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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Wiener sem filtro: Cibernética e Sociedade



Se estudaches algo de electrónica, automática ou comunicações provavelmente associarás o nome de Wiener ao do seu célebre filtro. Apresentado em 1949, é um clássico das técnicas de processado de sinal, que parte de considerações estatísticas para reduzir o nível de ruído. Mas o seu inventor, Norbert Wiener, foi mais que um técnico; mesmo a palavra "cientista" queda curta para o descrever. Tirando de tópico, poderíamos dizer que foi um home do renascimento: um pensador com curiosidade por muitos campos do saber, que realizou aportações em vários deles e contribuiu a fundar a moderna cibernética, disciplina à que batizou. Uma das suas inquietudes foi o papel da ciência e a tecnologia na sociedade e as suas consequências políticas, questão na que, como veremos, mostrou uma enorme clarividência.

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Norbert Wiener não assistiu à escola primária, senão que foi educado em casa polo seu próprio pai. Apesar de (ou talvez graças a) isto, foi um neno prodígio: rematou o ensino secundário aos 11 anos, diplomou-se em matemáticas aos 14, e obtivo o título de doutor em Harvard aos 18. Ademais da sua especialidade - as matemáticas - estudou também filosofia e zoologia; e despois de doutorar-se viajou a Europa, onde trabalhou com gigantes intelectuais como Bertrand Russell, Hilbert ou Landau.

Durante a 2ª Guerra Mundial trabalhou perfeccionando técnicas de defensa antiaérea para o exército usamericano, mas, polas suas convicções pacifistas, rejeitou participar no Projecto Manhattan, que desenvolveria a bomba atómica. Despois da guerra amosou a sua oposição à crescente militarização da ciência; rejeitou participar em projectos do exército, não aceitando financiamento dessas fontes; e ainda em plena Guerra Fria relacionou-se com cientistas soviéticos. A maior parte da sua carreira profissional desenvolveria-a no MIT, onde ocupou a cátedra de matemáticas e chegou a ser nomeado "Institute Professor" (cargo concedido só a alguns catedráticos de trajectória excepcional; não abonda com ter um prémio Nobel para consegui-lo). Disque foi um professor popular ente o alunado, polo seu caráter excéntrico e cercano.

A sua obra fundamental é Cybernetics (1948), que subtitulou "Ou control e comunicação no home e na máquina". Esta frase define perfeitamente o objecto da disciplina à que dá nome o livro: trata-se do estudo dos processos de comunicação e control (onde os mecanismos de feedback, ou realimentação, jogam um papel fundamental) de forma unificada tanto para sistemas artificiais (máquinas) como naturais (seres vivos em geral, não só o ser humano). Trata-se dum trabalho pioneiro, que antecipou campos como a robótica ou a mui recente biologia de sistemas. À sua introdução pertence o seguinte fragmento, no que Wiener prevê as possíveis consequências negativas da tecnologia que el próprio contribuía a fundar, e reflexiona sobre algumas questões que ainda hoje estão de actualidade: a influência dos câmbios tecnológicos na evolução da sociedade, o reducionismo de avaliar opções políticas unicamente em termos econômicos, as limitações dos indivíduos e dos coletivos organizados para entender os problemas e actuar ajeitadamente para corrigi-los... enfim, uma pequena maravilha que compre ler com atenção. Deixo-vos com ela, e sede compreensivos com a tradução que é, como de costume, "feita na casa":

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(...) Desde hai tempo tenho claro que o moderno computador ultra-rápido é em princípio um sistema nervoso central ideal para um dispositivo de control automático; e que as suas entradas e saídas não tenhem por que ter a forma de números ou diagramas, senão que bem podem ser, respectivamente, as leituras de órgãos sensoriais artificiais tais como células fotoelétricas ou termômetros, e o acionamento de motores ou solenóides. Com a ajuda de galgas ou elementos similares para ler o desempenho destes órgãos motores e “realimentar” ou informar ao sistema de control a modo de sensor kinestésico artificial, estamos já em condições de construir máquinas artificiais de quase qualquer grão de sofisticação nas prestações. Muito antes de Nagasaki e da consciência pública da bomba atômica, já se me ocorrera que aqui estávamos na presença de outra potencialidade social de importância nunca antes vista para o bem e para o mal. A fábrica automatizada, a cadeia de montagem sem agentes humanos, só estão separadas de nós pólos limites que ponhamos à nossa vontade de investir tanto esforço no seu desenho como o que foi investido, por exemplo, no desenvolvimento da técnica do radar na segunda guerra mundial.

Tenho dito que este novo desenvolvimento tem possibilidades ilimitadas para bem e para mal. Para começar, converte o domínio metafórico das máquinas, como o imaginou Samuel Butler, num problema bem imediato e não metafórico. Dá-lhe à raça humana uma nova e mui efetiva coleção de escravos mecânicos para levar a cabo o seu trabalho. Esse trabalho mecânico tem a maioria das propriedades econômicas do trabalho escravo, ainda que, ao contrário que o trabalho escravo, não acarreta os perversos efeitos diretos da crueldade humana. Porém, todo trabalho que aceita as condições de competição com o trabalho escravo, aceita as condições do trabalho escravo, e é essencialmente trabalho escravo. A palavra chave desta afirmação é competição. Pode que para a humanidade seja uma cousa boa que a máquina o releve da necessidade de tarefas subalternas e desagradáveis; ou pode que não o seja. Não o sei. Não pode ser bom que estas novas possibilidades sejam avaliadas em termos de mercado, do dinheiro que aforram; e são precisamente os termos do livre mercado, a “quinta liberdade”, os que se tenhem convertido numa ladainha do sector da opinião norte-americana representada póla Associação Nacional de Fabricantes e o Saturday Evening Post. Digo opinião norte-americana porque, como norte-americano, é a que melhor conheço, mas os mercachifles não conhecem fronteiras.

Talvez clarifique o marco histórico da situação atual se digo que a primeira revolução industrial, a revolução das “escuras fábricas satânicas”, foi a desvalorização do braço humano pola competição da maquinaria. Nengum salário que lhe dê para viver a um pica-pedreiro americano é suficientemente baixo para competir com o trabalho duma escavadora. A moderna revolução industrial está similarmente destinada a desvalorizar o cérebro humano, polo menos nas suas decisões mais simples e rotineiras. Por suposto, ao igual que o carpinteiro qualificado, o mecânico qualificado, ou o sastre qualificado sobreviveram até certo ponto à primeira revolução industrial, do mesmo jeito o cientista qualificado e o administrador qualificado podem sobreviver à segunda. Porém, uma vez realizada a segunda revolução, o ser humano médio de méritos medíocres ou inferiores não tem nada a oferecer polo que alguém queira pagar.

A resposta, por suposto, é ter uma sociedade baseada em valores humanos diferentes à compra e a venda. Para chegar a esta sociedade precisamos de muita planificação e de muita luita – a qual, se todo vai bem, poderá ser no plano das idéias, e em caso contrário – quem sabe? Assim, sentim que era o meu dever passar a minha informação e entendimento a aqueles que tenhem um interesse ativo nas condições e no futuro do trabalho – é dizer, os sindicatos. Conseguim contatar com uma ou duas persoas com responsabilidades na C.I.O., que me escoitárom com muita inteligência e simpatia. Além destes indivíduos nem eu nem nengum deles fomos capaz de chegar. A sua opinião, que coincidia com a minha informação e observações prévias tanto nos USA como em Inglaterra, era que os sindicatos e os movimentos de trabalhadores estão em mãos de persoal altamente especializado, minuciosamente preparado para os problemas de disputas salariais ou de condições de trabalho; e totalmente carentes de preparação para afrontar as questões mais gerais de tipo político, técnico, sociológico e econômico que afetam a mesma existência do trabalho. As razões para isto são bem doadas de ver: o delegado sindical provém polo geral da exigente vida dum administrador sem nenguma oportunidade para uma formação mais ampla; e para aqueles que tenhem esta formação, uma carreira sindical não é polo geral atrativa; nem tampouco os sindicatos, naturalmente, são receptivos a essas persoas.

Aqueles de nós que tenhem contribuído à nova ciência da cibernética estamos assim numa posição que é, por dizi-lo suavemente, pouco cômoda. Temos contribuído ao começo duma nova ciência que, tal e como dixem, abarca desenvolvimentos técnicos com enormes possibilidades para o bem e para o mal. Só podemos entregá-la ao mundo que existe no nosso entorno, e esse é o mundo de Belsen e Hiroshima. Nem sequera temos a opção de suprimir estes novos desenvolvimentos técnicos. Pertencem à sua época, e o mais que poderíamos conseguir por abstenção seria deixar o desenvolvimento da matéria nas mãos dos mais irresponsáveis dos nossos engenheiros. O melhor que podemos fazer é tentar que um público amplo entenda a tendência e a importância do trabalho atual, e confinar os nossos esforços persoais a aqueles áreas, tais como a fisiologia ou a psicologia, mais afastadas da guerra e da explotação. Como temos visto, hai quem espera que o bem duma melhor compreensão do home e da sociedade que oferece esta nova área de trabalho pode antecipar e compensar a acidental contribuição que estamos a fazer à concentração de poder (o qual sempre está concentrado, polas mesmas condições da sua existência, nas mãos dos menos escrupulosos) . Escrevo em 1947, e por força tenho que dizer que é uma esperança mui cativa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Steven Chu: câmbio climático, aforro energético e relação entre investigação pura e aplicada


As Compton Lectures são umas charlas que tenhem lugar no MIT desde 1957 e que são impartidas por oradores de mui alto nível. Não tenhem uma periodicidade fixa, e desde o seu início tem havido uma média inferior a uma por ano. São por tanto um evento bastante excepcional, assi que tivem muita sorte de poder assistir a uma este ano. Em concreto, a impartida por Steven Chu, prémio Nobel de Física em 1997 e novo Secretário de Energia da administração Obama. O tema (O problema energético e a relação entre a investigação básica e aplicada), não podia ser mais interessante, e o encargado de falar dificilmente podia ser mais acaido; e a verdade é que a charla não defraudou. Porque Steven Chu não só é algo parecido a um génio, também é um orador excelente... e além disso tem uns pontos de vista sorprendentemente refrescantes.
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Dum secretário de energia dos USA esperaria escoitar nestes momentos uma mensagem tranquilizadora ante a crise energética global: relativizar a sua gravidade, dizer que sairemos dela pouco a pouco, apostar por buscar novas formas de energia... pois nada disso: desde o primeiro momento Chu pintou um panorama estarrecedor, com um câmbio climático mais acelerado do previsto e com umas necessidades energéticas mui conflictivas. Como solução, nada de fugir cara adiante, senão ir ao básico, investigando em como reduzir o consumo. E sobre como organizar a investigação e o que podemos agardar dela, nada melhor que um repaso a alguns fitos da história recente, que el conhece de primeira mão polo seu passo por Berkeley, Stanford ou os míticos laboratórios Bell. Mas, melhor que tentar resumir o que dixo, é que o vejades e escoitedes vós mesmas: Nesta página pode ver-se o video da charla, assi como as transparências (e ligações a mais recursos, como um artigo relacionado). Recomendável ir vendo as duas cousas (video + slides) ao mesmo tempo, para seguir melhor o fio. Garanto-vos que será uma horinha bem aproveitada.
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domingo, 10 de maio de 2009

Crónica da charla de Noam Chomsky no MIT

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Quando me decidim a fazer a estadia no MIT tinha, ademais do lógico interesse no tema da investigação, um par de alicientes adicionais: 1) ver algum partido dos Celtics, e 2) ver e ouvir a Noam Chomsky ao vivo (pedir-lhe alguma colaboração para Outra Esquerda já seria demasiado...)


Uma vez que já fum um par de vezes ao Garden, ficava por cumprir o 2º objectivo... e estava por pensar que seria complicado, pois não tinha notícias do Emérito Professor de lingüística. Mas a passada segunda-feira (4 de maio), ao consultar a interminável lista de eventos desse dia, atopei-me com “Palestine Awareness Week. Chomsky on Palestine-Israel”. Bingo!


O tema não era quiçais o mais sugerente: mais uma vez a escoitar falar sobre o irresolúvel conflito de Oriente Próximo, em lugar de escoitar o que Chomsky nos poderia dizer sobre... bem, basicamente sobre qualquer outra cousa; por exemplo, sobre a sua conceição da anarquia, como já temos recolhido nestas páginas. Mas bom, tinha que ser interessante, e assi foi.


Num auditório ateigado de gente bem predisposta, Chomsky estruturou a sua charla em 3 partes. Na primeira, repassou a história dos últimos 40 anos de conflito, sempre desde a perspectiva da actuação USAmericana. Começou lembrando como a postura dos USA tem consistido desde 1971 em obstaculizar o “Consenso Internacional” que avoga pola constituição de 2 Estados. E como na prática tenhem apoiado a postura israeli de que já existe um estado palestiniano, chamado Jordânia, e que o status de Palestina deve ser determinado por Israel.


Diferenciou entre um autêntico estado palestiniano e o que Netanyahu denominara numa ocasião “polo frito”: referira-se a que eles estavam dispostos a dar-lhes algumas terras nas que Israel não tivesse interesse e largar para ali os palestinianos, e se queriam chamar-lhe a isso um estado, podiam fazê-lo... ainda que também podiam chamar-lhe de qualquer outra forma, como “polo frito”. Assi pois, para Chomsky a chave era se os USA estavam dispostos a apoiar a criação de um estado verdadeiramente digno de tal nome ou simplemente a seguir apoiando a doutrina de Netanhayu. Na sua opinião, só houvo um momento em que os USA mudárom a sua postura, e foi brevemente durante os últimos meses da presidência de Clinton.


Na segunda parte, Chomsky analisou que possibilidades haveria na atualidade de chegar à solução dos dous estados. Amosou escassa confiança na política da administração Obama, que nem sequera está disposta a escoitar o governo eleito polos palestinianos. Porém, Obama não é exactamente continuísta, senão que avoga por reformular as suas prioridades no Oriente Próximo, querendo isto dizer, basicamente, que aposta por deixar a um lado o tema Israel-Palestina e formular uma aliança... contra o Irão. Para o qual, os USA não duvidam em se aliar com estados tão pouco modélicos como a Arábia Saudita ou o Egipto. Mas isto não significa que se deixe de apoiar a Israel; ao contrário, a ajuda USAmericana mesmo se vai incrementar.


Na terceira parte foi o turno das preguntas desde o público. Foi aqui quando nos decatamos de que, ademais da voz cascada, o bom de Noam está já algo surdo (como é natural em alguém de 80 anos). Mas não por isso deixou de respostar às preguntas que lhe fixerom durante três quartos de hora, até que a organização dixo que havia que parar. Nas suas respostas, amosou-se céptico sobre as possibilidades de que a UE ou China exerçam nenguma influência no conflito: a China por não incomodar os americanos, os europeus por não ter uma força militar própria (a respeito disto, dixo que a razão de ser da OTAN hoje em dia era principalmente manter a Europa dependente militarmente dos USA). Preguntado sobre os palestinianos que foram expulsados das suas terras antes de 1967, dixo que deveriam ser autorizados a regressar a elas, com apoio da ONU, mas que isso desgraciadamente era mui improvável. E que, se se assumia que o seu retorno era impossível, como mínimo deveriam ser relocados noutro sítio. Não todo foram preguntas amistosas: preguntado sobre se os israelis deviam aturar o lançamento de foguetes desde Palestina, se havia direito a isso, Chomsky respostou que para el, esses lançamentos eram actos criminais. E que, se não “nos” gustavam (este “nós” referido aos usamericanos), talvez deveriamos dar-lhes bilhões de dólares aos palestinianos para evitá-lo (não engadiu “como fazemos com Israel”).


Cumpre lembrar que Avram Noam Chomsky (esse é o seu nome completo), aínda que nado nos USA, é de pais judeus (seu pai era um judeu da Ukraina, sua nai da Bielorrússia), foi criado no que el descreve como um “ghetto judeu” de Philadelphia, e mesmo fijo a sua tesina sobre o hebreu moderno. Portanto, dificilmente se lhe poderá acusar de antisemitismo; e dada a sua trajectória intelectual, acho que ninguém poderá acusá-lo sem ruborizar-se de fazer parte de uma suposta esquerda pro-islamista... desqualificações que estamos afeitos a escoitar em boca de alguns quando ouvem críticas semelhantes as que fai Noam Chomsky.


Enfim, a ver se outro dia fala do socialismo libertário! ;-)


terça-feira, 28 de abril de 2009

Judy Layzer e a sustentabilidade

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Judy Layzer é professora de Política Ambiental no MIT. Recentemente lim uma espléndida entrevista na MIT Sloan Management Review, na que explica os seus pontos de vista sobre a sustentabilidade. A seguir traduço o que me pareceu mais destacado, mas os que não tedes problemas com o inglês podedes ler a versão original.


Como defines sustentabilidade?

Tenho uma definição de sustentabilidade que reflicte os meus valores, e é que temos que operar dentro dos límites físicos e biológicos da Terra. E dentro disso, necessitamos desenvolver sistemas sociais que sejam justos e sistemas econômicos que poidam funcionar ao longo do tempo - que não se destruam a si mesmos nem aos recursos dos que dependem.

Para mim, é sobre os sistemas que sustentam a vida. São da corda de Herman Daly. Tomo a sua definição de sustentabilidade como própria.

Qual dirias que é a definição comunmente aceitada?

(...) A definição convencional é a do taburete de três patas: que a justiça social, o desenvolvemento econômico, e a regeneração ambiental são todos componhentes essenciais, e que hai esse ponto doce no médio onde todos se atopam. Eu não uso o taburete de três patas. Não lhe atopo utilidade. A minha metáfora preferida é o contêiner. Isto é, os nossos sistemas sociais e econômicos tenhem que operar dentro das restricções dum sistema natural saudável, com capacidade de recuperação; o sistema natural é o contêiner para os sistemas sociais e econômicos.

Mas essa definição não só é controvertida, também é a antítese de como o mundo está organizado actualmente em termos de como manejamos a economia global. Se tentássemos implementar a minha definição, conlevaria uma transformação dum tipo que moi pouca gente pode realmente imaginar (...) A gente que acredita o que eu acredito está em contra do modelo econômico estándar, o qual apenas di nada sobre os sistemas naturais - e, de feito, assume que os produtos do engenho humano são infinitamente substituíveis por capital natural. Eu não acredito nisso. Por suposto, é moito mais cómodo pensar que podemos virar sustentáveis sem renunciar a nada.

A minha visão é que temos que consumir um montonazo menos (...)


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Adoita-se dizer que as crenças cômodas não vão mudar até que a gente comece a sentir efectos diretos que as ponham a prova. Quando os preços da gasolina subam abondo, talvez conduza menos; os mecanismos de realimentação estão aí, e sufro os efectos persoalmente. O câmbio climático, não tanto -não é?

Bem, os temas relativos à auga - muitos dos quais dependem do câmbio climático - estão nos primeiros postos da agenda nos estados ocidentais dos USA (...). Os californianos não estão mais orientados cara a sustentabilidade porque tenham ética ecologista; é também porque estão a experimentar os efectos do câmbio climático, com problemas com a auga e lumes mais extremos e frequentes. As suas vidas diárias estão a ser afectadas em muitos casos.

Que pressões relacionadas com a sustentabilidade pensas que vão ter maior impacto? Que vai ser o primeiro que faga que a gente câmbie os seus comportamentos?

Penso que nos USA vão ser os preços da energia, isso está claro. Porque somos suficientemente ricos para desalgar auga e reconstruir infraestruturas para tratar o tema da auga. E temos o dinheiro para limpar a contaminação do ar e da auga a nível local. Globalmente, os desafios medioambientais estão muito mais interrelacionados a curto prazo do que o estão nos USA, mas aqui vão ser os preços da energia.

Hai um montom de câmbios saudáveis e de oportunidades que virão a consequência da suba dos preços da energia, por suposto. Nas cidades, haverá um massivo abandono do carro. Haverá mais ênfase no transporte de massas a pé ou em bicicleta. Assi como um maior ênfase em financiar infraestrutura que sustente essas formas de desprazar-se, em oposição às infraestruturas baseadas no carro. No que respeita aos edifícios, prevejo um interesse tremendo por modernizá-los. Prevejo que haverá mais esforços por moderar os problemas medioambientais inmediatos nas cidades, como ilhas de calor ou problemas com as chúvias, o que significa mais teitos verdes, paisages urbanos verdes, plantações de árvores.

Acho que a gente voltará às cidades, e quando se tenham que desprazar para ir ao trabalho, fará-no doutros jeitos. Os longos desprazamentos em carro estão a diminuir, como deve ser.

Todo isto é em certo sentido o sonho de qualquer urbanista. É a forma em que pensavamos qe a gente deveria estar a viver de todas formas.

Quais pensas que vão ser os obstáculos para afrontar estes problemas?

O maior impedimento é o feito de que nenguma das cousas que são limitadas no nosso sistema natural tenhem preços. Não ponhemos preço ao carvão, não ponhemos preço aos serviços dos ecosistemas. Se imos fazer isto - quero dizer, se realmente o imos fazer - então temos que pôr-lhe preço ao que é escaso.

Começando polos preços dos recursos naturais finitos...

Hai que começar por aí. Por dizer: que escasea no mundo hoje em dia? E não são os seres humanos, nem é o capital feito polo home. Nadamos no capital financeiro. Mas o que é cada vez mais aterradoramente escaso é o capital natural. E apenas temos começado a falar sobre como pôr-lhe preço.

Se eu fosse ditadora mundial, o primeiro que faria seria reduzir drasticamente os impostos sobre o trabalho e a câmbio pôr-lhe preço aos recursos naturais. Obter as rendas públicas desse jeito. Isso seria para mim o mais importante que poderiamos fazer para colocar-nos no caminho da sustentabilidade.

Os obstáculos políticos, obviamente, são enormes. Em primeiro lugar, a gente que tem o poder político atualmente não concorda comigo. Isso é um problema, porque são os que teriam que pôr-lhe preço ao capital natural. E a indústria joga com o desejo cultural de ter todas estas cousas de balde, ainda que hai alguma gente na indústria, uma minoria, que realmente trabalha a prol da sustentabilidade.

Isto não é idéia minha, por certo—Herman Daly leva 30 anos dizindo-o, junto com um punhado de economistas ecologistas.

A predição econômica clássica sobre isto, não seria que não nos deveriamos preocupar seriamente de pôr-lhe preço às cousas até que comecemos a sufrir as consequências de não fazê-lo?

Si, mas... Hai um par de problemas com isso. Por uma banda, a globalização enmascara os verdadeiros custos da degradação ambiental durante moito tempo, porque os países ricos podemos apropriar-nos dos recursos e do trabalho dos que são menos capazes de resistir.

O outro problema é que os sistemas naturais não evoluem suavemente, senão de forma abrupta. Assi que os mercados não reflectirão os problemas até que seja tarde de mais. Podemo-nos atopar com um sistema natural que aparentemente funciona bem, e que de súpeto fique destruído por completo. E para quando reconheçamos o dano, já será realmente tarde de mais para fazer nada (...)

Hai algum desenvolvimento relacionado com a sustentabilidade que aches prometedor?

Si. Uma àra que representa uma verdadeira oportunidade é o pulo cara o biorregionalismo na comunidade ambientalista. O biorregionalismo seria a criação de unidades que estejam baseadas nalgum carácter biofísico—como a Baía de Chesapeake, que é uma bacia.

Durante moito tempo os ambientalistas venhem interessando-se em que quase todo suceda ao nível biorregional, incluíndo a construção de economias arredor desses níveis. Para mim isso é moi sensato. Não redundaria numa autosuficiência biorregional completa, mas rematariamos por organizar os nossos sistemas de alimentação e de resíduos, por exemplo, dentro dessas regiões ecológicas.

Não está isso em contraste direto com todas as tendências globalizadoras de mercados que conhecemos?

Si. Ainda que, com os preços da energia aumentando, já nos estamos a decatar de que é mais barato produzir a comida localmente que a 10.000 kilómetros de distância. Podem-se dar os mesmos argumentos sobre o transporte, edificação, energia. Pensa nas oportunidades energéticas regionais, por exemplo. Em Nova Inglaterra, produzirias muita eólica; em Arizona, muita solar; nas Rochosas, geotérmica. Mas o tema é que pensarias desse jeito. Eu acho que o potencial em termos de dignidade humana e conexão real com a gente que vive onda ti é enorme.

Queres dizer que seria um paso atrás cara a aldéia pre-industrial—esse tipo de interconexão e interdependência comunitária…

Estamos noutro ponto já, assi que não imos retroceder ao passado, mas poderiamos inventar algo novo que conseguisse alojar os milhares de milhões de persoas da Terra e fazê-los mais conectados os uns com os outros. Penso que precisamos dum novo modelo de desenvolvimento para um mundo de 9.000 milhões de persoas. Hai que reconhecer que nisto vou mui à contra do pensamento econômico dominante, mas o biorregionalismo é muito mais comum do que adoitava ser.

Existe alguma maneira de que as empresas podam começar a capitalizar estas tendências e tomá-las em conta nos seus planos estratégicos?

Bem, eu som fan do biomimetismo—isto é, desenvolver soluções que imitem e aprendam dos sistemas naturais (...) Também hai uma grande oportunidade em innovações que fagam os produtos mais simples (...) Por exemplo, uma das poucas cousas que merquei este ano foi um tendedeiro fantástico. Alguém inventou como fabricá-lo com materiais relativamente benignos e de forma que dure para sempre, assi que é algo relamente de alta qualidade. E agora já não tenho que usar a secadora. Este produto realmente simplificou-me a vida.

As empresas que atopem a forma de fazer cousas tendo em conta tanto o aspecto biológico como o técnico—de forma que se considere o ciclo de vida do produto—vão triunfar. Penso que vai haver uma demanda de produtos deste tipo, esse é o meu prognóstico.

Parece que descreves produtos e experiências que nos conmovem por razões que talvez nem entendemos—agás polo feito de que são, francamente, agradáveis. Cres que esses benefícios serão cada vez mais reconhecidos e pagados?

Si. E às vezes as cousas são agradáveis porque fam muito sentido. Ás vezes podemos perceber isso—e eventualmente lhes assignaremos um valor (...)

Uma economia sustentável não vai estar baseada no desejo de consumir tantas porcarias como seja possível. Vai estar baseada no desejo de menos cousas, mas cousas realmente boas. Boa comida, bós produtos, cousas que durem.

Este é realmente um modelo diferente. E, sabes, a gente não se vai fazer rica. Mas haverá mais gente que poida viver moderadamente bem, e, não será isto muito melhor? No fondo, quem quere ser rico?

Bem, moita gente quer ser rica.

Aí é onde creo que realmente temos que fazer um trabalho de marketing para convencer à gente de que não é preciso para ser feliz, ou para estar bem. As investigações amosam concluintemente que não o é. Moitos de nós somos a prova vivinte de que não o é. Eu rejeito constantemente oportunidades de ganhar mais cartos porque prefiro ter mais tempo. Não preciso ter mais cousas.

Sabes que estás a soar como mui guai, não si?

Si... mas o gracioso é que, se miras para mim, não poderia ser menos guai. Não encaixo no modelo. Não vivo numa cabana, como seria a caricatura. E a maioria da gente que sinte como eu tampouco encaixa no modelo. É uma caricatura estúpida que foi mui efectiva para marginalizar a preocupação polo meio ambiente. Funcionou moi bem durante um tempo, mas bom, acho que já rematamos com isso.