e o seu governo.

A democracia representativa mais longa da história da América Latina deixou de existir. Porém, a partir do mesmo dia 11 de Setembro as forças democráticas começam a se reorganizar devagar na clandestinidade adoptando inúmeras formas de resistência.


BIBLIOGRAFIA:
- ESTUDIAR EL PASADO PARA CONSTRUIR EL FUTURO. Reflexiones sobre el gobierno de Allende. M. Harnecker (2003)
- EL CHILE DE ALLENDE. P. A. Vives. Historia 16 (1994)
- ENTRETIENS AVEC ALLENDE SUR LA SITUATION AU CHILI. R. Debray (1971)
- LA VÍA CHILENA HACIA EL SOCIALISMO. Recolha das intervenções públicas e documentos durante os seis primeiros meses de mandato de Allende. (1971)
- LA BATALLA DE CHILE (filme-documentário). P. Guzmán (1979).


FOTOS
FOTO 1: Fotografia oficial do Primeiro governo de Salvador Allende.
FOTO 2: Allende acompanha a Fidel Castro durante a visita oficial deste ao Chile.
FOTO 3: A última fotografia do Presidente Allende, pronto a resistir em La Moneda, da que nom sairia vivo.

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