sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Murray Bookchin: ecologia social e municipalismo libertário

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Ocupo-me hoje de alguém cuja obra, devo admitir, ainda não conheço em profundidade. Porém, o que fum descobrindo dela até o momento amosa uma notável sintonia com a linha deste blogue. E é que Murray Bookchin (Chicago, 1921-Burlington, 2006) foi uma das referências do socialismo libertário, alguém que defendeu ideias de democracia de base, descentralização, autogestão ou como se lhe queira chamar; e que as combinou com um ecologismo adiantado ao seu tempo. Desprezava dogmas e fugia de etiquetas: uniu-se às mocidades comunistas com 9 anos, para ser expulsado aos 18 por desviações trotskistas. Desilusionado também com o trotskismo, aginha virou cara o anarquismo, etiqueta que se colgaria durante décadas mas que chegou a rejeitar (em favor do comunalismo) nos seus últimos anos de vida.

Uma completa biografia escrita (em inglês) pola sua companheira Janet Biehl pode-se consultar em Anarchist Archives. Mas o texto que resulta verdadeiramente interessante, por crítico e profundo, é um reconto da sua vida e obra feito polo seu colaborador Chuck Morse, o qual está disponível (traduzido ao castelão) com o título Ser un bookchinita. Recomendo encarecidamente a leitura dessas páginas; o que conto a seguir está sacado maiormente delas e de alguma mais, como a sempiterna Wikipédia.

As contribuições de Bookchin começam na década dos '50, na que escreve alguns artigos de corte ecologista nos que expressa a sua preocupação polos efeitos adversos da contaminação e outras consequências do desenvolvimento. Nesta linha publica em 1962 Our Synthetic Environment, com um enfoque similar ao do Silent Spring de Rachel Carson, o qual apareceria pouco despois. Em Ecology and Revolutionary Thought, de 1964, apresenta a ideologia da ecologia social, proposta que combina a nível político ideias da ecologia e do anarquismo. Este trabalho considera-se o primeiro em avogar por uma acção política radical de base ecológica; e exerceu, junto a outros publicados ao longo da década dos '60, uma grande influência na Nova Esquerda americana. Muitas destas obras seriam recolhidas no livro Post-scarcity anarchism (Anarquismo post-escassez, 1971).

Dende finais dos '60 até começos dos '80 adicou-se em parte à docência, tanto no Instituto para a Ecologia Social que el mesmo fundou como noutras instituções. Na década dos '80 influiu no desenvolvimento do movimento verde a escala mundial, particularmente nos Verdes alemães e dentro deles na ala mais radical, os fundis. É nesta altura quando aparecem duas obras fundamentais: The ecology of freedom: the emergence and dissolution of hierarchy (1982), e The rise of urbanization and the decline of citizenship (1986), reeditada mais tarde como Urbanization without cities e From urbanization to cities. No primeiro apresenta a dominação da natureza como produto da dominação social, e considera a hierarquia e a dominação como formas mais poderosas de opressão que a classe e a explotação. No segundo apresenta o seu projecto político definitivo, o municipalismo libertário. Avoga por assembleias democráticas de base nos diferentes níveis do local, nos que seja possível a democracia direta. Um resumo destas ideias pode-se consultar online (em inglês) num artigo publicado em 1991. E uma mostra mais reduzida está disponível no nosso idioma em GalizaLivre.

Bookchin diferenciava entre a ecologia autêntica, radical, que el defendia, e o mero ambientalismo. Mas também criticava correntes como o primitivismo ou a ecologia profunda às que, mália o seu radicalismo, considerava contraproducentes por individualistas (e portanto contrárias à mobilização de massas propugnada polo libertarismo) e por proclives ao misticismo e irracionalismo. Sua é a expressão lifestyle anarchism ou "anarquismo de estilo de vida", que el contrapunha, de forma depreciativa, ao anarquismo social. O livro no que apresentou essa diferença em 1995 gerou um extenso debate na comunidade anarquista, dentro da que criou divisão e enfrontamentos talvez mais alá do desejável. Nessa década, a dos '90, o seu rechaço ao individualismo que el via presente em muitos âmbitos do anarquismo levou-no a rejeitar esta última doutrina, com a que se identificara durante décadas, e a defender no seu lugar o comunalismo. Uma mudança de nome que não implicava nenguma renúncia ideológica senão, pola contra, uma aposta mais decidida pola dimensão social e transformadora do movimento.



4 comentários:

O Garcia do Outeiro disse...

Muito bom artigo, reproduzo-o no nosso blogue, aguardo que nom incomodá-lo por isso. Umha aperta irmandinha

http://revoltairmandinha.blogspot.com/2010/08/murray-bookchin-ecologia-social-e.html

Sr. J disse...

Obrigado, Garcia, por suposto estou encantado de que reproduzas o artigo. A ver se nos vemos em persoa nalguma ocasião! (p.ex no vindeiro congresso do Encontro, não?) Uma aperta!

O Garcia do Outeiro disse...

O meu nome real é Antom Fente e para mim também seria um prazer conhecer-te, ora no vindouro congresso do Encontro ora em qualquer outro acto onde admitam predicadores ;-) Estivo você na Rolda de Rebeldia ou nalgum acto desse teor para poder-me fazer umha ideia? (nom vai ser o demo de que eu já o "conheça"). Umha aperta

Sr. J disse...

Olá Antom, o meu nome é Alexandre Fdez. Villaverde. Estivem na Rolda de Rebeldia, mas só como espectador, não falei em nenguma mesa. Penso que não nos conhecemos em persoa polo de agora. Uma aperta a até pronto!