sábado, 12 de março de 2011

Geração à rasca, na Galiza e Portugal

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Um artigo do Carlos Aymerich publicado hoje no Xornal.
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Ontem, o governo português anunciou novas medidas de austeridade que, como é costume, batem no lombo dos de sempre: despedimento mais barato, novos incrementos do IVA e dos gravames sobre tabaco, álcool e automóveis, novos recortes nas pensões e no subsídio de desemprego e liberalização de rendas de aluguer antigas. Um intento á desesperada de acalmar os mercados e conseguir recursos com os que pagar uns juros que esta semana se colocárom já por riba do 8%.
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Mas semelha que desta volta Portugal não vai suportar calado este novo ataque contra o bem-estar e a coesão social. Hoje ás 15.00 horas o coletivo impulsor do manifesto da Geração à Rasca tem convocado protestas em Porto, Lisboa e outras cinco cidades contra um estado de cousas que entendem inaceitável. Os autores do manifesto, redigido em primeira persoa do plural, são os “desempregados, quinhentoseuristas e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, mães, pães e filhos de Portugal”, a geografia completa da precariedade. E dirigem-se aos “responsáveis pela nossa atual situação de incerteza: políticos, empregadores e nós mesmos” na procura duma “alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável”. A diferença doutros tempos, o manifesto dos enrascados não denúncia incompreensões ou reação contra gerações anteriores. Radical e simplemente reclama o direito a trabalhar para lhe “dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal” sem ficar á espera de que os problemas se resolvam.
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A protesta –apartidária, laica e pacífica–, apoiada polo Bloco de Esquerda e o PCP, mas aberto, em palavras duma das suas impulsoras, “a todos os partidos, todos os elementos da sociedade civil, todas as associações, todas as religiões porque a precariedade atravessa transversalmente toda a sociedade civil” semelha refletir o espírito dum tempo e duma geração que, com novos discursos e novas ferramentas, quere superar de vez a desordem neoliberal entanto trabalha na construção duma alternativa.
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Quiçais o que julgamos uma revolta limitada ao mundo árabe e islâmico recolha um sentir mais estendido. Quiçais os estudantes gregos de hai dous anos –“não precisamos gás lacrimogêneo, já choramos nós sós”– prenderam a mecha dum movimento cujo espírito recolhem os Deolinda no que já se converteu no hino duma juventude que não quer ficar calada: “E fico a pensar, que mundo tão parvo que até para ser escravo é preciso estudar”.
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“Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela”. Assim conclui o manifesto dos enrascados. Portugal manifesta-se hoje ás 15.00 horas. Galiza fará-o manhã ás 12.00, em Santiago, para reclamarmos também o nosso direito a construirmos um futuro melhor.
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